Silas Corrêa Leite
 

AS    BEXIGAS

"Flor-de-ir-embora
E'flor que se alimenta
Do que a gente chora"
     
      Fátima Guedes
 "...eu escrevo certas coisas para me livrar delas"
      Jorge Luis Borges

    

                            Quando o filho único de Rodrigo Casagrande Bonilha fazia aniversário, era um deus-nos-acuda, um pandareco. Enfeitavam todo o apartamento de classe média ali no bairro de Santa Cecília, perto do centro velho da cidade de São Paulo, compravam belíssimas bexigas importadas da Europa, arrumavam tarecos às pencas. Era um "desboque" no bolso ou na poupança antiga da Caixa Mercantil Federal. Rodrigo pedia gentilmente para o velho genitor já meio pré-senil e esclerosado  enchê-las todas, no decorrer da semana que se anunciava com o prometido (e anual) "forfé". O bendito avô  Agenor demorava dias na lida com as cores sortidas, pondo acentuado afeto para caprichar na ajuda caseira e emperiquitar seu cantinho, além de florear prazeres ao  único neto Thiago José que amava tanto. Punha carinho nos sopros com arremate de sublimar afetos demorados. Sofria, doíam os pulmões, queimavam os pequenos e secos lábios quadrados, murchos e frouxos. Labutava com empenho, no entanto. Tinha muito prazer nessa tarefa útil.

O lar ficava uma belezura de "chique" e alvoroçado de matizes e iluminuras. Começavam a enfeitar quase que uma semana antes, dando colorido antecipado ao ágape caseiro. Copos variados, desenhos diversos em isopor fino, línguas-de-sogra, caracóis plásticos ondulados de personagens populares da Terra do Nunca, chapéus de papel-crepom, decoração com estilo infantil de primeira. Além de engraçadas flores de papel-arroz com desenhos em alto relevo de príncipes, gnomos, fadas e rostos encantados como sonhos impossíveis. E as enormes bexigas, lindas.

                            Pois foi numa ante-véspera do que seria a festa do guri primogênito de Rodrigo, que o velho Agenor Casagrande finou; "viajou fora do combinado", como diziam seus conterrâneos Itarareenses. Teve inicialmente um mal súbito. Foi internado às pressas. Falta de oxigênio no cérebro, disse o médico especialista do convênio de plantão. Morreu na mesa de operação, antes sequer de ser pensada a última tentativa de reanimá-lo, antes do terminal recurso que eventualmente poderia evitar o  derradeiro suspiro.

Não houve, então, o festim mais que prometido. Rodrigo "garrou" enterrar o pai em Itararé, aldeia bucólica ao sul do estado de São Paulo, de onde eram originários  e onde tinham túmulo da família no Campo Santo das Andorinhas. Uma tristeza fora de propósito, inesperada. O velho não passara dos sessenta anos. Aliás, vivera sempre em precária situação financeira e de saúde, doente do mal de chagas que era, com parcos recursos recebidos como aposentado precoce do Instituto de Pensão e Previdência dos Comerciários. E era triste demais para Rodrigo, pois tinha perdido a mãe ao nascer prematuramente; o pai acamado,  uma irmã de criação e o piá primogênito  eram a família dele. Alça e mira. Da esposa casca-grossa se separara mal-e-mal após uns três anos de casório, se tanto. A tipa era detestável, dura de lidar, sem-seca, ruim de convivência e ainda sempre de pá virada, meio esquizofrênica como lhe  inteirara o Dr.Jonas de Alencar , médico da Santa Casa de Misericórdia de Itararé.

