Bruno Kampel


A PAIXÃO
(ÀS VEZES APENAS TESÃO
)

 

O convite


Se vieres...

...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.

Se quiseres...

...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.

Se deixares...

...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.

Se pedires...

...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.

Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires... 

 


Mulher



Não quero uma mulher
que seja gorda ou magra
ou alta ou baixa
ou isto e aquilo.

Não quero uma mulher
mas sim um porto, uma esquina
onde virar a vida e olhá-la
de dentro para fora.

Não espero uma mulher
mas um barco que me navegue
uma tempestade que me aflija
uma sensualidade que me altere
uma serenidade que me nine.

Não sonho uma mulher
mas um grito de prazer
saindo da boca pendurada
no rosto emoldurado
no corpo que se apoie
nas pernas que me abracem.

Não sonho nem espero
nem quero uma mulher
mas exijo aos meus devaneios
que encontrem a única
que quero sonho e espero
não uma, mas ela.

E sei onde se esconde
e conheço-lhe as senhas
que a definem. O sexo
ardente, a volúpia estridente
a carência do espasmo
o Amor com o dedo no gatilho.

Só quero essa mulher
com todos seus desertos
onde descansar a minha pele
exausta e a minha boca sedenta
e a minha vontade faminta
e a minha urgência aflita
e a minha lágrima austera
e a minha ternura eloqüente.

Sim, essa mulher que me excite
os vinte e nove sentidos
a única a saber
o que dizer
como fazer
quando parar
onde Esperar.

Essa a mulher que espero
e não espero
que quero e não quero
essa a mulherportoesquina
que desejo e não desejo
que outro a tenha.

Que seja alta ou baixa
isto ou aquilo
mas que seja ela
aquela que seja minha
e eu seja dela
que seja eu e ela
euela eu lá nela
que sejamos ela.

E eu então terei encontrado
a mulher que não procuro
o barco, a esquina, Você.
Sim, você, que espreita
do outro lado da esquina, no cais,
a chegada do marinheiro
como quem apenas me espera.

Então nos amarraremos sem vergonha
à luz dos holofotes dos teus olhos,
e procriaremos gritos e gemidos
que iluminarão todas as esquinas.

Será o momento de dizer
achei/achamos amei/amamos
e por primeira vez vocalizar o
somos, pluralizando-nos
na emoção do encontro.






Carnaval

 

Sabendo que ela viria, escolhi qual seria o evento para melhor recebê-la.
Carnaval, anunciava o calendário. Pois que seja Carnaval, pensei. E com o ritmo da noite que se aproximava já correndo-me nas veias da impaciência, iniciei os preparativos.
Contratei 6 nigerianos , imponentes, para que batessem o tambor, o tamborim e o reco-reco. Tranquei no armário da garagem todos os fantasmas que habitualmente circulam livremente pela sala da minha memória. Despachei a minha espanhola para Andaluzia sem lhe dar mais explicação do que uma vaga promessa de um futuro melhor.
Corri os móveis para aumentar o espaço. Troquei os lençóis, escolhendo uns de cetim negro, comprados em Paris numa dessas noites em que o dolce farniente levou-me até um dos grandes armazéns.
Veuve Clicquot esfriando, caviar Beluga esperando pacientemente a sua hora de ser degustado. E enquanto arrumava os últimos detalhes, o whisky descia suavemente, encontrando terreno propício para alimentar esperanças.
E assim, esperada, ela chegou, inaugurando o desfile da única Escola convidada para o evento que instaurava oficialmente o verdadeiro carnaval nos meus salões mais íntimos, transformados em lupanar digno de príncipes e sultões.
Os batuqueiros, como adivinhando que a hora era essa, começaram o repique, ao som do qual, bamboleando sinuosamente, ela adentrou, fantasiada de convite irrecusável, vestindo a mais ensolarada das epidermes, oferecendo ao único espectador a certeza de uma noite inesquecível.
No alto da carroça, recoberta com o suor que ela mesma fabricara, balançando o seu desejo ao som do batuque, mexia nas minhas cordas mais sensíveis.
E sem saber como, deixei o camarote e pulei para a avenida imaginária, subindo até o púlpito desde o qual ela rezava seu cântico erótico, e juntei-me à coreografia, balançando-me no seu compasso, apoiando-me no seu ritmo, agarrando-me no seu suor.
E assim continuava o desfile, apoteótico, transmitido em cadeia para todos os meus poros, para cada um dos meus sentidos.
Por isso, custou-me escutar o silêncio que tomara conta do espaço, até que olhando para o lugar onde os imponentes nigerianos deviam estar cumprindo a missão para a qual haviam sido contratados, vi que eles tinham abandonado os tambores, tamborins e reco-recos, e, hipnotizados, tinham os olhos postos nela, tocando-a de longe, acariciando-a lascivamente com os olhos, roubando-me a primazia e o privilégio.
Sem pensar duas vezes expulsei a orquestra, e assim, ficamos os dois, molhados de expectativa, pendentes do que sabíamos seria o passo decisivo.
Ajudei-a a descer, e cantarolando um samba nos agarramos, e o beijo pareceu uma ordem peremptória que nos empurrou pela passarela iluminada até o altar de cetim que desde cedo nos esperava.
Masoquistas, adiamos o encontro, molhando o desejo no champanhe, enchendo nossas bocas com caviar, conhecendo-nos, averiguando-nos.
A pesquisa, que começou prudente, adquiriu proporções de terremoto, pondo a prova a nossa capacidade de conjugar esforços para encontrar um resultado equivalente.
Sim, foi delirante. O beijo no lugar esperado, a carícia na hora certa, a música de fundo composta de ais profundos, palavras sem nexo, e o sexo, explícito e profundo, imperando soberano.
Fomos, ora trotando, ora galopando, ora descansando, e outra vez o trote e o galope e o descanso, e outra vez, e tantas, que parecia estarmos num paraíso feito de caviar e suor, de seda e champanhe.
Quando o amanhecer bateu na janela do quarto, ela, já despida dos trajes nupciais com que a luxúria a vestira, concedeu-me a última valsa, e dançando a lembrança da noite que passara, esfumamo-nos no despertar da realidade.


 

 
   

   
   
Direção e Editoria
Irene Serra
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