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A MENINA MORTA
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O raio de luar
esquálido esfarrapento
penetrou furtivamente
o buraco do telheiro
incidindo descaradamente
no rosto azul da menina morta
Fotografou a cara do medo
Os olhos cegos
— da menina morta —
aninhadas rolinhas
no oco das órbitas
espelhos vazios
de estuprador
polícia droga violência
traficante ou assaltante
refletiam
inocência apunhalada
As entranhas
— da menina morta —
traziam outra vida
feita antes da menarca
poder se manifestar.
Seria talvez monarca
desses reinos sem arcas.
Só o legista constatou
O sangue
que não escorreu
da menina viva
corria agora
— da menina morta —
por buracos artificiais
feitos pela indiferença
aos fatos sociais
considerados resíduos
neoliberais
O corpo
— da menina morta —
foi velado em solidão
sem cochichos de comadres
sem alguém ter comentado
nem havia menstruado
já estava engravidada
nem havia vivido
já estava morrida
nem havia brincado
já estava estuprada
nem havia se queixado
já estava acostumada
à dor da solidão
à dor da indiferença
à dor do desamor
O coração
sem corda
— da menina morta —
juntou-se aos nossos
discordantes
do modelo atual
onde crianças morrem
em prol do ajuste
fiscal/mundial/pessoal
da nova/velha ordem social
Nem sequer o desabafo
do coveiro à mulher
tão mocinha ainda
tão desiludida já
tão novinha ela
tão abusada foi
tão criança era
tão sem infância foi
Os dedos
brancoazulados
— da menina morta —
hirtos cruzados
sobre o peito descarnado
Arlequins espantados
não compreendiam o fato
de pousarem sem vida
Colibris agitados
jaziam cadavéricos
sem haver sequer sonhado
Nem houve o coro
das crentes carpideiras
Salve Mãe de Misericórdia
esta tua — menina morta —
esta Maria com fome
esta Maria sem nome
que dorme agora a teus pés
Salve Maria Mãe de Deus
esta Maria sem nada
que sobe agora aos céus
sem saber porque nasceu
sem saber porque morreu
Salve Senhora da Graça
Mãe de Misericórdia Nossa
Os pés regelados
crestados gretados
— da menina morta —
olham o céu
em branca paz redonda...
Sarita Barros
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