Deixou o menino com a irmã de criação na cidade natal que adorava tanto. Precisaria preparar o filho, dar um tempo, fazê-lo entender melhor o rompimento para que ele não sofresse a perda algo prematura e repentina do avô querido e apegado. Depois dos ditames burocráticos todos, voltou para São Paulo pois apesar de tudo tinha que continuar se virando, a luta continuava, o show da sobrevivência possível não podia parar nunca. Chegou cedo na metrópole paulistana, voltando do  tranquilo interior. Não deu tempo nem de ir em casa buscar uma nova muda de uniforme profissional  pro batente. Foi direto para o serviço. Era Chefe de uma área de torneiros-mecânicos numa concessionária de picapes em município adjunto à capital. Teria que labutar mesmo com o peito entrevado. Trabalho difícil com horas extras para reforçar o ganho e poder , quem sabe um dia, comprar uma casinha em Itararé e voltar a viver em paz perto da parentaiada dinheiruda e boa de gandaia.

Voltou à noite para  casa. Antes, como de costume, para não desvariar o trivial, passou no barzinho do Gaúcho perto da Avenida Angélica e beliscou uns torresmos gordos. Comeu mais uma empadinha de palmito e bebericou: um rabo-de-galo caprichado e duas cervejas preta. Para pelo menos não esmorecer, quem sabe até fugir da sofrência, esquecer a dor que era rente no íntimo. Ouviu conversa fiada de alguns parceiros de ocasião, improvisados colegas de bebericar alhures. Chegou no apartamento meio bêbado e ainda mais depauperado. Parecia que o álcool tinha era lhe reviravoltado as tenras reminiscências. Onde já se viu? pensou. A relembrança dolorida do lar fazia recordar os últimos anos (e definitivos dias) do  cândido patriarca. Depressão roendo vazantes. Deu as costumeiras duas voltas na fechadura de segurança máxima. Abriu. Acendeu a luz forte da saleta. Assustou-se: DEUS DO CÉU!

                            Lá estavam as benditas bexigas dependuradas!

                            E, pior: com o Ar do seu velho pai! - Seria o oxigênio que faltara ao velho? matutou ensimesmado; afinal, o ancião tinha sido fulminado por uma espécie de derrame repentino...Sofreu profundamente vendo a montoeira de colorido triste que para ele era somente o símbolo fatal da Morte que outra vez o deixara só, como já o fizera  quando ao nascer perdera a mãe nas dores do parto difícil que o trouxera à luz. Tinha  esse remorso-cisma encruado num gomo do peito transido. Era sina sua ser desnorteador de acontecências ?

                            Bexigas penduradas em pregos, falsas estátuas de gesso imitando rusticamente a mitologia grega, vasos  bregas e artesanato primitivo trazidos de um vilarejo rural de Itararé, mais quadros abstratos e paredes improvisadas para melhor redistribuir o espaço raso da habitação. Linhas com bandeirolas e bexigas, algumas grandes, outras médias, umas tantas pequenas ou murchas. Vestígios de preparo para a impossível e já passada festa do filho herdeiro. Passou-se de coração pisado. Chorou no banheiro, como se a querer esconder-se de si mesmo naquele lampejo crucial de dor.Com remorsos e a consciência pesada. Será o impossível? Cisma. Medo caiando abaladas  trevas na mente desaguada. Degraus do íntimo. Escovou os dentes e foi dormir transido, "neuras" à flor da pele

De manhã despertou bruscamente com o rádio-relógio sapecando, num programa sertanejo auroral, a dupla Tonico e Tinoco num "cururu" ligeiro e adoçado de humor folclórico. Pé de Cedro foi a canção rural seguinte. Pulou então da cama. Tinha tido um sono agitado, pesadelos graúdos de erranças, uma noite difícil. Estava em cima da hora, observou apurado. E ainda teria duas conduções ruins até o município industrial de Taboão da Serra. Vida corrida. Tempos tenebrosos. Carestia reinando. Ditadura militar incompetente, corrupta, violenta e senil fundando abismos  escabrosos no país.

