Silas Corrêa Leite
LA VITA
Parodiando Vininha
a vida, quem diria
é a arte do escambo
(embora haja tanto
escombros
pela lactea via)
DREAMS
não conto carneirinhos
para pegar no sono
conto
sonhos impossíveis
quase tentativas de abismos
TULIPAS
fiz um verso solitário
como tulipa de incenso
guardei-me nele tão vário
que nunca o achei em mim mesmo
(poesia é um extraordinário
papagaio de pirata do silêncio)
NOSSA SENHORA
nossa senhora da esperança
tende piedade de mim
ajudai-me nessa havência
que careço crédito
nossa senhora do rosário
tende piedade de mim
dai-me alguns brioches
e status de burgês
nossa senhora da natividade
olhai meu coração pobre
dai-me uma musa-vítima
mansão em Miami
............................................
(nossa senhora de Jesuscristinho
tende piedade de mim
que estou ficando outro
E CÉTICO.QUASE POETNA.)
POEMA DE 2.222
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DESCOBERTO VIDA EM MARTE
EM JÚPITER
ENQUANDO ISSO NA TERRA :
GUERRAS
EBOLA
NEO-LIBERALISMO
GLOBALIZAÇÃO
PODRES PODERES
FOME
G-10
CAPITALISMO-CÂNCER
(NÃO HÁ SERES HUMANOS NA TERRA
NÀO HÁ VIDA INTELIGENTE NA TERRA)
-O-
PREPARO
escrevia escondido bilhetes de suicidas em potencial
copiava na xerox clandestina do hospital do câncer
e enviava para todas as posudas instituições
secretas e oficiais
para hangares, quarteis, silos, jornais
não como um pedido de socorro - jamais -
mas como um aviso, um alerta
um mero lembrete
de que somos todos preparados racionais
para sermos banquetes de vermes
NADA MAIS
VOCÊ
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você não me olha
fora do surto circuito
você mal me tem
cabeça tronco e membros
você me colhe
fora do pacto adrenalina
você mal me obtém
abdomem dezembro
você me embruma
fora do sulfa-diazepam
você Mao-Tse Tung
zen de escombros
.............................
você não me levis
fora da moda nódoa
você matusalem
eu rês suspectível
DENÚNCIA
denuncio: meu ócio é ímpio
(o remorso é caso de pelúcia
ou batom pomada)
denuncio: meu sócio é índio
(o neurônio é quase cúmplice
ou trem de pouso)
denuncio: meu aço é de bilro
(a escória é quase calibre
ou tatami e círio)
(denuncio: meu pier é pífio
e a poesia de asa-ofício
quase cuneiforme rio)
SABER
sei quando faço uma poesia plena
de mim mesmo
como uma ordenança
sei quando perco
e a imaginação dança
sei quando o erro é acerto
e acabo
de mim mesmo imaginando
o que perco, o que ganho
quando vou me lanhando
só sei que aprendo
quando crio e me dispo e me rendo
à evidência da poesia
ciência do meu dia-a-dia
como se a alma a sedar clemência
CALIX BENTO
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já pensei em entrar para um convento
ser a pedra de lázaro
ou o jumento
do presépio ao calvário ele mesmo centro
e endereço
já pensei em permanecer alumbramento
ser o frescor da mirra
ou o advento
de tudo que cabe no absoluto intento
do começo
já pensei em ser instrumento
da poesia de Davi
ou unguento
onde na cruz o ladrão limpa-se por dentro
do avesso
(já pensei em entrar para um convento
conhecer o cálix bento.
permaneço?)
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O S
OS LÍRIOS
NÃO NASCEM
ALIMENTAM-SE
OS POEMAS
NÃO FLOREM
ACIDENTAM-SE
OS ANJOS
NÃO POETAM
ESTÃO CÍRIOS
CÂNTAROS
uma vez parabolizei você
no meu caminho
barulhou meu coração
que bondiou a paixão
revisitada
uma vez encantalizei você
no meu caminho
cascas e fagulhas, dor
signifincando cântaros
angustias
(hoje que te me olho seu
encrespúsculo-me
e sinto-me irresponsável:
paixão assim é faca de dois cumes
- eu sou só irracionalmente
acreditador -
em paixões sem calças)
CATEDRAL DA SÉ
crianças drogadas
e prostituídas
dormem abandonadas
sob a catedral
da Praça da Sé
cheia de grades
e pombos intoxicados
que obram em estátuas
e santos de barros
inúteis, bizarros
PALHAÇOS
no ônibus lotado
um senhor idoso
desempregado
vestido de palhaço
pedimplora esmolas
e critica o povinho
alienado
que votou no cínico
circo neo-liberal
NHENNHENNHEN
NA FILA DO SHOPING-CENTER
O POVO
GADO MARCADO
COM CARTÕES DE CRÉDITO
ENTRA NO CURRAL DA MÍDIA
E PASTA POSES E CONSUMOS
NEO-BOBOS
CLUBE
NO CLUBE MILITAR
MARAJÁS HISTÓRICOS
E HISTÉRICOS
RECLAMAM OBESOS
SENIS
DO PROLETARIADO
QUE QUER JUSTIÇA SOCIAL
E CASAS PARA OS SEM-TETOS
E TRIGAIS PARA OS SEM-TERRAS
E PÃO E MEL E MANÁ
E PÉTALAS
NÃO O BISONHO CIRCO
HORRENDO
DE TERNO, GRAVATA E FARDAS
(BACHARÉIS, ECONOMISTAS, MARECHAIS)
COM O POBRES DE FOME MORRENDO. . .
-0-
"...todo o nosso conhecimento nos leva
mais próximos da ignorância
toda a nossa ignorância nos leva
para mais próximos da morte
uma proximidade da morte
que não é a proximidade de Deus
onde está a vida que perdemos no viver?
onde está a sabedoria que perdemos
no conhecimento
(T.S.ELIOT)
Editora Nova Fronteira - Quarta Edição - 1993
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