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Fernanda
Guimarães
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poesias selecionadas
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Esta Noite Virás
Esta noite virás
E haverá uma lua a tocar-me o rosto
Já encontrarás a porta entreaberta
Meu cheiro a se confundir com o teu
E os passos do desejo em minha pele
A sussurrarem pelo idioma da tua boca
Verás carícias em minhas mãos
Densas, explícitas, inquietas de despudor
Como água de nascente a jorrar
Ansiando o caminho do teu corpo
Esta noite virás
E haverá num instante, meus delírios
Para que tuas mãos acolham
A paisagem irisada da minha pele
Inclinada de estrelas, como se viesse
Para te beijar toda a escuridão
E escutarás a harpa dos meus sons
A vibrar sob teus olhares palpitantes
E cantará entre teus dedos minha melodia.
Esta noite virás
E haverá um beijo silenciando nossos lábios
E deitarás teus gemidos em meus seios
Como pássaro que descobre o céu
E deixarei derramar-se em tua língua
O desatino, o mar que me transborda
Na ondulação da carne que fulge
Porque é em ti que tudo principia
Quando teus olhos descerram-me
E sentam à mesa do meu prazer
Porque é em ti que bebe minha sede
© Fernanda Guimarães
Um Poema Que Não Será Lido
Não digas que conheces minhas dores
Deixas-me com meus desamparos
Não sabes do estio dos meus lábios
E das marcas que abraçam minha solidão
Pedaços de ti que arranham meu corpo
Não penses que é melhor assim
Nem pressuponhas que a saudade finda
Como se o teu silêncio e deserção
Apagassem o perfume do desejo
Ou a inquietude de sentir-te em mim
Não me obrigues a entender a crueldade
Prefiro ignorar esta estrada que dizes destino
Não quero dar-te ao esquecimento dos sentidos
Nada sei destas trilhas em que sucumbes
Soterrado pelos passos que te negas
Não me convides às tuas renúncias
Nem me batizes nestas águas
Que sangram e definham teu peito
Tenho ardores de vida que me cingem
Férteis à espera que te resgates de ti
Não me amputes de mim, dos meus sonhos
Nem me indiques tuas confortáveis saídas
Prefiro o rasgar de entranhas, a febre do sentir
Ao discurso patético do conformismo
Lanço à fogueira, a impotência, o desistir
Sim, hoje estou em carne viva
Palavras à flor da pele, despindo-se
Ainda que seja este um grito confinado
Ao subterrâneo do meu mundo
Este que já não te alcança.

De Alguns Silêncios
A última vez que te vi, partias.
O coração contrito já provava saudades
Sabem as mãos das tuas ausências
E tecem inquietudes, desdobrando o tempo
Como a negar esta desmedida solidão
Em que se refugiam meus olhares.
É que é tua a voz que me vasculha,
Quando em todos os meus silêncios
Ato os nós da garganta da vida.
Há em mim uma ternura implícita e líquida
Que só se derrama em tua sede
Em tuas faltas, diluo-me sem gestos.
Sabe-me a espera, em lenta agonia.
Quisera que fosse somente esta aflição
Que dizes me tomar plena e insone,
Quando me rabisco traço perdido.
É a doçura dos teus dedos que conhece
Meus frágeis refúgios, recônditos
Em que me dedilho com o som do grafite
Notas que somente teus ouvidos alcançam.
Basta um sinal qualquer vindo de ti
Para que as palavras desenhem-se sóis
Secando as dores estendidas no peito.
És este itinerário que me abriga
Convite tácito ao meu destino
Não te fies aos meus silêncios.
Não quero nos lábios limites
Para que saibas, o que me habita:
O eco de desamparo dos meus cristais,
Os muros, os desertos, os seixos
Em que me reconstruo, reaprendendo-me.
Na dicotomia do viver, desfolho-me
Inventando outonos primaveris.
Porque há na angústia atravessada
Vezes uma cegueira absoluta e necessária,
Vezes a tormenta que incita qualquer certeza.
Ainda assim é vã a tentativa de ocultar
Que é só em ti que me sei gerúndio.
És o que sempre perdura e vivifica
A soma do resto dos meus dias
O que antes chamei de acaso...
© Fernanda Guimarães

Em Noites Como Esta, Quero Falar de
Amor
Em noites como esta, quero falar de amor
Espero o adormecer do concreto das ruas
O emudecer dos passos apressados
Aguardo que a voz das minhas mãos
Indique-me as confissões, as sendas
Em noites como esta, quero falar de amor
Desarquivo os gestos, os desejos, os desatinos
Invoco os abraços, os cheiros, os beijos despidos
Celebro-me e dou-me ao imprevisível
E a impaciência da minha pele que me enlaça
Em noites como esta, quero falar de amor
Faço as pazes com a lua, ponho a cama na varanda
Convoco os suspiros das estrelas, sei-me em delírios
Pinto a retina de gemidos, visto-me de arrepios
E de olhos semicerrados, descalço-me da espera
Em noites como esta, quero falar de amor
Escrevo em meu corpo, as propostas que silencias
E desafio o teu prazer, para que me leias em braile
Seguro-te as mãos, e entre afagos e afetos
Tatuas-me com teus sons que me dizem sim
Em noites como esta, quero falar de amor
Por isso, invento cores que meus olhos não vêem
E o sentir transcende, o entretanto do tempo
Sou água, néctar, aroma, sorrisos e carne
Quando me desfazes os novelos da saudade
Em noites como esta, quero falar de amor
Ponho na boca o gosto do mel, ofereço-me
Desato-me das hesitações e digo-me tua
Insinuo-te caminhos, deixo meu ardor em teus dedos
E sou propositadamente, medida inquieta em teu corpo...
© Fernanda Guimarães

De Enigmas e Essências
Mantenho os véus que segredam
A emoção que subitamente imperativa
Toma-nos como rumo e destino
E mesmo bebendo da minha nudez
Indagas-me ainda quem sou
Como se me fosse dado a conhecer
Essas tantas que me habitam
E que se transmudam em cada lua
Essas outras que em mim transbordam
Quando crescem os braços das marés
Mantenho as palavras suspensas
Indiferente ao açoite dos lábios do mundo
Não há porque estilhaçar o silêncio
Ou expor jardins ao vandalismo de mãos
Que desconhecem os sons das fragrâncias
Não revelo as senhas dos meus domínios
Nem cedo as conjecturas dos gestos fáceis
Antes, prefiro acalantar os vendavais
Porque recendem de meus olhares aromas insones
Que aliciam olfatos inquietos...
© Fernanda Guimarães