Neide Maganhas
 


Buena-Dicha


Trechos alternados do prólogo



Agora, Milagros era responsável pela propriedade. Tinha permissão para tudo. Mandar e desmandar. Entrar e sair, assim como, comprar ou vender o que quer que fosse, somente com sua autorização. Correta e trabalhadeira. Com sua estatura pequena, ancas largas, rosto muito moreno e com a contínua fisionomia de desconfiança. Milagros. Quem saberia dizer sua origem?

José também ainda trabalhava por ali e, juntamente com Milagros, cuidava para que tudo caminhasse direito, apesar de tudo. Os dois criados estavam ali desde o começo. Chegaram à mesma época. Os dois muito jovens ainda, porém, o tempo e o vento talharam seus rostos com fúria e adquiriram uma pele grossa com aquela estranha coloração.

De calças listradas e sempre menores do que precisava, camisas amareladas e suspensórios, José era feio que só. E muito exagerado no que fazia ou falava.

Figuras engraçadas, cheias de trejeitos inusitados que divertiam os que se aproximavam deles. Os dois, de total serventia e confiança, ainda mais nesta época de total isolamento e tantas fagulhas.

- ...Mea culpa ...mea culpa... fiat voluntas tua... (Minha culpa... minha culpa... que seja feita a tua vontade...) - murmurava Milagros, batendo a mão no peito, esperançosa por perdão.

- Viu? Não tem nada... Não ouço nada... Imagine se dá para ouvir... - sussurrou José, de cara feia.

- Eu escuto e você não? Esse porta-jóias nunca mais funcionou, por que só eu estou escutando? - questionava Milagros.

- Porque é doida! Vamos embora daqui!

Parado e sem saber o que fazer, José se assustou ainda mais quando Milagros entrou no quarto aos tropeços, pálida e sem poder falar.

Finalmente, entre tantos mistérios sobre a vida, uma ela havia tido permissão de desvendar.

- Credo quia impossibile est... (Acredito, porque é impossível) - comentou Milagros, olhando pela janela do quarto (...)

 


Caminhos


Passamos juntos parte de nossas vidas. A mesma escola.Os mesmos programas.Ida e vindas dos cinemas do nosso bairro. O futuro nos embevecia. Tínhamos todos uma explosão de sentimentos diversos . Tentávamos ser originais em nossas determinações , mas por sermos basicamente sentimentais, acabamos dependentes de alguma forma. Estavam definidos nossos destinos. Não sabíamos, mas, nossos caminhos já haviam sido traçados. Não conseguimos superar nossos conflitos ,mas ,o tempo nos mostrou que aquilo que não se pode evitar,acaba nos beneficiando de alguma maneira.
O Beatles foram um marco na nossa geração. O antes e o depois . A meta era seguir. Conhecer. Entender. Realizar ,mas ,tudo se convertia em angustia depois da descoberta, e logo depois era deixado de lado.
Cada um de nós possuía seus objetivos , mas, no final apenas alguns conseguiram sair ilesos, outros foram ficando pelos atalhos, e então não foi mais possível caminharmos juntos.
Hippies. Famílias comunitárias. Amor livre. Paz. O sonho acabou. Ficou apenas a essência de tudo que assistimos, mas, que não combinava com nossos interesses depois que ficamos adultos.
Algo ficou daquela época.Um grande abismo que nunca mais poderá ser preenchido como convinha ser, porque com o passar do tempo tivemos que aprender a enfrentar a vida de todas as formas e com todas as nossas forças. O destino veio recheado de surpresas. Algumas boas, outras nem tanto, todas porém vieram com a finalidade de aperfeiçoar nossas vidas.Nossos sentimentos, perante o mundo...

 


Duque


Sempre gostei e ainda gosto muito de cães, por isso sempre os tive por perto. Um deles, Duque, adoeceu e depois de um longo sofrimento, morreu em uma manhã de domingo. Fiquei tremendamente triste e inconsolável. Meu pai insistia em enterrá-lo em um terreno baldio atrás de nossa casa, o campinho, como era conhecido aquele local, e eu queria porque queria que ele fosse para um cemitério.

Depois de resolvido que Duque ficaria no campinho mesmo, eu chorei muito, e telefonei para minha amiga Janete, outra adolescente assim como eu.

- Oi... (sonolenta ainda , ela atendeu o telefone).

- Você não sabe o que aconteceu, Janete.... Duque morreu. (eu disse entre soluços e mais soluços).

- O Tuta??? (perguntou Janete referindo-se a um amigo de nossa turminha)

- É... respondi sem prestar atenção no nome que ela dissera.

- De quê????? Janete parecia acordar aos poucos, muito surpresa com aquilo que ouvia.

- Ora, você não sabia que ele estava muito doente? soluçando continuei - E ele será enterrado no campinho!!! buah!!!!!!!

- O quê????? No campinho????? Porquê???? Janete gritava do outro lado.

- Porque é muito caro enterrá-lo em um cemitério ... continuei.

- Coitado! Vou avisar meu irmão. Janete desligou o telefone chocada.

Eu também estava muito indignada com tudo aquilo, imagine meu cãozinho adorado enterrado em um terreno baldio? Sozinho? Para sempre???

Pouco tempo depois tocou a campainha, era o irmão de minha amiga Janete, com cara desolada, olhos tristes e vermelhos, veio prestar solidariedade para o enterro, o dinheiro era pouco, porém... suficiente para fazer um enterro decente para nosso amigo... Tuta.

O rapaz ficou muito bravo ao perceber o mal entendido entre uma sonolenta e uma chorona, ambas surdas e birutas. O constrangimento foi geral. Nosso amigo Tuta está bem vivinho até hoje e ainda damos boas gargalhadas com este episódio em nossas vidas...

 

 

 

 


 

 

Direção e Editoria
Irene Serra
irene@riototal.com.br 


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