Neide Maganhas

A viagem
Aquela noite prometia muito. Banho. Perfume. Barba feita.Roupa da moda.
Os amigos chegaram e logo todos riam muito pelas ruas.
No barzinho escolhido, os rapazes de boas famílias, contavam e recontavam
vantagens das últimas façanhas sexuais. Som. Muito agito. Garotas.
Ele, o mais tímido, logo foi abordado por uma simpática e envolvente
jovem.
Ele ficou embevecido. Jogam conversa fora. Tempo. Escola. Passeios. Baladas...
e chopp que desce refrescando o corpo quente do rapaz.
Pede licença e vai ao banheiro. Volta e continua conversando. Agora tudo parece
diferente. Ele está mais a vontade. Mais seguro. Eufórico até.
Não sabe dizer o tempo que passou. O que aconteceu. Sabe que abriu os olhos
e estava vendo o mar. Sentiu um certo desconforto. Depois sentiu muito medo.
Pânico até. Momentos de lucidez se alternavam com momentos de muita loucura. Não
adiantava tentar reagir, impossível fugir daquela situação.
Os prédios pegavam fogo. Pessoas se jogavam de lá de cima bem na sua frente.
Suas mãos mudavam de cor. De forma. Suas unhas cresciam sem parar.
Acordou novamente. Agora estava em uma cama de hospital. A família olhava
perplexa. Ainda não sabia quando estava acordado ou dentro daquele pesadelo
que não acabava. E durante muitos dias, assim permaneceu meu amigo.
Algum tempo depois, já em casa o telefone toca e ele atende. Uma voz feminina
pergunta rindo muito:
-Então , você gostou ?
Fica sabendo então que a tal jovem simpática e envolvente colocara LSD em
um dos chops que bebera naquela noite. Uma passagem para a viagem solitária
e perigosa... Desconhecida, que poderia não ter tido volta.
Ele desliga telefone. Nem responde. Tranca-se em seu quarto e somente naquele
momento consegue chorar. Era o ano de 1976.

Jeans
Ela desejava há muito tempo um filho. Ele parecia precisar desde o momento que
foi concebido de uma mãe. Simples? Não mesmo. A vida as vezes é estúpida, cheia
de revezes. O coração repleto de amor e carinho para uma criança. Qualquer uma
seria bem vinda.
E finalmente chegara o momento. Ele tinha nascido bem longe de São Paulo, sequer
aquela cidadezinha do sul, constava no mapa. O endereço incerto, assim como o
destino daquele menino.
Que grande notícia! A família vibrou, surpresa e curiosa com a chegada de um
novo membro, e a futura mãe sente o filho a 1.500km de distancia, (coisas
da natureza feminina) .
Foi um corre corre danado. Berço. Roupas. Mamadeiras. Uma dúzia de chupetas... e
também um grande urso.
Uma longa e difícil espera. Avião. Aeroportos. Táxis. Tudo bem, valeu!
A recente mãe chega. Nervosa. Comovida. E muito endividada...
No corredor da Santa Casa horrivelmente pobre, apenas uma porta separa as duas
mães. Devagar ela bate na porta e entra sem esperar qualquer resposta.
Logo vê uma jovem que amamenta seu bebezinho.
Sentimentos extremos invade aquele quarto.
Problemas.
A mãe natural parece que mudou de idéia, não daria mais o menino para ela.
Ela sente vontade de gritar, mas, se contém, embora sinta repulsa pela
indiferença que possui aquela mocinha.
Este menino é o resultado de uma transa que teve, em troca de uma calça jeans,
que aliás nem serve mais. Explica a mãe natural.
Nem sabe porque hesita em dar o menino, nem gosta dele.... continua explicando.
A mãe de coração sai do quarto revoltada, sem esperança para si e nem para o
pequeno menino que acaba de deixar a própria sorte. Rejeitado.
Volta para o aeroporto e já no avião, rabisca alguns nomes que escrevera em sua
agenda. Marcos. Alexandre. Vinicius. José...
Abatida e cansada ela sente dor no coração. O bebe não sai de sua cabeça.
A pele. O perfume peculiar dos recém-nascidos. A indiferença com que foi
concebido e recebido pela mãe natural. Sabe que a intenção da mãe era ganhar de
alguma forma, não bastava apenas quem o amasse, e sim quem primeiro lhe
oferecesse uma nova calça jeans, afinal, a outra já estava velha, surrada....

