Luiz Carlos Amorim



A CASA DO FINAL DA RUA


- Psiu, garoto!

Júnior voltou-se, rapidamente, para ver quem lhe tocava as costas, chamando-o. Era um homem alto, de cabelos grisalhos, usando óculos e um terno bastante surrado. Não o conhecia.

- O senhor está falando comigo? – perguntou, não muito interessado pelo desconhecido. Acabara de sair da escola e estava voltando para casa. Era hora do almoço e sabia que sua mãe não gostava que chegasse atrasado.

- Sim, eu gostaria que você me fizesse um favor – disse o homem em tom ansioso, olhando para os lados, ao mesmo tempo em que segurava um dos ombros de Júnior – quero que entregue este pacote na última casa daquela rua – mostrou-lhe um embrulho menor que uma caixa de sapatos e apontou a rua que começava logo adiante – Eu lhe pago.

- Eu entrego, sim senhor – entusiasmou-se, com a promessa de remuneração.

- Então, tome – entregou-lhe o pacote, metendo a outra mão no bolso, de onde tirou duas notas de dez reais meio amarrotadas. Deu-a a Júnior e foi embora, apressadamente.

O garoto guardou, feliz, o dinheiro e saiu com o pacote debaixo do braço, balançando a maleta escolar com a outra mão. Tinha apenas nove anos e sua família não era das mais privilegiadas, por isso aquele dinheiro significava uma fortuna para ele. Além disso, sentia-se orgulhoso porque ele o estava ganhando por um trabalho que estava prestando e nem sentiu curiosidade de saber o que havia no pacote.

Desceu a rua e foi até a casa indicada, bateu na porta e esperou. Um homem carrancudo, com ar desconfiado, abriu a porta apenas o suficiente para enfiar a cabeça para fora e perguntar:

- O que você quer, garoto? 

- Pediram que eu entregasse este pacote aqui.

O homem pegou o pacote e fechou a porta. Só então Júnior sentiu o sabor de mistério que envolvia sua pequena missão. Considerou aquilo uma aventura. Afastou-se e parou para perscrutar a casa: era, na verdade, um casarão velho e, se não soubesse que alguém morava ali, julgá-lo-ia abandonado. Interessante, nunca prestara atenção naquela parte da rua – ele morava mais acima, quase no centro do bairro e não costumava vir até ali.

Foi para casa e, no caminho, parou na banca de revistas: não resistiu e comprou um pouco de balas e algum chocolate. Afinal, podia pagar. Ao chegar, sua mãe, preocupada com o atraso, quis saber onde arranjara dinheiro para comprar as guloseimas que estava comendo.

- Ganhei de um homem, para entregar um pacote na casa velha lá do fim da rua de baixo.

- Já lhe disse que não deve aceitar nada de estranhos. Não deve sequer falar com desconhecidos na rua. Vá lavar as mãos e venha almoçar.

Apesar da bronca, Júnior ficou fascinado com a sua pequena aventura e, no dia seguinte, ao sair da escola, resolveu voltar ao casarão. Observou-o por algum tempo e decidiu explorá-lo. A porta da frente estava fechada. Olhou pela janela, mas não viu ninguém. Foi para os fundos e experimentou a porta – estava aberta, apenas encostada. Entrou no que deveria ser a cozinha, mobiliada apenas com uma mesa, duas cadeiras e um fogão. Em cima deles, panelas e pratos sujos.

Passou por outro cômodo, vazio, e entrou num quarto. Viu um homem dormindo em cima de um colchão estendido no assoalho, a um canto. Ao seu lado, sobre uma cadeira, uma garrafa e um copo – e o pacote que entregara no dia anterior, entreaberto. Aproximou-se para ver o que havia dentro dele, mas o assoalho estalou e o homem acordou. Uma arma surgiu instantaneamente em sua mão.

- Que está fazendo aqui? – perguntou o homem, o mesmo que lhe atendera na manhã anterior.

