Miguel Barroso

 

Atualizado em 11/07/2009
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BIBLIOTHÈQUE EN FEU
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sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em prateleiras de mel que escorrem para quem amamos
e de dentro das sedas que lambem os livros respiras tu
em eternos sopros de dádiva e saber
em cascos húmidos de humanidade

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
com livros livres de lombadas e paginação
perto das memórias intemporais do amor
em que se cedem cópulas alquímicas e misteriosas

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em que se a cuidas, casa-alma, dita-la para mim
e o graal surge, em forma de beijo
imponente, cristalino, honesto e unicelular

(são as salivas dos livros que não li e me mostras
os desejos de sorver o palato da tua biblioteca)

e sem falar mais de livros,

falemos de amor…

aquele tabu em que se diz nada se poder definir

pois eu defino o que sinto na saliva das palavras - simbiose comunicacional - que o amor sou eu
em forma de nós
como um copo de mar sem peixe
como um copo de mar com peixe
como mares sem ou com copos

porque o graal eu descobri
é seda preta e distinta, no recolher sóbrio dos teus medos
na conversão una das tuas expectativas e desejos

ensejo então fundir
abraçar a morte física como gás que respiras

porque posso

porque sim

porque quero

- lembra-te que sou alquimista –

e da distância faço a cama de lavado
e dos ossos obtenho abraços
e de todas as bibliotecas de todas as existências em todos os mundos manda o amor

e o amor sou eu

e eu apanho a natureza no coração com uma rede indestrutível
e sôfrego toco-te um dedo
o dedo sensível com que intuis as coisas do mundo de todos os mundos

e se há mundos que desconheces, eu - alquimista-bibliotecário -
dilacero o peito

rasgo-me ao meio

sou um corpo-casa da alma-biblioteca

lê o que quiseres


tirem-te o pão,
tirem-te membros,
tirem-te alegria,
tirem-te o que amas, tirem-te a luz
e a esperança, tirem-te o riso e aquilo a que chamas de vida,
tirem-te. a ti.

façam o que fizerem, tirem-te o que te tirarem,
nada disso conta
pois vens a meu peito aberto e lês o que quiseres



e se nada nessas palavras te afagam
encosta o teu rosto ao sangue quente do meu peito
e segredar-te-ei que te amo

que tu és tu

e que és quem amo

livro de mim

livro de ti


livres em nós,
no amor universal

 


Miguel Barroso


 



Erigido em 1973 nos joelhos de Lisboa, fui forçado a paginar a medição dos universos.
A cada metástese diagnosticada doei ao sangue o estudo da escrita de epitáfios.
Após concluir o mestrado em Demolição de Ilusões, pandorei em várias cidades europeias até me odaliscar em Coimbra.
Além de escritor de epitáfios ministro workshops de poesia emotivodesconstrutiva intrauterina.
Escrevo por oxigenação, responsabilidade social e imposição eticoesotérica. Blogger, individual e colectivo. Textualizo e contextualizo pintura e fotografia, em colaboração com os autores.
Gosto de gelado de chocolate e de adormecer lúcido.
Sou um defeituoso recuperado.

sr.miguelbarroso@gmail.com