Fernanda

Guimarães

poesias selecionadas

 


 

A Voz das Minhas Mãos


Pede-me moderação a mão destra
Como se possível fosse emudecer
Os gestos que anseiam o toque
Dedilhado pelos caminhos da escrita
Quando são os versos precipício e refúgio
A canhestra emoção entorna dos dedos
Ignorando a vigília do comedimento
Ou a calma que me indica a ponderação
A palavra em mim é sempre exposta
Inquieta e nua, engolindo silêncios

Tenho na ponta dos dedos
O lado de dentro do peito
O verso e anverso do que não sei
Meu viés e reverso confessos
Sou de dizeres fartos e incontidos
Que se lançam impulsivos no papel
No abismo de linhas desconhecidas
Minha caligrafia não acalenta brisas
Descobre-se e sabe-se em ventanias
Escrevo sempre intensamente
Como se a última palavra fosse
E na voz de cada letra
Balbuciasse o derradeiro suspiro

© Fernanda Guimarães
 
 
De Saudades



Os olhares deixam-se tecer pelos fios da espera.
Em tuas ausências, descubro-me em ansiedades
Rendida à ternura do lembrar, ao afago do recordar
É como se entregasse o peito ao desatar do sentir
E num soprar de silêncios incontidos, confessasse-me
Renegando o claustro, a tortura do emudecer-me
É que os versos aliciam minha pretensa quietude
Derramam-me de quaisquer supostas medidas
Transbordam insones nas águas despertas
Do coração que só se sabe a viver em ti
É que deste às minhas letras tuas senhas
As entrelinhas dos teus desejos e expressões
Assim conjugo-te em meus assombros
Como se o “eu” e o “tu”, a qualquer tempo
Fossem sempre feitos do inequívoco nós
Ardem em minhas mãos os teus gestos
E tudo parece combinar com o tudo de mim
Entrelaçam-se meus dedos quase sem ar
Como a buscar vestígios do que não foi dito
Vezes, dispensas a palavra, o passo seguinte
Asfixiando o que tanto sei e que não revelas
Mais ainda ficas em mim nesses momentos
Quando te pensas à salvo em tuas fugas
Nesses dias, em que tudo me falta
E um fino fio me sustenta a alma
Alterno-me entre luas prateadas de saudades
E dias que me escrevem sobre teus cheiros
Como se a visão fosse também olfato e paladar.
Minhas mãos sempre acham que virás
E compõem e me delatam sem pudores
Dizem dos meus encantamentos e delírios
Desse estremecer permanente que me rodeia
Quando te vejo em meus olhares...

© Fernanda Guimarães

 

 
 
 
Tua

Pertenço-te no silêncio dos meus lábios
Que dão guarida aos meus segredos.
Pertenço-te na primeira luz da manhã,
Enquanto o sono abraça teus olhos,
Posseiro dos teus caminhos e vontades.
Pertenço-te, sem saber porque, nem como,
Sem explicações e mesmo anonimamente.
Pertenço-te no desejo atrevido e úmido
Que te instiga a imaginação e te dilui a razão.
Pertenço-te quanto mais me negas,
E sei-me tua nos beijos que não me deste,
Nos arrepios que eriçam meu nome em tua nuca,
Nos sussurros que em tua boca acorrentas.
Pertenço-te na indecisão das tuas mãos,
E nas tuas tantas deliberadas recusas,
Nas trilhas que ocultas tuas confissões.
Pertenço-te na distância que me impões
Quando transbordam carícias do teu corpo
E indefeso, clamas para que meu tato adormeça.
Pertenço-te nas entregas que adias,
Nos carinhos que tão bem atas,
E que vais somando aos teus desamparos.
Pertenço-te, quando teu corpo debruça-se
Buscando em meu êxtase, os teus ais.
Pertenço-te no espalmar de tuas ânsias
Quando em teus lençóis, procuras-me
Resgatando-me nos vestígios dos teus sonhos.
Pertenço-te no entrelaçar dos teus dedos tensos,
Quando ainda não presumes minha chegada,
E hesitas em fazer-me teu destino, porto e acalanto.
Pertenço-te, quando te ausentas de ti,
E apenas a saudade de mim te alcança.
Pertenço-te sem horas, sem entender onde
Porque sempre fui tua, antes mesmo de te amar...

© Fernanda Guimarães

 
 

Dos Teus Olhares
 


Sei que me dirás da ternura
Que anseias e esperas de mim
Nada entretanto me redime
Sou desmedida, sempre incontida
Dada aos desatinos e profundezas
Guardo nos olhares meus abismos
E a dor imperceptível das sombras

Sei que me falarás de aconchegos
E que me trarás em teus olhos
A palavra suspensa a amparar-me
E que me envolverás com tua doçura
Vestindo-me com teus esmeros e cuidados
Revelando-me o prazer das pequenas coisas,
Desnudando-me com teus fartos sorrisos

Sei que me queres para a vida
Que tuas mãos seguem-me em vigília
A socorrer-me dos meus bocejos
Dos adormecimentos que dou ao meu peito
E que não te distrais, nem desistes
De tirar-me dos meus alheamentos
Colorindo o luto dos meus passos

Sei que me mostrarás as auroras
Que me apontarás o sol, os caminhos
Imagens que insisto em silenciar
No colo dos meus abandonos
E que darás ao vento meus fragmentos,
A tempestade que me afoga a alma
Os precipícios que me entortam a calma

© Fernanda Guimarães

 
 
 

 
 
Do Que Não Sabes


Desconheces os meus vendavais
O ventre onde guardo rebuliços
Pensas que podes me supor
Entre as frases que vais unindo
Quando te oferto minhas brisas
A nudez em mim nada revela
Antes encobre-me de mim mesma
Como se existisse sempre um véu
Vigiando-me o corpo, a alma
Não é apenas por olhar-me assim
Tateando palavras em meus lábios
Espreitando o abismo do não dito
E, de quando em quando, bebendo
Da modorra das minhas águas
Que saberias da mudez do meu mundo
Há uma vida dentro de mim querendo acontecer
Esta que o coração tenta antecipar
Quente, como a buscar a respiração contida
E as mãos ficam a desenhar o traço perdido
A paisagem distraída inventada pela solidão
Contorno de mim mesma, sem vazão
E se gotejam lágrimas dos meus silêncios
É que são meus olhos, a própria dor
Por talvez dizerem o que não sei de mim

© Fernanda Guimarães
 


 





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