Ao dirigir-se para o box fazer as primeiras necessidades e o necessário asseio matinal, viu as bexigas no sombrio corredor. Amarelas, vermelhas, verdes, azuis, roxas e até  brancas como hóstias. Levou um susto interior que mal conseguiu conter. Todas com o  ar sagrado dos pulmões do pai. Sentiu ainda no ambiente amuado o carregado cheiro do "Loção Brilhante" que o velhote usava para tentar escurecer o bigode a " la Carlitos " . Viu as roupas  usadas dele na pequena cama de armar. Chinelos de couro cru gastos de um lado, cuecas samba-canção com ceroto de uso, pijamas cerzidos, corta-febre, cachecol de flanela xadrez , patacão de prata do tempo da onça. Entre papéis amelados, cadernos de rascunhos poéticos, documentos já sem utilidade e tralhas usuais. E juntando à saudade o cheiro de mofo no rústico carpete sujo; falta de arejamento. Os livros de sonetos parnasianos encardidos, manchados de uso, pó nos móveis de pinho envernizados a mão pelo velho arigó e outras decifráveis pegadas de vivência. A irmã Oneida que cuidava da casa, mais o guri Thiago José estavam retidos em casa de parentes importantes de Itararé, divisa com o Paraná, 350 quilômetros dali. Achava-se sozinho como sempre se sentira, numa solidão que brincava de alardear entre colegas boêmios ser genética, visceral, de aura e halo;completava fazendo tipo e uso da imaginação para tentar identificar-se, decifrando-se.

Forçou o  rude leque de alumínio das venezianas. Abriu as vidraças poluídas. A casa estava era precisando de mais ventilação. Ar puro. Que falta a irmã de criação fazia, pensou. Sentiu saudades do filho. Foi trabalhar ensimesmado, algo com a pulga atrás da orelha. Cismando. Alguma coisa ali não cabia em si, não fazia sentido; o quê estava acontecendo? Havia algo de estranho, como se de sobrenatural,  pescando eito no ambiente. À noite voltou no mesmo córrego cotidiano: salgadinhos no bar, tristeza de jeca e latejar de dores por causa da perda irreparável. Além das "canjebrinas" para esquecer-se um pouco no desboque de foro íntimo, desfazer os nós cegos de sua sensibilidade machucada.

Abriu a porta do apartamento e preservou-se para renovar-se na surpresa feito expectativa de toleima. O bendito vento diurno tinha feito volume dentro do lar, tinha ornado calha, armação. Benza-Deus, cochichou para ninguém. Ninguém? - As bexigas tinha saltado dos pregos, das  imitações de estátuas gregas, das linhas frágeis do imaginário fendido até. E esvoaçavam inúteis como parnasianas pombas prediletas. Soltas ao iscar de uma vau de ar encanado, restavam pelo chão de saibro encerado da casa, aqui e ali. Marotas ralavam pisos úmidos, vasos de terra seca, cestos de juta e vime, restos e resíduos.

Como sinais de um sânscrito invisível de adeus, silenciosos ícones, tímidos prenúncios, frágeis prelúdios com zíperes de vazios. Com modulados ondulos de cores fortes, fartas. No quarto, na cozinha, na área de serviço com roupas para lavar. Entre pedras, gerânios e jornais velhos. Algumas murchas, delicadas como preces. Outras bem cheias ainda, vaidosas de si, mas soltas como cabras cegas dentro do seu lar em petição de total abandono. Como se esquilos transparentes, mansos, dóceis, quase de feitio estranhamente  humano. Sem enfrentações que fossem. Amuou.

                            Depois, chateado, chutou algumas bexigas para debaixo do sofá rosa onde o finado pai fazia a sesta após uma sessão de novela da tarde qualquer. Na cozinha deparou com outras bexigas. Como podiam ser inúmeras assim?  Não imaginava tanto. Como nuvens moles acompanhavam o leito raso do vento vindo das janelas, dos cantos ermos das portas entreabertas. Vento encanado ou não. Semeadas pela residência vazia, davam-lhe calcificante benvindar não decodificado totalmente. Num aspecto horrivelmente terreal. E assim foi a sina. Desacorçoou.

