Ano 21 - Semana 1.091
1º de setembro, 2018



ARQUIVO

 

 

 

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Jorge Elias Neto


Varal


Roupa lavada desconhece a história.
Dela tiraram as palavras, os odores, tiraram o enigma das cores.

Já neste varal mágico,
o que se vestiu,
o que existiu,
o que é e não simplesmente foi,
o que está exposto
é a materialização de minhas vivências.

Penduro cheiros neste varal:
o cheiro de talco de minha avó;
meu pai-cheiro.
Nele estão também, os cabelos longos de meu irmão
que verteram poesia e sofrimento.
(Quem sabe também o seu último olhar para a morte?)

O canário belga, que mesmo cego cantava
a paralítica realidade dos cativos,
gorjeia todas as manhãs,
                                                                   [neste varal.
Meu primeiro caderno de poesia
cheio de versos “roubados”
dos poemas preferidos da infância,
como todo menino travesso,
brinca
de equilibrista nas cordas do varal
e zomba de mim
com os seus sonetos românticos.

Há também um genipapo guardado
daquela manhã em que, sentado no alto
do genipapeiro, aprendi de meu irmão
princípios filosóficos budistas.

O olhar mareado de meu pai me dizendo de seu amor
mantém aquela garoinha paulistana
que paira como uma saudosa névoa
dos antigos invernos
de São Paulo de Piratininga.

Meus guardados, meus presentes.


 

● Aqui, conheça um pouco mais de Jorge Elias Neto.

 

 


Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br