Percurso
Vestido branco. Rendas. Muitas rendas engomadas. Brincos de pérolas. Pulseirinha
de ouro. Esbanjo charme e simpatia.
A fotografia registra meu rosto, antes bem gorducho e sorridente. Uma linda
festa. Entre beijos e abraços apareço em uma outra foto, diante da mesa farta.
Um bolo enorme. A platéia parece induzir para que eu assopre a única velinha do
bolo. Todos sorriem para a câmera.
Meus primeiros anos foram assim, repletos de bons momentos.
Descobertas. Tudo parece ter sido muito agradável. Tive carinho e atenção.
Conheci o dia e devo ter achado interessante conhecer a noite. As estrelas... A
lua...
Logo assimilei toda beleza de cada descoberta e tratei logo de manifestar meus
sentimentos em formas de palavras, gestos de carinho .. Aprendi retribuir muitos
sorrisos...
Vejo minha figura no espelho da sala. O sorriso parece o mesmo. Minha expressão
surpreende. A expectativa me assusta. E depois? Logo mais , um bolo de menor
tamanho terá muitas velinhas acesas. O tempo realmente correu.
O coral que cantará Parabéns a você, está modificado. Meu marido, meus três
filhos. Meu pai , agora viúvo. Uma amiga.
O brinco e a pulseira que uso é bijuteria. O bolo é lindo, mas, não possui a
magia, o encanto, que transformavam amor em cremes e glacês, que simbolizavam o
afeto, o amor. E claro que o gosto jamais poderá ser o mesmo...
Quantos acontecimentos, quantas pessoas, e mesmo cada ano sendo vencido
valentemente, muitas vezes houve um saldo devedor.
Ah! é melhor eu fingir que não percebo esta pontinha de angústia e ir juntar-me
com os outros.
A tristeza que quase se instalou em meu coração vai se dissipando rapidamente,
dando lugar a uma outra felicidade, desconhecida para mim até agora pouco.
Volto minha atenção para o canto tão desafinado e e sorrio em retribuição.
Percebo meu pai que já está tão velhinho, e avalio o que deve passar por sua
cabeça grisalha, a cada aniversário seu.

A Pedra Grande
Estou na janela do meu quarto.
Chove desde a madrugada, por isso arrumei este caderno e caneta. Preciso me
distrair com alguma coisa. Vou escrever um diário, assim além do meu desabafo,
posso registrar este momento.
Daqui, observo o jardim. A terra permanece úmida devido as constantes chuvas,
sinto o perfume das flores que plantei logo que mudei para cá, vejo bichinhos
que eu não conhecia, habitantes estranhos de diversas cores e formas que
procuram abrigo embaixo das folhas.
Que paisagem! É inacreditável que eu faço parte deste pedaço do paraíso...
Lá adiante avisto a pedra grande. Única. Contemplo sua absurda grandiosidade.
A identidade de Atibaia, cidadezinha que escolhemos para criar nossos filhos, e
que nos acolheu com grande simpatia. De quase todos cantos podemos avistar a
pedra grande e tendo um espírito aventureiro podemos chegar até ao topo, o
caminho é íngreme, mas, o que se vê de lá de cima, supera qualquer expectativa,
e quase desvenda os mistérios do mundo.
O vento bate forte. Temos Atibaia aos nossos pés, se tivermos sorte podemos
avistar outras cidades vizinhas, e se levantarmos os braços talvez possamos
tocar nos anjos do céu, esquecer quem somos ...
Enquanto me deleito deslumbrada, o sol aparece timidamente, logo deverá aparecer
alguém com sua asa delta. Com roupas coloridas, cortando os céus de Atibaia,lado
a lado com pássaros perplexos diante desses novos companheiros, que com tanta
coragem se lançam de lá de cima, em busca da realização de voar. Solitários....