                            Um dia, no entanto, postou-se com estranha improvisada coragem. Estava de tromba, passado com aquilo tudo que não compreendia.  Algo quizilento - não podia suportar mais, Deusolivre! -  Arrancou dezenas de Bexigas, fez uma espécie de monte delas  com raiva mal concatenada. Juntou numa fieira única de barbante grosso, numa espécie de cipoal rústico só e atirou janela à fora daquele apartamento de vigésimo-sexto andar.  Viu-as, remoçadas, com estilo, fazendo uma espécie incrível de verão. Ganhando os ares da capital cinza, entre tetos altos, topos de postes, torres de telhas goivas, antenas rabo-de-peixe de tevê e chaminés com sinais de progresso não consumado para o viés sócio-comunitário. Despojo rude. Afinal,  teria que voltar todo santo dia para casa e teria que saber lidar com os remendos da saudade crua, dos vestígios de ausências. Retalhos de sentir

Era ali seu tanto. Quebrando o olhar num ver repentino, reparou que ainda haviam muitas bexigas. Saíam debaixo da mesa de fórmica, da namoradeira de imbuia-brava, das camas de campanha, do armário imbutido. E de cima das prateleiras onde antes repousavam enfeitadoras, aguardando o tal frustrado festim que afinal não houvera.  Agora eram uma cisma. Desalinho. Debulhar de memórias puras. E medo.

Viu-as no quarto-cubículo do finado genitor. Entre a dentadura dupla e o canivete seboso de picar fumo caipira. Perto das coisas pessoais e intransferíveis dele. Viu as bexigas ao lado da cama como garças leves. O pai tinha caprichado nalgumas. Estavam bem amarradas, fortes,  bonitas, viçadas de amor pelo viver enquanto ternura de criação. Presilhas do éter? O ar possivelmente quente que as mantinham no vivo do ali, havência, era o preenchimento pelo suor e sacrifício de quem amara tanto. Amara imensamente mas não tivera nunca  coragem-calço para dizer, confessar-se rendido à grandeza do pai. Entregar-se para quem era sua alma inteira. E que apesar de tudo tinha sido preparação e cunha vital de sua existência. Aprumo importante para uma vida e cunha para um referencial de vivência .

Intrigou-se com as Bexigas;estranhou-as. "Deusolivre".

Como se tivessem vida própria, incomum, ora rente ao seu passar, ora ao eu lado ou mesmo como se andarilhavam pela casa. "Encafifou". No banheiro, botou algumas porta à fora, pois queria fazer as necessidades em paz e sozinho, possível fosse. Quando mal saiu, viu uma bexiga vermelhona entrando para dentro, sentido do vaso sanitário. Tocada por um vento indizível. Tocada pela sua sensibilidade de ocasional "sentidor"?  Seria apenas um mero alísio silvestre ou mesmo um   "el niño"  temporão?  Talvez um maldito  ventinho carrilhão?...

                            Enquanto preparava um chá de hortelã com erva-cidreira na cozinha pequena, viu uma  bexiga pertinho da porta que dava para a sacada externa de serviços, lados da lavanderia cheirando a sabão em pó (ou seria éter  -  de detergente?...) . Viu que ela estava querendo ir embora. Parecia querer alçar vôo. Empinava-se como um Pássaro-Flor ornado pela mira inexplicável do ar de meia-estação que batia rente ou dentro, movendo-a languidamente.  Queria ir atrás das outras companheiras renegadas?  - Partilhar?  - Completar-se?

                            Ligou o rádio da cabeceira para tentar ouvir o jogo do Timão em amistoso contra o Santa Cruz de Recife.

Viu uma bexiga amarela perto de uma pasta de documentos do pai. Ao lado de uma outra lilás. Como se estivessem em conferência. Ou trocassem silenciosas confidências. Pareciam conversar com um grande e pesado quartzo róseo que trouxera de uma pedreira pública de Itararé, e que no cume do momento calçava uma portinhola atirada, para que o vento não batesse arejador acordando a vizinhança implicante do Condomínio Balthazar.

O mesmo ventico que parecendo  polar  mexia com as cortinas encrespadas, papéis de apontamentos vários, identidades perdidas, fraldas de anciões, folhinha do Sagrado Coração de Jesus, avencas murchando por falta de água e samambaias verdejantes gostando da ventilação. Agora o "disgramado" alísio  desplantava bexigas que no seu fito eram marcas vivas da presença do seu Pai ainda "encostado" ou redivivo a brincar com seu medo e insegurança também afetiva. Mãe da misericórdia!  exclamou. Revisitou-se com traumas, inseguro, avesso.

