Ano 10 - Semana 499
 

Alberto Cohen, advogado e poeta, reside em Belém do Pará, onde nasceu em 12/02/42.


Veja, aqui, sua biografia literária.

Poemas I.

Poemas II.

Poemas III.

Poemas IV.

21 de outubro, 2006
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Apenas semente

Soneto para o Raul

Violência Urbana

Robinson Crusoé

Solidão e solidão

Fragmentos

O mercador

Calidoscópio

Riozinho

Menininha

A Ponte

Última chamada

Soneto do Perdão

Justa Causa

Estrelas

A casa branca da estampa

Buscador de um mal perdido

Soneto do amor que virou poeira

No fim do arco-íris


 


Apenas semente


Que eu morra, de repente, nos teus braços,
como se fosse o fim de mais um verso,
uma rima perdida no universo,
enfim a descansar de seus fracassos.

Que eu guarde em teu olhar meus infiéis
olhares de quem tanto perseguia
a pureza que, às vezes, recendia,
devassa, pelos quartos de bordéis.

Que me tenhas só teu, nesse momento,
e seja de tua boca o meu alento
derradeiro de paz e de agonia.

E que partas, depois, levando ao colo
a alminha do guri que jaz no solo,
plantado qual semente de poesia.

 


Soneto para o Raul

Eu sou o destempero da panela,
o resto que sobrou por toda a tampa,
o lixo que se joga da janela,
o morto que levanta de sua campa.

Eu sou o esquecimento do passado,
a total incerteza do futuro,
a solidão que tem o boi capado
olhando as vacas por cima do muro.

De repente, quem sabe, nem existo,
sou, apenas, silêncio que anuncia
que o Cristo não chegou a ser um Cristo.

No agonizar cansado deste louco,
o muito não será mais do que o pouco,
e o grito é bem maior do que a alegria.

 


Violência Urbana


Chegaram todos juntos, certa vez,
e roubaram-me a única esperança.
Voltaram no outro dia e seqüestraram
meu sorriso que inda era de criança.
Depois me perguntaram se queria
ficar com meu olhar de olhar estrelas.
Para quê, se com elas não sorria,
nem guardava esperança mais de tê-las?

 


Robinson Crusoé


A solidão que rosna pela casa
vestiu a pele de meu cão de guarda
para expulsar a mínima esperança
que tente, por acaso, resgatar-me
do silêncio que me faz companhia.
Chega de longe um riso de criança,
há música no ar e a vida é doce
nos espaços do mundo lá de fora.
Quem foi que me amigou com a poesia?
Quem me deixou com ela e foi embora?

 


Solidão e solidão


Quero de volta a solidão antiga,
que era arredia, mas se fez amiga
dos sobressaltos de fechar janela
para que o sol jamais tocasse nela,
trazendo uma esperança de sorriso.
E sendo amante e sócia construía
um mundo enorme de espaços pequenos,
aonde a multidão de muitos menos
tornava-se bem mais pela poesia.
Que serventia tem essa de agora,
que, arrogante, chegou quando vieste?
A solidão inútil que trouxeste
para expulsar a minha solidão
tão triste, mas com gosto de verdade,
tão velha que de mim tudo sabia,
tão livre que era a própria liberdade.

 


Fragmentos


E o que posso fazer dessa minha alma
que se divide em tantas, tão dispersas,
que, às vezes, penso que nem tenho alma,
mas pedaços de outras bem pequenas,
solitárias anãs, sobras, apenas,
que nos pavores vivem submersas.
E de negro, de luto vão vestidas,
como passivas freiras preteridas
na procissão de bajular os sonhos
que se fazem possíveis e inocentes,
que se disfarçam de belos presentes,
mas serão sempre sonhos, jamais vidas.

 


O mercador


Não terá, jamais, um fim a imensa estrada,
mas ele a seguirá.
Cães tentarão mordê-lo em cada encruzilhada
e ele sorrirá.
O tempo, a chuva, o raio, não impedirão
que seus olhos esfatiem almofadas de nuvens
em busca de estrelas,
e o coração palpite, jovem de novo,
à simples menção
da palavra amor.
Desbravador suave dos subterrâneos
onde a alma disfarça com pintura de festa
os atávicos medos,
estende as mãos repletas de achados perdidos
e suplica pela aceitação da oferta
de uma coisa antiga, vinda de tão longe
que não se adivinha se é espinho ou flor.
Pois que não tenha fim, jamais, a imensa estrada
e os cães tentem mordê-lo em cada encruzilhada.
Mascate de sonhos,
ele seguirá,
com seu tabuleiro de quinquilharias,
tecendo miçangas com fios de ternura,
fazendo promessas de rimas e curas,
gritando pregões de pechincha e poesia.
E sorrirá.

