Neide Maganhas
 


Bolhas Coloridas


Eu estava muito concentrada naquilo que fazia em meu jardim. Revirava a terra ainda úmida, mudava algumas plantas de lugar. Meus filhos ainda pequenos, brincavam pelas alamedas do condomínio, corriam de um lado para o outro, atrás de bola, atrás do Mike.

O dia estava abafado, durante a primavera Atibaia é quentíssima.

Algum tempo depois, entrei para uma ducha porque logo depois começaria o jantar, teria que supervisionar o banho das três crianças, cuidar do Mike, enfim, até meu marido chegar em casa, era uma confusão danada. Quando entrei na cozinha fui logo esquentando um cafezinho para mim, peguei uma xícara que já estava em cima da pia e a seguir despejei o café. Olhando ainda meus filhos pela janela, bebi o pequeno café rapidamente.

- UGHUFF!!!!!

Que era quilo? Senti que alguma coisa estava errada. Bem errada. Um gosto medonho foi sendo descoberto,logo após uma náusea horrorosa.
E lá estava ele... o possível causador daquilo tudo... em cima da pia, bem perto da xícara que eu acabara de usar, estava aquele detergente famoso, que limpa tudo...

Eu quase caí dura no chão! Hipocondríaca assumida, comecei a sentir tontura entre outros piripaques, assim que li no rótulo que, em caso de ingestão ?procure imediatamente o médico?. Super impressionada comecei a suar frio, sentir calafrios cada vez mais fortes enquanto saia de casa em busca de socorro.
Minha vizinha mais próxima a Márcia, não estava em casa, e com minhas pernas já pesando uns cem quilos, caminhei em direção ao jardineiro do condomínio o sr.Adão, um mineiro matuto, que jurava ver um saci-pererê sempre por ali.
Com um olhar de sofrimento me aproximei dele.

- Sr.Adão, me ajude, estou me sentindo mal, bebi detergente com com café, se acontecer alguma coisa, por favor mande avisar meu marido...

Ele me olhou muito surpreso, e encostando sua enxada perguntou.

- Nossa! Porque a senhora toma detergente?

Virei as costas percebendo que seria bem difícil tentar explicar.

Voltei para casa e tratei de tomar leite, água, Eno, só faltou eu beber álcool e tacar fogo, na tentativa de me desintoxicar e acabar com aquele gosto horroroso.

À noite quando meu marido chegou, eu ainda estava deitada, mas, fui informada que aquilo não era tão grave assim... e achamos muita graça das constantes travessuras das crianças, principalmente do meu filho Paulo (suposto autor), e o que estaria pensando o sr Adão. Devia imaginar que eu era uma maluca...

Já no dia seguinte,ele foi até minha casa saber notícias minhas, minha filha atendeu e sem a menor dúvida esclareceu.

- Ah! A mamãe já está melhor, mas, quando ela fala, bolhas coloridas ainda saem por sua boca...

 

 


Inverno


Que frio! A lareira aquece o ambiente, fogo estrala e suas faíscas enfeitam ainda mais a sala, e o perfume da madeira queimada é delicioso! O clima está perfeito. Fecho as cortinas e ligo o abajour.

Um banho de imersão... o robe de plush... perfume... velas estrategicamente
acesas.

Da cozinha vem o aroma do jantar... A carne preparada antecipadamente...

Os temperos cuidadosamente dosados... A velha chaleira já borbulha sua água, é hora de despejá-la sobre os legumes já picados e logo o caldo saboroso estará pronto... apenas nós dois nesta noite de inverno.

Minha auxiliar já foi embora, a casa tranqüila. Abro o vinho. Arrumo a mesa.
Talheres. Copos. Uma linda toalha e um gracioso arranjo de flores. Mike late
desesperado avisando que seu dono já está na porta.

Abro um grande sorriso e penso como ainda amo esse homem que há tanto tempo compartilha comigo dias e noites.

Logo nossas bocas irão experimentar o equilíbrio dos sabores, do fumegante
jantar à delicada sobremesa, então a mesa já estará desarrumada, as velas
já estarão queimadas, e o fogo da lareira já mais brando, parecendo consentir.
Corpos que dançarão entre copos já vazios e muitos ais...

Mike em silêncio permanecerá lá fora, silencioso, mas, não alheio ....


 


Impressões


Um corpinho miúdo. Leve. Sua cabecinha move-se de um lado para outro, querendo analisar tudo a sua volta. Estou sentada bem perto da cerca onde pousa o pequenino ser..

Suas penas são bem escuras, somente uma manchinha branca enfeita seu peito.

Não saberia dizer que pássaro é este, mas, o que chama minha atenção é o tamanho atrevimento deste ser que saltita sem parar, olhando sempre para
mim. Tão curioso. Tão perfeito...

O que deve pensar a criaturinha...

Que o bom mesmo é atravessar os céus. Pousar nas montanhas e bendizer a Deus, o maravilhoso mundo que ele fez. Beber das águas cálidas dos riachos.

Poder se alimentar de estranhos bichinhos. Adormecer em ninhos aconche- gantes.

Sentir o calor do sol. As gotas da chuva. O gosto adocicado das flores.

Cantar ...

O passarinho parece entender meus pensamentos e se afasta, porém continua lá de longe sua observação, penso em chamá-lo de volta, sua companhia silenciosa alegrou minha alma.

Em que estado de loucura já estou? penso alarmada. Dois olhinhos já demonstram compaixão por mim...

Levanto devagar, e aceno para ele. Entro e espio pela janela. Nada. Já se
foi.

Percebo que minha solidão foi o único motivo daquela inusitada visita...
 

 

 

 


 

 

Direção e Editoria
Irene Serra
irene@riototal.com.br 


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