Bruno Kampel



1.- A RAZÃO ( OU A AUSÊNCIA DELA)



Metamorfose


Eram portas de abrir as que buscava e não sabia
cansado de fechar a entrada com cadeado a cada dia
e essas portas abriram-se caladas num convite
e sem aceitá-lo fechei-me bem trancado como sempre
até que pressentindo a chegada do impossível
finalmente encontrei-me na saída de mim mesmo
e munido do valor dos que perderam a inocência
dei então o derradeiro e decisivo passo de gigante
e num salto mortal e irreversível, como um grito,
declarando a minha última vontade, como um morto,
desisti de abandonar a luta, como um Homem,
enterrando os dissabores de azedos sabores
e inaugurando um novo tempo, em que o verso
fosse o argumento irrefutável do que digo,
e os textos, a rima elaborada do que penso,
e o gesto, uma ponte tendida, que rendida aos pés
dos trapézios deste circo que é a vida, mostre como,
acrobata ilustrado da sobrevivência cotidiana,
escorreguei para dentro de mim, rosnando como um pássaro,
e levantei-me para sempre, trinando como um lobo.


  Nova era
 

Saberão os herdeiros do novo tempo
suar de angústia
   chorar de ternura
      tocar olhando
         dizer calando?

Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
   pedir perdão por não saber
      tender a mão sem exigir
         gritar verdades sem temor?

Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
   promessas incumpridas
      mentiras verdadeiras
         e instantes decisivos?

Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...

Já veremos quanto saberá o futuro 
já ouviremos  o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
 e suas máquinas
      e seus líderes 
   e suas bombas
e seus hinos.

Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.

As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento  internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
                          do vital
                     do letal 
                do fatal.

Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...



 
O grito


Penélope pulou da cama com a impaciência impondo-lhe o ritmo. A despeito da tremedeira incontrolável que dominava cada um dos músculos do seu corpo, e do receio insuportável que ocupava cada um dos seus sentidos, trotou alucinadamente até o outro lado do quarto, onde se encontrava o armário.

Decidida a elucidar o grande mistério que a atormentava, posicionou-se frente ao guarda-roupa, ao mesmo tempo em que fechava os olhos, cumprindo à risca a primeira etapa do plano que traçara enquanto tratava infrutiferamente de reconquistar a calma e afundar no sono, e abriu-lhe a porta com a urgência inerente àqueles que, por razões de variada e quase sempre desconhecida origem, necessitam constatar questões de vida ou morte, assuntos inadiáveis, situações intransferíveis, ou decisões irreversíveis.

Quando Penélope considerou que estava bem posicionada em relação ao espelho - o qual ocupava toda a parte interior da porta esquerda - decidiu dar o grande e temido passo, e numa lentidão que lembrava muito a letárgica sinuosidade do caracol - talvez porque na verdade o que ela realmente desejasse fosse adiar "sine die" a chegada do momento crucial - foi entreabrindo os olhos até que estes ficaram literalmente desorbitados, e então, ao focalizar a vista na imagem refletida no espelho, suas pobres e enfraquecidas pernas, contrariando todos os prognósticos médicos,conseguiram sustentar o peso da enorme aflição que a invadira, pois o recado que o espelho lhe mandava era claríssimo e confirmava que seus temores tinham fundamento, pois o pesadelo ainda continuava.

Sim. O espelho, certamente em conluio com seus dramas mais profundos, devolvia-lhe como única resposta à sua presença frente a ele, tão somente a imagem bem delineada do perfil nada apolíneo de um patético grito de dor pungente, o qual, numa atitude abertamente provocativa, caçoava dos olhos febris que o seguiam, galopando pela superfície do cristal, indo e vindo, sem pressa nem rumo, emitindo essa bem conhecida e repulsiva sonoridade - dilacerante e arrítmica - que apenas os silêncios mais profundos sabem executar com mestria.

Ante a constatação de que o desespero sem freio ainda era dono e senhor do seu destino, Penélope foi invadida por uma sensação de impotência que não lhe era estranha, e que, como em outras tantas e tantas vezes, tomou conta de cada canto dos seus olhos, imprimindo neles uma opacidade monocromática e assustadora, transformando-os outra vez em fiéis depositários do pânico sem fronteiras.

Sim. Penélope, cativa do pavor irracional que o grito lhe inspirava - e ainda pior, consciente de que seria a vítima e não a heroína do último capítulo da novela da sua vida - entreviu com o rabo dos olhos como a perplexidade, recém parida pelo estupor que a dominava, somava-se ao monólogo em preto-e-branco que desde o espelho o grito desafinadamente declamava.

Quase vencida, e convencida da certeza da derrota iminente, Penélope escorregou para fora de si mesma e caiu no pântano da mais profunda insanidade, enquanto a penumbra circundante começava a empapar-se com lágrimas de dor insuportável, e o grito intolerante, exigindo o protagonismo que julgava merecer, respondia sem mais delongas, solfejando um desespero nu e cru que até então escondia no fundo da cartola, começando a delirar um discurso gutural que não deixava a menor margem para dúvidas quanto ao final previsto dessa luta desigual e sem quartel, entre Penélope e seus fantasmas.

As lágrimas de  fel - elaboradas com a mais pura, cristalina e legítima angústia existencial - iniciaram uma corrida cega e sem freio pela escorregadia pendente vertical em que se havia transformado a sua face, e o grito infame, para não fazer por menos, cuspia desde o espelho o seu doloroso lacrimejar de vidro e raiva, enquanto a desesperança, atônita ante a cena que presenciava, oficiava a cerimônia nupcial que unia para todo o sempre a loucura e o abismo.
A madrugada, que naquela hora por ali passava, fazia de conta que nada disso era com ela, espiando pela janela sem se dar por aludida.

Penélope então, num último e desesperado intento de autodefesa, tratou de fechar os olhos usando as poucas forças que ainda lhe restavam, procurando com tal gesto escapar da cilada que a vida lhe havia tendido, mas para não fugir à regra que rege as circunstâncias de todas as tragédias, quando o tentou já era tarde demais, pois o grito indigno - num salto acrobático - alcançou-lhe a garganta e lá instalou-se soberano, rasgando em pedaços mil gemidos sem sentido, cujos restos sonoros macularam para sempre o silêncio asséptico do amanhecer no quarto 22 da clínica psiquiátrica.

Penélope morreu gritando - uma morte totalmente afônica - e como é de praxe em todos os crimes que pretendem ser perfeitos, as impressões digitais do grito assassino esvaíram-se silenciosamente, instalando no ar o tão conhecido e habitual eco da impunidade, ao passo que o amanhecer, cumprindo fielmente o seu horário de funcionamento, espreguiçava-se despreocupadamente senconstado na janela do quarto, e a enfermeira de turno, alheia a todos os dramas que não fossem os próprios, ordenava à arrumadeira que trocasse os lençóis, na expectativa da chegada de um novo paciente.

 

 
   

   
   
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