Júnior, assustado, deu meia volta e saiu correndo, mas o homem o alcançou. Tentou segurá-lo, mas o garoto começou a espernear e a gritar e teve que dar-lhe uns safanões. Olhou em volta, procurando alguma coisa para amarrá-lo. O menino parou de gritar, apenas choramingava.

Enquanto o amarrava com tiras de um lençol que rasgara, com a ajuda dos dentes e uma mão – a outra segurava o garoto – reconheceu-o.

- Mas foi você que trouxe a mercadoria, ontem, não foi?

- Sim, o pacote – apontou para o embrulho desfeito que, agora mais próximo, deixava ver uns saquinhos plásticos contendo um pó branco.

- O que é isso? – perguntou, mais por curiosidade, pois não imaginava o que pudesse ser.

O homem respondeu com outra pergunta:

- O eu você veio fazer aqui? Por que voltou?

- Estou com fome. Quero ir para casa...

.................................................................................................................................................

Era quase uma hora da tarde e Júnior não chegara. Dona Lúcia, a princípio preocupada, estava desesperada, pois seu filho saía da escola as onze e meia e, não tendo chegado até a meia hora da tarde, foi com “seu” Simão até a escola, para tentar saber o que houvera.

- Ele saiu no mesmo horário de todos os dias – comunicara-lhe a diretora.

Voltaram para casa para ver se Júnior não tinha chegada naquele meio tempo. Não chegara.

Estava se aproximando a hora de “seu” Simão voltar para o trabalho, mas não poderia sair sem saber onde estava o filho.

- Ele nunca se atrasou assim – murmurou dona Lúcia, apertando as mãos com força. Foi então que lembrou dos doces com os quais Júnior aparecera do dia anterior – comprara-os com o dinheiro dado por um desconhecido, para levar alguma coisa à última casa da rua de baixo. Foram à polícia.

.................................................................................................................................................

O menino continuava chorando, pedindo que o desamarrasse e reclamando de fome. O homem amordaçou-o.

Era quase três horas, quando o desconhecido que dera os vinte reais a Júnior chegou, muito afobado. Ficou perplexo ao ver Júnior ali.

- O que é que este pirralho está fazendo aqui? Já não bastava a polícia ter ficado de olho em mim, hoje, novamente?

- Pois é, ele voltou e estava fuçando por aí, viu o que havia no pacote e achei melhor prendê-lo até você chegar, para decidirmos o que fazer com ele.

- Nós temos que dar o fora daqui, antes que a polícia descubra onde a gente se esconde.

- E o garoto? – Zé estava ansioso para se livrar do garoto.

- Vamos deixá-lo aqui. Ele conseguirá romper esses trapos e irá embora. Se o levarmos conosco, só vai atrapalhar.

Ouviu um ruído de carros se aproximando e correu para a janela.

- É a polícia, Zé. Temos que sair daqui e o garoto vai servir de refém para podermos fugir. Não atirarão em nós se o levarmos conosco.

Zé pegou o garoto e o outro pegou o pacote, cada um empunhando seu revólver. Tentaram sair pela porta dos fundos, para irem até o carro, estacionado ao lado da casa. Deram de cara com um policial.

- Mas é Zé Bigorna, o traficante que estávamos procurando há tanto tempo – reconheceu logo – e o outro está realmente envolvido, como desconfiávamos.

- Esperem aí – gritou Zé – nós estamos com o garoto e é melhor vocês ficarem bem afastados, porque ele pode sair ferido, se vocês não fizerem exatamente o que mandarmos.

- Júnior! – gritaram a um só tempo, dona Lúcia e "seu" Simão.

- Não façam mal ao meu filho – pediu dona Lúcia.

Diante daquele situação, impotentes, os pais choravam desesperados.

Um dos policiais, que deveria ser o delegado, dirigiu-se aos demais: 

- Façam o que eles dizem. Não queremos que o garoto se machuque.

Júnior, no entanto, vendo os pais, conseguiu, num repente, soltar-se do braço do traficante e correu na direção deles. Zé, apavorado, começou a atirar.