 


Calidoscópio


As palavras secaram em minha boca
e há tanta coisa, ainda, por dizer...
É o fim, talvez, de um tempo de poesia,
entressafra nos campos do sonhar.
Quando perdi o meu calidoscópio,
a profusão de imagens e de cores
que o menino me deu para espalhar?
Foi no dia em que eu soube que as estrelas
não eram manteúdas do luar,
e os vaga-lumes, brilhando na noite,
apenas pareciam pedacinhos
da luz que elas deviam ter no olhar.
Foi quando entendi que não eras fada,
princesinha encantada, Rapunzel,
e meus poemas pouco mais que tinta
que a caneta escorreu sobre o papel.

 


Riozinho



Riozinho que vem de longe,
onde tudo começou?
Nas águas de um oceano,
nas profundezas da terra,
na cor cinzenta das nuvens,
na chuva que Deus chorou?
Riozinho embaixo da ponte,
quase molhando meus pés,
qual a história mais distante
que tens, cavaleiro andante,
qual margem foi tão amante
que te fez ser como és?
Riozinho seguindo em frente,
o que deixas para trás?
Um velho aqui nesta ponte,
olhos presos no horizonte,
sonhando, por um instante,
que é novamente rapaz.

 


Menininha


Menininha do laço no cabelo
o que você faz toda noite
que não me deixa dormir?
Sei que falei que era um rei
e você minha rainha,
mas isso faz tanto tempo
e não sou rei, meninha.
O castelo prometido
o dragão-vida levou,
a feiticeira do tempo
num sapo me transformou,
e só você, menininha,
linda, cheínha de graça,
sentada naquela praça,
em nosso banco de sonhos,
onde ficou e eu parti,
crê ainda que é rainha
e que sou rei, menininha
com quem toda noite sonho
e não me deixa dormir.

 


A Ponte



Uma pequena ponte tão difícil
de atravessar depois dos descaminhos
que fizeram das almas rebeladas
anjos sem vôo, de uma asa apenas.
A pequenina ponte sempre esteve
bem perto das pegadas que buscavam
atravessar o rio que os absurdos
criaram separando as duas margens.
Um lado era repleto de cinzento,
no outro eternamente o sol brilhava,
porém cada vez mais os penitentes
com cinza e desamor se misturavam.
E assim a pontezinha, certo dia,
desabou, como coisa muito antiga,
cansada de esperar a travessia.
O escuro se apossou do mundo todo,
o nada fez do rio um oceano
e as coisas feias foram devorando
o pouco que restava de poesia.




Última chamada


Quando chamarem meu nome,
se alguém responder ausente,
saibam que eu estive pronto,
desde longe, desde sempre,
para mudanças de bairros
e trocas de identidades,
deixar de lado a esperança,
tornar-me apenas lembrança
e ser, de novo, esquecido.
Vestido com minha farda
do velho grupo escolar,
sapatinhos de duas cores
e cabelo militar,
sigo os outros bons meninos
por esse incerto caminho,
sem direito de escolher
que passos vou dar agora,
até mesmo nessa hora
alguém decidiu por mim.

 


Soneto do Perdão


Deixa Senhor que eu cante mais um canto,
pequenino que seja, tolo e triste,
mas que possa dizer do amor que existe
no meu sorriso e no meu desencanto.

Não mais que o solfejar de um passarinho
a desejar perdida liberdade,
cantiga de esperança e de saudade
de quem já foi metade e está sozinho.

Deixa, afinal, Senhor que esse meu canto
seja um misto de mágoa e de acalanto
para aquela que enjeito e mais procuro.

Que transforme em perdão o sofrimento
e, muito mais que um canto, um sacramento
torne santificado o amor perjuro.

