Ano 21 - Semana 1.091
1º de setembro, 2018



 

Arquivo de alguns de seus poemas



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Jorge Elias Neto



Jorge Elias Neto é capixaba, nascido em 1964, médico, pesquisador e poeta. Membro da Academia Espírito-Santense de Letras, onde ocupa a cadeira de número 2, publicou: Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010), Os ossos da baleia (2013), Glacial (2014), Breve dicionário poético do boxe (2015), Cabotagem (2016), Breviário dos olhos (2017) e O ornitorrinco do pau oco (2018).




EU ME APRESENTO

Sou do tipo de poeta
que não tem cisma de beijar o diabo na boca.

Sou poeta,
aprendi cedo a mordiscar os lábios de deus
.


Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?
Eu, por exemplo, vivo em busca de algum autoentendimento. Só recentemente, relendo uma definição do Breviário da decomposição, de Emil Cioran, é que me descobri um pessimista entusiasmado.
Mas, antes de uma definição psicológica, quem ler esta coletânea de meus três primeiros livros já publicados, em que incluí poemas inéditos, terá primeiro uma impressão de estranhamento e de curiosidade: o porquê de meu nome.
Entendo.
Embora ainda prefira que o leitor procure ler o poema que leva meu nome – sempre considerei a obra mais relevante do que o autor –, sinto-me impelido a prosear um pouco, talvez deixar algum rastro sobre quem somos nós, os ornitorrincos do pau oco.
É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.
Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.
E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.
O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.
E é aí que me insiro e busco me justificar.
Quem sou? Algo indecifrável, como meu coirmão, objeto de estranhamento? mamífero, ave? Ovíparo, vivíparo? Tudo! Menos útil e justificável, embora ele ainda desperte alguma curiosidade científica. O que não parece ser bem o meu caso...
O ornitorrinco do pau oco destoa, e pode, muito em breve, perder de vez muito do lastro dos tempos, desgarrar-se do verde, de sua essência “Terra”. Impregnar-se definitivamente do urbano, perder-se no cinza e embriagar-se com seu-eu-deus-pessoal-bonito no selfie (sou eu lindo na foto, i.e.).
Dito algo sobre o ornitorrinco, há de se falar do “pau oco”.
Essa expressão “roubei” das esculturas que me encantaram na infância, em minhas visitas aos museus de Ouro Preto e Mariana.
Todos sabemos das histórias de ouro e diamantes dentro de esculturas de santos entalhados em madeira em contrabando que ocorria nas Minas Gerais, nos idos dos séculos XVI-XVIII. Nas costas da imagem (ou em seus pés), de forma camuflada, uma pequena abertura permitia a ocultação do metal nobre e das pedras preciosas que movimentavam o Velho Mundo.
É aí que eu me insiro.
Vivemos um momento neoantropofágico na poesia. Pelo menos vejo isso como uma das tendências em muitos dos poetas atuais. Na miríade de cores, na heterogeneidade da produção atual, vê-se um esfacelamento do corpo, do que resta do corpo, já que a alma já foi esmigalhada.
O final do século XIX trouxe a proposição da morte de Deus, trouxe o materialismo dialético. O homem oitocentista adentrou-se no novo século deslumbrado com a tecnologia e o conhecimento evolucionista. Tivemos o leninismo-stalinismo e vimos que o homem, vestido com a ideologia, transformou a proposta da utopia nas distopias descritas por Orwell e Huxley. Viveu a insanidade nazista e, com o distanciamento histórico, pôde entender que o homem errado no lugar certo pode gerar a insanidade coletiva. Tudo trouxe a descrença, a desilusão e abriu espaço para o deus mercado, o oportunista da vez.
E onde entra o ornitorrinco e o “pau oco” nisso tudo?
Na medida em que o poeta é a “antena da sociedade” ― dito gasto, mas definitivo, de Ezra Pound ―, o poeta-ornitorrinco carrega consigo todo o estranhamento do que o circunda e, impregnado do que “não tem serventia” por não optar pelo instante em detrimento do efêmero, corre o risco de se tornar uma curiosidade em risco de extinção.
Como pude, busquei me desconstruir, entender minha irrelevância relativa nesta vida. Enfim, vi-me um ornitorrinco.
E o que tem de especial o ornitorrinco? O olhar. E a necessidade... A necessidade de abrir o peito, com força, como tão bem ilustrou o poeta e grande artista Felipe Stefani, na ilustração que acompanha este livro.
Abrir o peito e oferecer o que mais precioso ele traz guardado em seu arcabouço de ossos e carne.
Já que o poeta é um estorvo, ele abre seu peito e joga na cara de quem quer que seja, como seu último ato de vida, rasgando sua última pele – a palavra —, mesmo que inutilmente, a “linguagem-ouro de enganar trouxa” que o alimentou enquanto vivo.
Eis aí o ornitorrinco do pau oco, queiram ou não.

 



Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br