Um dia até tentou pisar em uma bexiga atravessadora de seu rápido caminho curto. Não conseguiu nada. Ela escapuliu lépida como ele nem podia imaginar. O quê era aquilo tudo? Não conseguiu nada. Assustou-se. Cuidou-se com carinho de ofender-se, machucando-se intimamente no abrupto que se restara nervoso, passado. Arrependeu-se amargamente. Dúbio. Desacerto e procura. No outro dia , saudoso e ao mesmo tempo enraivecido ( - medo criando coragem - ) -  com a ponta de uma faca de cortar pão sovado e passar manteiga caseira cutucou de jeitão pueril uma bexiga lilás, bonita, tesa. A vaca foi pro brejo! Deus do céu! Minha Nossa !       

                            Sentiu (no sopro que súbito escoou se evaporando ) uma divina quentura que ascendeu à sua própria aura. O halo de seu saudoso pai! O cheiro do suor, do hálito, da vida expropriada dele. Acidente de percurso revisitador? Selo da promessa? Correu emocionado catar a bexiga rasgada como um ente mal aberto num simplório Ver-Sentir  imenso. Foi em busca, ávido, desatinados que estavam  todos os sentidos. Ainda havia dentro o molhado oxigenador do velho Pai . Cheirou com represada ternura e cheio de si. Filhote. Chorou convulso agarrando aqueles quase restos sem conteúdo qualquer do que mal sabia realmente o que eram. - Foi em rumo da vida eivada. Em busca de outros cursos ou elos dos  restos do seu pai que estavam em partilha terreal, fantástica. Onde já se viu? Era sua herança sensorial. Caiu-se à cata de cores, odores, formas novas de contatos, outras tardias intimidades desaprendidas. Lanhos de uma vida depurada noutra havência, noutra dimensão, noutro plano; desesperadamente filho órfão num quase desatino. Correu aloprado feito um traste em polimentos íntimos. Grude.

No quarto já não havia mais nenhuma bexiga. Na sala amuada de presenças nem sinal de nada. Onde estavam? Será o impossível? maldizeu-se. Deus-o-livre-e-guarde, murmurou .Ficou de butuca. Empacou na procura algo descabida.  Deitou-se no chão. Procurou embaixo do sofá mas só encontrou pitos perdidos e cerotos antigos. Na cozinha só um isqueiro abandonado, um cinzeiro exótico cheio de resíduos sem valor, um guarda-chuvas sem mão de carinho. Perto do tanque de cimento a cuia de chimarrão seca e imprestável pois trincara na exposição direta  ao sol. E os lenços usados do velho com desenhos gastos de bordados cavalos negros.

                            Na despensa meio quarto-de-despejo  as  esquecidas enormes Asas que o pai usara no Carnaval de sete anos atrás em Itararé, quando até recebera prêmio pela perfeita fantasia de "Anjo Vésper". Claras, lindas, feitas pelo velho com isopor, esmalte, felcro, muita criatividade, ternura e amor por forrobodós dantescos. Na biblioteca improvisada ali mais alguns livros de poesia barroca, série de brochuras  de ficção cientifica e outras coisas. No estranho quartinho de trastes velhos, latas vazias de rapé, quebrados rádios toscos, borboletas secas,  cabides falsos, ruas (da infância) em Itararé, vôos de pássaros que não existem, beiras de rios secretos, lagartos de imaginários besouros verdes,  espantalhos de milharais esquecidos  e até algumas escondidas marotices revisitadas na angústia da consciência pesada. Estaria delirando? -      Siricotico fora de ocasião? Engenhos de dentro. Coleções piratas. Uma quase loucura doentia.

