Bruno Kampel



2- A EMOÇÃO (TAMBÉM CHAMADA CORAÇÃO)


Solitude


Após algemar os pés da realidade
às cicatrizes da esperança vitalícia
fui procurar a felicidade insubornável
e num gesto imprudente de ternura
desativei o sofrimento e a tristeza
e tendendo uma armadilha ao infortúnio
decapitei o dissabor do desengano
enquanto a melancolia como sempre
desfraldando suas dúvidas ao vento
deitava-se no leito ambíguo da memória
ao passo que a saudade penetrava
como faca nas ausências mais sentidas
e mar adentro feito sangue navegava
pelas veias das lembranças de outros dias.



SIM!


Os tapetes choram a ausência
de seus passos
e as paredes suam clamores
que inundam a lembrança
do seu riso.

A janela embaça seus cristais
ao descobrir que das paredes
não penduram quadros senão penas
e que sobre os tapetes
flutua o eco insone
de seus passos de outros dias.

Nos vasos florescem
teias de aranha coalhadas
de lembranças
onde cada pétala é um beijo
e cada flor uma carícia
e cada dia um abraço
e cada sombra um espelho
e cada noite o reflexo
de sua pele sobre a minha
e cada instante uma angústia
que visita sem convite
minhas noites e meus dias.
E sentadas no jardim
as promessas quebradas
contemplam a janela
que mostra as paredes
que hospedam as dores
que declamam os queixumes
que caminham o caminho
que conduz até os tapetes
que calados sofrem
a ausência de seus passos.
 
E se arrastam as lembranças
nos tapetes de outros rastros
e passeia nas paredes
a fragrância de sua ausência
e desenho nas janelas
cicatrizes decoradas
com lamúrias desbotadas
com desejos exauridos
com perguntas sem resposta
e discursos sem sentido.

Sim.
Solidão.
Nem mais
nem menos.
 


Noite em claro


Olheiras perplexas
deliram perguntas
que roem as unhas
das horas que passam
e estas insones
qual arame farpado
bordam respostas de pedra
que convidam ao quebranto
que doem sem clemência
que ferem sem vergonha
e morrem sem vontade
enquanto a madrugada
esvai-se gota a gota
e o perfil da aurora
entre um bocejo e outro
pendura-se nos olhos
da noite que agoniza
ao passo que a alvorada
cumprindo seu destino
floresce pontualmente
e inventa um novo dia.

 

 
   

   
   
Direção e Editoria
Irene Serra
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