William Grimes    


Americanos largam as dietas, sem culpa... 

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Depois de mais de uma década definida pela consciência de saúde, conhecimentos nutricionais e autonegação, os Estados Unidos parecem estar entrando em uma nova fase de sua sempre torturada relação com a comida. De longe, muito mais americanos estão simplesmente dizendo sim a bifes do tamanho de brontossauros e sorvetes com alto teor de gordura, os mais finos Cadillacs da cozinha americana. Eles mergulham até o fim em martinis claros e cristalinos e, vindo à tona refrescados, colocam seus pés coletivos para cima e ignitam enormes charutos. Talvez mais chocante de tudo: eles não estão sofrendo as dores da culpa.

Dê um pulo em qualquer noite para espiar os freqüentadores da Churrascaria Plataforma, um palácio da carne brasileira no bairro dos teatros. Os garçons fatiam talagadas de carne de mesa em mesa, e assim vai. Eles correm entre fregueses brandindo espetos cheios de lingüiças e enormes pedaços de assados. Um carrinho, enfeitado feito um vagão de circo, entrega bebidas arrasa-quarteirão chamadas caipirinhas, enquanto outro cava vincos no chão sob o peso de uma dúzia de sobremesas.

Mesa após mesa, grandes porções de homens usam as expressões determinadas de atletas esperando pelo tiro de largada. Muitos deles, jovens e em forma, resolvidos a dar uma boa demonstração, tiram os paletós e jogam as gravatas por cima dos ombros.

Do outro lado da rua, na Maloney & Porcelli, onde o cardápio faz o banquete de Trimalchio em "Satyricon" parecer uma delicadeza culinária, os comensais estão fazendo o melhor que podem para devorar lagostas de 2,5 kg, pedaços de carne de porco tamanho família e postas gigantes de um peixe do Amazonas que parece saído de um filme de horror.

"Acho que o elemento dionisíaco está tomando conta da minha vida", disse Robert Sawyer, diretor de criação free-lancer na publicidade. Sawyer, 43, ex-atleta, tinha o hábito de pedalar sua bicicleta italiana de corrida no Central Park três ou quatro vezes por semana. Faz um bom tempo que a bicicleta não sai de casa.

"Não estou mais interessado em me divertir", disse. "Estou interessado em prazer."

A rotina está perdendo seus atrativos. A chama ainda está acesa, mas menos pessoas parecem estar dispostas a encará-la. A autonegação não parece tão boa como antigamente.

"A postura 'sem dor, sem ganho' dos anos 80 e começo dos anos 90 está agora sendo seriamente revista pelas pessoas", disse Barbara Caplan, sócia do Yanklovich Partners, uma companhia de pesquisa e consultoria em Norwalk, Connecticut. Sua pesquisa mais recente sugere que os americanos ainda se importam com a nutrição e saúde. Mas podem estar cansados da postura de sangue, suor e lágrimas a fim de atingir a satisfação pessoal.

"Elas estão dizendo: 'preciso de prazer, quero prazer, mereço, sem pedir desculpas para mim mesmo ou para qualquer um'", disse Caplan.

Um momento cultural importante parece ter passado. Seu espírito foi expresso sucintamente no final dos anos 80, quando Michael Douglas soltou "almoço é para boçais" para Charli Sheen em "Wall Street".

Os vencedores e as pessoas bonitas não comiam. Uma ética espartana de autonegação, refletida nos filmes, nas revistas de saúde e nos anúncios de moda, promovia a idéia de que a comida era pouco mais do que o combustível para o corpo perfeitamente afinado. E em um mundo repleto de toxinas, o combustível tinha de ser monitorado bem de perto, filtrado e purificado. Um fluxo infinito de informações detalhadas sobre saúde e nutrição explicava como fazer isso.

Por toda a era de consumo conspícuo, a elite estabeleceu um padrão de negação culinária conspícua, ostensivamente subsistindo de um minúsculo retângulo de peixe cozido, vegetais no vapor e água Evian. É surpresa para alguém que os distúrbios alimentares sejam a doença americana por excelência?

Depois de um tempo, a comida não comida começou a parecer terrivelmente tentadora.

Nos últimos 17 anos, a NPD, uma empresa de pesquisa alimentar em Rosemont, Illinois, perguntou a membros de 2.000 domicílios se eles concordavam com a seguinte declaração: "A coisa mais importante com respeito à comida é que ela tenha um bom aspecto, seja gostosa e cheirosa."

De 1985 a 1995, o número de "concordo" permaneceu estável, em 30%. Em 1996, sem razão aparente, o número subiu para 36%. Este ano, foi para 40%. "As pessoas estão admitindo uma coisa que sempre foi verdade", disse Harry Balzer, vice-presidente da NPD. "Não importa o quão rica em nutrientes uma coisa é, se não é gostosa, as pessoas não vão comer."

Em sua pesquisa anual entre 2.500 consumidores em todo o país, Yankelovich constatou um declínio no interesse em nutrição e uma inclinação maior para a indulgência. Quando a empresa perguntou aos entrevistados se eles prestavam atenção à nutrição quando comiam fora da mesma forma que eles faziam em casa, 40% disseram que sim em 1994.

O número vem declinando desde então, chegando aos 36% há poucos meses. O número de entrevistados que afirmaram que o peso os preocupava caiu de 37% para 29% nos últimos dois anos. Quando os entrevistados listaram as coisas que mais queriam fazer no ano que vem, "Divertir-se mais" ficou no topo da lista.

"As pessoas decidiram que a redução do stress é mais importante do que um centímetro extra nos quadris ou bíceps flácidos", disse Michael DeLuca, editor da "Restaurant Hospitality", uma revista de negócios, "Também, muita gente percebeu que esses produtos de baixo teor de gordura não são muito gostosos."

Em uma recente conferência de alimentação em Nova York, o presidente da Krantz Consulting respondeu a uma questão simples que lhe foi feita: "O que vende em restaurantes?" "Posso dizer o que vende", ele devolveu. "Gordura, açúcar e sal. É isso."

 
 
 

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