Agora que era profundamente aceitador, procurava sinais, eles não estavam mais presentes. Nunca mais estariam? Não se apresentavam lúcidos. Abriu a porta que dava para uma outra área de serviços; que dava para um imenso ver lá fora. Garrafas vazias de cerveja preta sem  sequer pedidos de socorro. Os gerânios externos abertos altos para o espaço infinito. Algumas  intrusas ervas daninhas verdes e tenras como nunca. As roupas cuoradas enfeitando um varal largo. Oferta e procura no passar dos anos? Impregnação de atiço. Sinais de recontatos íntimos, aceitadores. Técnica de reaproximação consigo mesmo. E Rodrigo no destemperado  desespero  como sempre, carente, vago e falho. Incompreensivelmente perdido dentro de seus íntimos e mal-administrados  moínhos e ventos de erranças.

Chorando de saudade incomodadora, levantou os olhos molhados e viu a copa de uma frondosa árvore ao longo, uma velha mangueira agora sem quaisquer pássaros. Nela, todas as bexigas reunidas como se num ritual, num passageiro ofertório, feito uma página de resto. Concentração de luzes. Casadas no ninho daquele espaço magno.  Centenas, talvez perto de mil. Agrupadas como um cacho de todas as cores, até as inexistentes. Enxoval lírico. Guirlanda de luzes etéreas, magistrais. Juntas, ao sabor da natureza-mãe e nas ternas mãos leves de  um vento especial que as envolvia carinhosamente. Sem medida de tempo, estigma de ruptura ou dor-dimensão. As bexigas saudavam seu observador e preparavam salto (ou vôos) para irem em busca de uma outra trilha, outro "sentidor-receptor" mais apurado, direto, concordato e perspicaz. Doloroso hangar de amorosa entrega sem aceitação ou gume de rompimento que fosse. Não há sensações no esquecimento. E esquecer é matar dentro do confeito do Sentir.

Quando, finalmente, tempos dolorosos depois a vida de Rodrigo Casagrande Bonilha pescou de novo a bruta  simplicidade cotidiana, o  piá único voltou preparado e a  prestativa irmã de criação também. Rodrigo então contou emocionado a sofrência sem limites, o que tinha se passado feito uma alma penada em casa; revelação de tentar reatar a havência quase arrancada de si, do seu redor, de sua aproximação filial. Tinha entendido que o oxigénio de seu finado pai tinha se ido, mas ele de alguma forma ainda estaria dentro de si, em seu coração, em sua alma, em sua mente. Em seu neto-continuação. De alguma forma amparando-o com préstimo de magistral carinho. Compreendeu, ao seu jeito, que a morte  de alguma maneira não existia. Morrer era uma mera travessia de estágio ou degrau, talvez um circunstancial aplainar de arestas  nesse inferno chamado vida da espécie. Mas, e as Bexigas, afinal?

A irmã Oneida que o separara da mulher em tempos idos, em  Itararé ainda , forçando-o a cuidar do pai solitário e do filho o qual depois de uma curta demanda legal ganhara a guarda na justiça, estranhou aquele papo furado, refugou sobremaneira. "Ratiou" feio. Onde já se viu aquilo agora? É bem perigoso. Levou quem trouxe, arrematou topetuda.  Fazendo chiste curto, achando-o com  panca de   " bananeira que já deu goiaba",   brincou; usando um dizer popular dos Itarareenses quando ficavam ressabiados com algum assunto mal explicado ou "causo" esquisito pra mais de metro de conversa fiada.

                            -Como assim? - Quis saber Rodrigo,  desesperado, procurando mureta emotiva para se encostar feito tulipa doente,  caínho, maleixo. Sapecado de susto, trauma e frustração. Então a irmã de criação explicou para o pobre Rodrigo  intrigado:

                            -...não ficou bexiga alguma aqui em casa. Imagine só. Assim que você levou o corpo de papai para Itararé, antes de irmos atrás , de ônibus, eu catei e joguei-as todas no Incinerador perto das garagens subterrâneas. E sentenciou, preocupada com as trincadas  estruturas sensoriais daquele que amava às escondidas:

                            -Você andou vendo coisas!

                                                   



 
   

 

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