Um dos tiros atingiu Júnior, que caiu. Os policiais, que tinham se afastado, atiraram também, ferindo os marginais, agora desprotegidos, sem o garoto.

Dona Lúcia e “seu” Simão correram para o menino, no chão, sangrando.

- Filho, fale com a mamãe – pediu dona Lúcia, chorando, enquanto levantava sua cabeça, segurando-a.

- Dói muito, mãe... – gemeu Júnior, desfalecendo. A ambulância chegou logo em seguida.








AMIGOS, AMIGOS... 



Diana era pequena, de nenhuma raça definida, bem vira-lata. Mas tinha graça. Era toda marron, tinha pelos espessos e não parava um segundo, a não ser quando lhe ofereciam comida ou carinho.

Era a mascote e a companhia de “seu” Fritz e de dona Hilda, casal já com alguma idade nas costas, ainda que fortes e trabalhadores. Diana ajudava a afastar a solidão e a saudade do campo dos dois.

Eles moravam na cidade, agora, porque o “seu” Fritz, apesar de forte, sofria do coração e não podia mais trabalhar no pesado. Tiveram que abandonar o campo, a roça, a criação de gado, porcos e aves, para viver na cidade. Não gostavam, mas tinham que obedecer as ordens médicas:

- O senhor não pode mais fazer tanto esforço. O trabalho do campo é muito puxado e o senhor precisa se cuidar.

A casa da cidade era confortável: branca e espaçosa, fazia-se cercada de canteiros, onde os dois podiam matar as saudades da roça, fazendo a sua horta e o seu jardim, os mais bonitos e viçosos do bairro.

O portão, de grades de ferro, dava aos velhinhos alguma sensação de prisão.

- Aqui na cidade a gente precisa de muro, de portão, de grades nas janelas... No sítio, não precisava de nada disso – respondia o “seu” Fritz, quando alguém comentava o capricho no cuidado da casa.

E foi por causa do portão de ferro que eu vim a conhecer Diana. Apesar de pequena, ela não passava pelas suas frestas. O espaço do quintal não era suficiente para a cadelinha: queria sair, correr pela rua, latir para os poucos carros que passavam em frente à casa, para o carteiro e para as crianças. Quando o portão se abria, por qualquer razão, záz! – lá ia Diana rua afora.

Para chamá-la, “seu” Fritz assobiava, o que depois de algum tempo já não funcionava mais. Um dia, ouvi os assobios insistentes do Alemão, como nós, da vizinhança, o chamávamos. Depois de cessados os assobios, um estrondo, seguido dos latidos assustados de Diana e do riso do Alemão.

Ele sabia que Diana tinha medo de trovão ou do estouro das bombinhas dos dias de festa ou de jogo de futebol. Então, soltava uma bombinha e não demorava um minuto para que a cadelinha aparecesse, espavorida, querendo entrar, tentando passar, sem sucesso, pelo espaço apertado entre uma barra de ferro e outra do portão.

“Seu” Fritz ria, abria o portão e passava-lhe uma descompostura.

- Se você viesse quando eu a chamei, não precisaria ter tanto medo – ria mais e depois fazia-lhe um carinho.

A despeito da atitude um tanto radical do Alemão, Diana não se emendava e a cena se repetia.

Até que “seu” Fritz teve problemas com o coração, foi para o hospital e voltou apenas para ser velado. Além de dona Hilda, quem mais sentia a morte do velho era Diana. Gania pelos cantos, rondava a porta da sala e chegou a entrar, choramingando ao pé do caixão, mas alguém a enxotou.

Diana nunca mais foi a mesma. Não ouvi mais seu latido alegre ou assustado, não a vi mais correr em disparada pela rua, não ficou mais entalada no portão. Talvez porque não houvesse mais o assobio para chamá-la, ou mesmo o estrondo da bombinha, a bronca do amigo e o carinho depois...





 Editoria e Direção

Irene Serra
irene@riototal.com.br