Francisco Simões


 

Atualizado em 17/11/2007
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A ÚLTIMA NOTÍCIA
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“Atenção, muita atenção
Para a última notícia.”
(e seria a última mesmo)
A voz lúgubre noticia
No espaço vazio, a esmo,
A última notícia.
Nem chegou a ser a última
Porque não chegou ao fim.

Nem mais ouvidos havia
Para escutar a notícia.
A cidade ficara surda,
A pátria estava surda,
O mundo já nada mais ouvia.
Nem ouvia o beija-flor,
Nem a flor mais pediria
Um beijo ao beijo-flor.

Nem o amor venceria,
Nem o amor ouviria,
Fora vencido o amor.
A aurora ainda viria
Mas, não acordaria a vida
Que também fora vencida.
A lua ascenderia
Descendo seu prateado
Nos corpos dos namorados
Que também já não amavam
Mas, estavam abraçados.

Na solidão do mundo sentei,
No silêncio da vida chorei,
Olhei para o alto e orei.
Mas, ainda haveria Deus?
O sinal estava verde, pra nada.
O vermelho parara tudo,
Crentes, dementes, ateus.
Só uma barata atravessava a rua.
O trânsito, parado e mudo.

O mar fugira no horizonte.
No horizonte havia um monte
De ossos partidos,
De ferros distorcidos,
De verdade nua e crua,
De justiça social.
Enfim todos eram iguais,
Estavam nivelados no nada.
O nada então era tudo.

Pacifistas, ecologistas,
Políticos, poetas, o bem, o mal,
Enfim todos eram iguais.
Não se ouviam protestos mais.
Apenas eu tinha ouvido
Um derradeiro gemido
Mas, não a última notícia.
“Atenção, atenção...”
E não havia mais plantão
E nem havia notícia.

Perplexa e intrigada
A barata me encarava.
Eu era um resto de nada,
Ela, um saldo de tudo.
Pensei: “A História, a Ciência, a Cultura,
Tudo, tudo agora perdura
Na poderosa barata.”
E perplexa ela me olhava
Enquanto eu expirava
Junto com a paz fictícia.

Foi aí que eu percebi
Que para a barata eu era:
“A última notícia.”



Em Novembro / 1999
 

Francisco Simões


 


email: fm.simoes@terra.com.br

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