|
SILÊNCIO
___________________
Tardo a te dizer, amor querido
A vida inteira cravaste no meu peito sentida lança
Não tive como gritar pro mundo inteiro
A dor do amor emudeceu-me, quedei-me exangue
Ninguém percebeu coração tão machucado
Aguardando de ti algum afago.
Ninguém chegou a mim estendendo água
Pra livrar do sangue derramado
Portei-me como austera espiã que não se entrega
Na tortura, nenhum sinal revelou minhas entranhas
Vi pares se beijarem sob flores e luares
Senti a agonia de não estares ao meu lado
Estendi moedas a mendigos ulcerados
Não conseguiste ver meu coração dilacerado
Oh, amado, o que queres, diga-me agora
Porque feneço se não me alcanças
O teu silêncio é lança, é punhal, é dardo, é espinho
É tudo, é nada, abandonaste-me à beira do caminho
Vem, amado, diga-me alguma coisa
Porque feneço, não sentirás o cálice que ainda resiste em mim.
Sonia Alcalde |
●
Conheça vários de seus poemas em Escritores e Poetas.
alcalde@alternet.com.br
Poeta do grupo Cultura Sul, a
carioca Sonia Alcalde, que escolheu Bagé para viver desde 1975, divide com a
cidade sua experiência poética de 15 anos. No dia 27 de setembro lançou o livro
“Estações do eu”.
“Até 1992, eu não imaginava fazer poesia. Aconteceu diante dos campos de Dom
Pedrito. A luz, as cores, o gado... Senti-me em êxtase, a vertigem da liberdade
do imaginário. O emocional se permitindo ‘ver
diferente aquilo que os olhos haviam visto sempre sem ver’ (Rubem Alves). Depois
se retorna e a razão burila a ortografia, uma coisinha aqui, outra acolá. Mas
sem esquecer da licença poética”, explica a autora.
Logo recebeu o convite da amiga Sarita Barros, para participar do Cultura Sul.
“O grupo acolheu-me com afeto, isto foi muito importante. Imaginem!!! Metida no
meio de poetas. Duas madrinhas para me acompanhar: Elvira Nascimento e Iolanda
Abero Sá”, recorda.
Sonia revela que aprendeu muito com o grupo: “Como é de praxe, no Cultura Sul,
sempre se apresenta um trabalho nas reuniões, ou quase sempre. O grupo faz
comentários, destaca trechos, uma oficina diferenciada. Mas tive momentos
difíceis com os temas de casa. O próximo Boletim Poético será sobre o outono. E
aí?! Eu, carioca, de duas estações: primavera e verão. Como sentir o outono? O
jeito foi fazer laboratório. Na Praça da Estação pisei nas folhas secas, senti o
vento, toquei nas árvores. Por favor, inspirem-me... Resultado: Outono pop”.
Para a poeta, a presença dos amigos que morreram permanece no Cultura Sul. Os
poemas e o jeito especial de ser de Ernesto Wayne, Teresa Not, Iolanda Abero Sá,
Valúsia Saldanha e Maria Barcellos deixaram suas marcas. “Num desses dias de
inverno rigoroso, apareceu o sol convidando para ‘lagartear’ no fundo do pátio.
Aceitei. Aproveitei para reler o livro da Iolanda: “De cidra e mel”, lançado em
2004. Agora temos um DVD produzido com fragmentos de poesias dos integrantes do
Cultura Sul.
Foi um projeto desenvolvido por Norma Vasconcellos e Elvira Nascimento, com
patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura.
Sonia Alcalde conta que também buscou outros espaços para trabalhar a
sensibilidade. Em 2003 e 2004, Sarita Barros, Rafaela Ribas e ela cursaram a
Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche, no curso de Comunicação da Urcamp. O
livro “Seis contistas de Bagé”, no qual são co-autores Cláudio Falcão, Fabiana
Gonçalves e Yara Maria Botelho Vieira, foi o resultado final. Além de participar
dos Manifestos Poéticos do Cultura Sul e das publicações do Ecoarte, Sonia, tem
trabalhos em seis antologias cariocas e gaúchas. Com Sarita Barros, divide
autoria do livro “Papos e pontos” e organização do CD “Senhoras - canções e
poesias”, de Irene Marques Vieira, mãe de Sonia, e Sara Ramires Vicencio, mãe da
Sarita.
Em 2000, Sonia e Sarita promoveram a edição da “Antologia Festilenda” e reedição
da “Lagoa da música”, de Pedro Wayne. Em parceria com Eloína Lopes, organização
do “Conte mais”.
Por Stela Vasconcellos, Jornal O Minuano (trecho)
|