 


Soneto do amor que virou poeira


E fugitivo da prisão dos medos,
quis, uma vez somente, estar liberto
para conter nas mãos o amor incerto
que, aos poucos, escorria entre meus dedos.

Muito tarde, porém, não mais havia
vestígio desse antigo sentimento,
apenas pó levado pelo vento,
sem nenhuma esperança ou serventia.

Segui tentando achar pelo caminho
um sorriso, algum gesto de carinho,
perdidos no pior da ventania.

Mas foi em vão, nos passos tropeçando,
não reencontrei o amor, nem mesmo quando
ressuscitou em forma de poesia.

 


Estrelas


Cada estrela que brilha é uma promessa,
um sinal de esperança e novo alento
para os que vivem pelo encantamento
de todo sonho bom a ser sonhado.
Aos olhos do menino que não cresce,
o amor que é tão velho não envelhece,
cometas enamoram-se de luas
e botos acasalam com sereias.
E a estrela da manhã quando aparece,
mais brilhante que todas as estrelas,
é como o olhar de Deus que reconhece
em cada um de nós a Sua criança,
em todos nós Sua imagem, semelhança.

 


A casa branca da estampa



Todos os caminhos levam para a casa da colina,
a casa branca da estampa do dentifrício Eucalol.
Basta subir a encosta, como quem está voltando,
e a mulher do bom sorriso, o mais saudável sorriso,
vem, com seus braços abertos, falar sobre as novidades
de um novo dia findando, do jantar já quase pronto,
da fumaça colorida que sobe da chaminé.
E os passos que antigamente chegavam ao pé da colina
da casa branca da estampa do dentifrício Eucalol,
quem sabe, matam o desejo e sobem agora a encosta,
como sonhava o menino, enquanto escovava os dentes,
perdido dentro da estampa do dentifrício Eucalol.

 


Justa Causa


Aborrecido, o amor pediu as contas,
não suportando aqueles triviais
carinhos simulados, frases prontas
colhidas em manchetes sociais.

E, de repente, sem nenhum aviso,
ali não era mais o seu lugar.
Nem dizer um adeus achou preciso,
simplesmente o amor deixou de amar.


No quarto, a cama branca e arrumada,
lençóis sem rugas, sem marcas, sem nada
de loucuras noturnas. Quem se importa?

De um jeito frio, calado e indiferente,
levando, apenas, a escova de dente,
o amor partiu, sequer batendo a porta.

 


No fim do arco-íris


Não sei se teu destino era de nuvem,
que tão rápido se forma e se transforma,
ou vento de deixar folhas caídas,
depois de espiralar para o horizonte.
Quem sabe, deverias ser estrela,
a última, a menor, a mais distante,
mas que ouvisse as cantigas dos cometas
sobre a paixão de fogo que os consome.
Talvez água de um rio que não tem tempo
de demarcar as margens como dono,
e segue, e volta sem reconhecê-las,
embora eternamente a percorrê-las.
Um grito que, contido na garganta,
libertasse vogais e consoantes,
apenas para vê-las se perderem
na confusão de espantos e de gritos.
Ou serias, passados teus encantos,
madona de uma igreja abandonada,
os pés descalços presos no granito,
a conversar com pássaros e santos?

 


Buscador de um mal perdido



Bem sei que ainda vou te procurar
por todos os caminhos que escondeste,
em todas as histórias que apagaste,
no riso que levaste e em meus desejos.
Inventarei teus passos nas calçadas
e com grafite escreverei teu nome
em paredes e muros que separam
o real do somente presumido.
E não me cansarei de ir perguntando,
através do silêncio, ou da galhofa,
onde perdeste o bem que me querias
e o que fazer do bem que ainda te quero?
Ai, meu amor, se eu te dissesse, agora,
como estou só, mais só do que era outrora,
quando meus sonhos vinham de tão antes,
nas ilusões que não te conheciam...
Eu era triste e só, porém sabia
que, estando só e triste, na poesia
quase existia o bem que me faltava.
Depois foi grande a confusão de temas,
e, tentando misturar-te com poemas,
não fui amante e me perdi poeta.
E o que me resta além de procurar-te
entre milhões de jeitos e perfumes,
abrindo portas com medo e ciúmes,
fechando versos com rimas pequenas?







 



Direção
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br