Dayse Maria R. Moraes



Mergulho...
(Do livro: Pérolas)
 

Aqui não caberão estrelinhas ... Ainda não é noite...
Ontem vivi momentos de ausência , não do espaço geográfico da Terra, nem dos meus próprios espaços territoriais, mas ausente nos meus espaços internos definidos ...
Imagina o que seja mergulhar ?
Não em águas tépidas ou geladas, não visualizando peixinhos dourados e algas vermelhas, mas aqueles mergulhos que se dá vez por outra dentro de nossos próprios mares...
Cuja visão mais espetacular é a da existência simples e sua.
Seja uma existência de brilhos e luzes brancas,
ou de profunda luz azul que nunca permite a escuridão em sua totalidade.
Um mergulho ....
Deparar-me com imagens distorcidas e confusas,
e outras floridas exalando até perfume que desconhecia.
Apenas um mergulho dentro de mim mesma.
Parece simples não é?
Saiba... não é simples...
Há pessoas e pessoas como afirmo, e eu me coloco na condição, de pessoa mais pessoa...
Não sou um conjunto isolado de pensamentos e sentimentos...
Minha existência não é assim individual, porém é crítica...
É profunda...
Talvez como somente quem tem dentro de si o mar possa ser...
Na ânsia da compreensão, na busca de uma integridade,
especial e verdadeira, parti a ponta de um termômetro infantilmente.
Loucura parece? Talvez seja mesmo...
Mas entre todos os metais que existem na natureza ,
e diria até entre todas as substâncias químicas naturais ,
é o mercúrio o único que conheço capaz de unir-se
sem a ajuda das mãos externas. Parte-se em pequenas gotas e une-as...
Por força sua, própria, interna molecular...
Era essa a minha procura.
Fiquei por horas a observá-lo em sua sabedoria suprema.
De unir-se, sem remendos, sem cicatrizes, sem marcas, independentemente da força que em partes o tenha repartido...
Sem cicatrizes e rachaduras...
Inteiro.
Reconstituído em sua forma mais simples como seja a sua própria forma.
Há algo mais simples que isso ?
O que se é, apenas ?
Foi um difícil mergulho, pelas escuras grutas de pedras profundas, pelas águas geladas das correntes frias vindas não sei de onde , pelas águas mais superficiais aquecidas pelos raios do sol, pelos caminhos acompanhados de cardumes e cardumes de diferentes
espécies de peixinhos que seguem apenas seu destino.
Um caminho que se vai seguindo dia a dia, como quem nada pode fazer para mudá-lo.
Senti medo?
Sim...
Muito talvez...
Difícil afastar-se das palavras. Sejam de ouvi-las ou pronunciá-las, mas não se pode mergulhar e ao mesmo tempo falar ou ouvir...
Nem tampouco retornar a superfície, sem que o tempo necessário para emergir se cumpra.
Para tudo há um tempo.
A primeira lição talvez...
A segunda como sobreviver a este tempo, sem angustiar-se pelo medo do afogamento ...
Difícil lição a aprender em tão curto espaço de tempo...
Tudo parece confuso e no entanto não é, quando a visão é a de si mesmo.
Quando os limites são os impostos pela sua condição de suportá-los , quando tudo torna-se claro como todas as águas são, independentemente de quanto lixo joga-se sobre elas.
Basta que dela sejam retiradas todas as impurezas ,
e novamente clara ela será.
Límpida e essencialmente pura.
Uma reconstituição complexa sim, onde cada molécula deverá ocupar seu lugar, gota a gota .
Por vezes até com alguma perda como sejam em nós humanos, o exteriorizar e materializar os sentimentos,
em pequenas gotinhas de lágrimas...
Retornar...
Ao final ver novamente o sol.
Emergir de um escuro que não assusta quando é seu.
Sentir todos os perfumes e identificar aquele que lhe era desconhecido , como sendo especial.
Diferente de todos os outros por ser particular.
Assistir o vôo das gaivotas ao final da tarde.
Ouvir o som de todas as ondas com a mesma tranqüilidade. Sejam seus sussurros ou seu estourar-se nas pedras...
Apenas sentir a vida.
E retornar do mergulho assim.
Inteira.
Pura em todas as minhas estruturas .
Um elemento da Natureza simplesmente .
Uma parte integrante do Universo!
Um elemento conhecedor do amor...Aquele seu próprio e único.
Um elemento conhecedor de si mesmo, e de todos os seus limites...

 

Não há...
(Do Livro: Sensualidade da Luz)


Quando me invades,
assim,
bem de mansinho,
não há céu,
que de estrelas,
não transborde,
nem mar,
que sussurre,
assim tão forte...
Quando me dizes,
Eu te amo,
assim,
com teu jeitinho,
não há flor,
que em jardim,
não desabroche,
nem há pássaro,
que não alce,
seu voar...
Quando me tomas,
assim,
com teu carinho,
não há tempo,
que a tempo,
não leve a dor,
nem há vento,
que ao chegar,
não traga ,
o amor...

 

Maturidade
(Do Livro: Pérolas )


Não vejo rugas,
mas sinto a maturidade.
Chama-me à razão,
em desprezo às sentimentalidades.
Não quero fugir de minha essência!
Desejo a liberdade de um olhar...
Desejo os desejos,
sem censuras nem culpas.
Não quero transfundir de meu corpo,
o sangue do amor,
que me manteve viva.
Não quero transpirar frieza,
sem perfume...
Não quero cegar-me ao sol,
nem me ensurdecer ao canto das cotovias.
Quero o perfume,
na ausência do ar.
Quero o amor,
na ausência de tudo mais...

 

Natureza
(Do Livro: Interior)


Luz e sombra, a lua é cor de prata.
Cintilantes são as verdes matas.
Liberdade é o cantar de um rouxinol.
É tão certo e preciso o nascer do sol.
As estrelas brilham sem nunca apagar.
Todo rio corre inevitavelmente para o mar.
O vento às vezes pode virar um furacão.
Dominado fica, um adormecido vulcão.
As borboletas exibem suas lindas cores.
Nas frutas existem diversos sabores.
Uma árvore nasce de um simples grão.
Depois do relâmpago, sempre se ouve o trovão.
Só as abelhas podem produzir o mel.
Desconhecida e infinita é a dimensão do céu.
Delicioso é sentir o perfume da flor.
Inexplicáveis são, as verdades do amor.
A chuva parece com um pranto calado.
O destino é escrito e jamais decifrado.
O nascer e o morrer são certezas da vida.
A pérola é a riqueza na ostra escondida.
E aparece o arco íris para mostrar que a beleza,
é a prova que existe força nesta natureza.
A quem não entender, faça assim como eu,
identifique esta força, chamando-a de Deus!
 


 



 

Direção e Editoria

Irene Serra
irene@riototal.com.br 


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