Rui Martins, correspondente internacional,
envia à Revista Rio Total, com exclusividade,
uma entrevista com o Dr. Alexandre Kalache.

 

Envelhecimento Ativo foi uma das resoluções aprovadas, durante a Asembléia Mundial, em Genebra.

O brasileiro, dr. Alexandre Kalache, encarregado do programa Envelhecimento e Saúde, faz observações e transmite conselhos relacionados aos idosos.

Rui Martins: O que é envelhecimento ativo?

Alexandre Kalache: Primeiro seria preciso explicar porque um brasileiro ocupa esse cargo na OMS. Pode parecer estranho para os brasileiros, pois ainda existe aquele idéia de que o Brasil é um país jovem e que devemos nos preocupar só com as crianças. Mas na verdade, estamos experimentando no Brasil um processo de envelhecimento muito rápido. Isso porque as pessoas estao vivendo mais, enquanto ao mesmo tempo, ocorre uma queda muito acentuada da natalidade. As mulheres, na decada de 70, tinham em media 6 filhos, hoje têm 2 filhos.  Com menos crianças e mais pessoas chegando à terceira idade, o envelhecimento é rápido. E o que estamos propondo, através da OMS, é um programa global de envelhecimento global ativo. Um envelhecimento ativo do ponto de vista físico, social e mental. Físico porque as pessoas precisam se movimentar. A idéia é a de estimular as pessoas para que tenham mais atividade física. Façam mais ginástica, andem de bicicleta ou usem a ergonométrica, porém, sobretudo que andem. Essa é uma coisa fácil, mas é básica – ANDAR, um excelente exercício para as pessoas que estão envelhecendo e para as já envelhecidas.

RM.: Mas andar como, depresssa ou devagar?

AK: Tudo é uma questao de degraus -  não andar é péssimo, andar devagarinho é melhor do que ficar parado; andar um pouco mais rápido é melhor do que andar devagarinho e andar depressa é ainda melhor. Precisamos nos adaptar às nossas condições físicas, aumentando o estímulo do nosso sistema cardiovascular, do nosso sistema respiratório. Então, caminhar é o exercício por excelência para as pessoas idosas.

RM: Então, nada de ficar sentado o dia todo na frente da televisão?

AK: Essa é a pior receita para se envelhecer. Se as pessoas quiserem realmente envelhecer numa pior, é ficar parado, sentado, comendo pipoca e olhando para a televisão. Ao andar, podemos ajuntar diversas formas de exercício. O ideal, depois de andar é a piscina, é nadar, é ficar dentro da água, porque a água sustenta o nosso peso. Em vez da gente ter uma lesão no joelho ou em outra articulação, a água permite justamente sustentar o peso e o movimento na natação é fantástico. Não só para a pessoa mais idosa, mas em qualquer idade.
Lembro que dentro da nossa cultura, dançar é que é bom. Então, vamos dançar, bailar. Vamos para os bailes, vamos nos movimentar, no sentido de ter alegria, porque não é só o exercício físico, no sentido masoquista da gente ter que ficar malhando, o importante é a gente se movimentar, colocar todas as articulações e o nosso sistema muscular em movimento. E isso traz um bem estar mental tambem.

RM: Principalmente se estiver acompanhado…

AK: Mas não é só estar acompanhado um a um. A dança facilita a sociabilização. E hoje está bem evidenciado, através de pesquisas científicas, que a atividade física, por si só, melhora não só o bem estar físico mas igualmente o bem estar social. A pessoa fica mentalmente mais arejada, mais satisfeita consigo mesma.
Além disso, esse movimento global do envelhecimento ativo, bate também com o aspecto social. A pessoa quando está envelhecendo e se aposenta, época em que os filhos saem de casa, vivendo a síndrome da sensação do ninho vazio, que gera nostalgia e uma certa depressão, precisa procurar novos contatos, novos projetos, procurar aprender uma nova habilidade, um hobby, alguma coisa que a ocupe. Uma coisa que estimule socialmente, integre na comunidade. Um trabalho que eu sugiro é o trabalho voluntário. Há tanta gente necessitada pelo Brasil inteiro, então é procurar fazer um trabalho voluntário que ajude às criancas, jovens ou
outras pessoas idosas. Há muita coisa boa que pode ser feita pela pessoa que tem tempo disponível, por não estar mais trabalhando, por não ter mais os filhos em casa, por não ter mais esse tipo de demanda dentro de casa. Então, vamos colocar toda a experiência e habilidade que a gente aprendeu em toda a vida, para fazer algo útil pelos outros, através de um trabalho voluntário, e isso repercute na gente. A gente se sente melhor consigo mesmo.

RM: Evitar portanto aquele quadro muito comum, no Brasil, em que o sujeito se aposenta e fica em casa atrapalhando a mulher…

AK: Em síntese a gente precisa se mexer, se mexer fisicamente, mas também social e mentalmente. Uma coisa muito boa para estimular a atividade mental é a palavra cruzada, jogar baralho, ter algum projeto que estimule e que possa desenvolver a capacidade mental.

RM: Jogar baralho de pé ?

AK: O negocio não é ficar o tempo todo se balançando, mas encontrar um equilíbrio bem balanceado. Aqui na Europa, observo que o grupo de idade ou etário que mais vem aprendendo técnicas de computação e usando o web e os meios de comunicação eletrônica, é o grupo de mais de 60 anos.
Isso é muito interessante, porque é uma fórmula de estar aprendendo novas técnicas e de ter mais informações. Então o projeto de envelhecimento ativo é o projeto para que, nesta virada do século, a gente possa ir aproveitando 1999, que é o ano internacional das pessoas idosas, para ter exatamente essa percepcao de que é importante enfocar mais essa parcela ainda tão negligenciada e posta de lado, que é o idoso. Mesmo porque, nos próximos 20 anos, a gente vai dobrar o número de pessoas com mais de 60 anos no mundo. Hoje somos por volta de 600 milhóes, em 2020, seremos um bilhão e duzentos milhões. E três quartos desse total, viverão nos países em desenvolvimento.
Entao, o desafio é grande e há muita coisa boa e positiva para se fazer.

RM: E antes de terminar, é verdade que a esperanca de vida sera logo de 100 a 120 anos, nos paises industrializados?

AK: Ha muita especulação nisso. Hoje, nos países desenvolvidos, a esperança de vida, da ordem de 77 para o homem e 81-82 para a mulher, vem aumentando.  Há vinte anos, a esperança de vida mais alta era na Suécia e Japão, em torno de 75 anos, hoje é para ambos os sexos em torno de 79. Estamos, porém, ainda bem longe do marco dos cem anos. E digo com sinceridade – do que vale viver até os cem anos se a gente não tiver qualidade de vida? Mas, para se ter qualidade de vida, é preciso investir na saúde. E para se investir na saúde e chegar bem na terceira idade, é preciso começar cedo. Então esta mensagem é para todo mundo.Todo mundo quer viver bastante, mas envelhecendo numa boa, ativo e com qualidade de vida. E para isso existe a necessidade imperiosa de investirmos na nossa saúde.

   
 
     

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