Ano 14 - Semana 750
 




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        26 de agosto, 2011

A beleza após os 50 anos

Susan Guggenheim  


Certa vez perguntaram à atriz francesa Jeanne Moreau porque ela, que já fora belíssima e sexy não fazia, como as outras atrizes, uma plástica para retirar as rugas de seu rosto. Na ocasião, ela deu uma resposta que serve de alerta para todos aqueles que passam dos 50 anos. Disse a atriz: “As rugas do meu rosto me custaram muitos anos de vida e sofrimentos para consegui-las. Não vou agora retirá-las”.

A percepção que temos de nós mesmos é construída ao longo dos anos e ser belo e jovem passou a ser uma imposição da sociedade moderna, que através da mídia impõe padrões e dita como deve ser a nossa imagem para sermos aceitos e amados.

Além de aparentarem serem jovens as pessoas devem ser magras, com corpos bem torneados. As mulheres devem ter seios mais fartos e braços e pernas mais musculosos do que deveriam ter há alguns anos atrás. Os homens não podem ter uma barriga proeminente e apesar de magros devem exibir músculos. Sabemos que para se ter este exato modelo de perfeição estética precisamos utilizar artifícios especiais como aulas de ginástica, musculação e tudo mais que possa contribuir para termos um aspecto que esteja de acordo com o que é vendido como beleza e boa aparência.

Algumas pessoas tiveram a sorte de terem este aspecto físico ideal naturalmente. Mas eles também se atormentam. Precisam conservar a todo o custo o que a natureza lhes deu, sob pena de serem rejeitados no futuro por alguns quilos a mais e de serem acusados de negligentes ou autodestrutivos.

A vida para muitos se tornou uma obsessão pelo consumo de produtos que prometem tudo aquilo que a própria sociedade engendrou como necessário: cosméticos, aparelhos de exercícios, dietas especiais e todos os tipos de produtos milagrosos.

No entanto, com o envelhecimento a nossa aparência se transforma: o corpo muda, o rosto ganha rugas, os cabelos embranquecem.

Aquele que tem hoje mais de 60 anos sente-se obrigado a pintar os cabelos, fazer ginástica, usar roupas que o deixem com um aspecto mais jovem. Muitos recorrem às cirurgias plásticas de todo tipo para interromper a ação do tempo. É certamente uma luta que se sabe perdida. Com o passar dos anos, o envelhecimento será visível e a negação deste fato pode trazer sofrimento para aqueles que diferentemente da atriz Jeanne Moreau não aceitam as rugas como carregadas de sentido e parte da experiência de vida. Elas não estão lá apenas para denunciar a idade cronológica. Elas representam a nossa experiência de vida, os nossos feitos, as alegrias e as tristezas que sentimos. Retirá-las poderá nos trazer a ilusão da juventude, mas ao mesmo tempo, apagará as marcas de uma existência da qual muitos se orgulham e não desejam esquecer.

Por que deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?  Sigmund Freud.

 

Susan Guggenheim é psicóloga e psicanalista,
Copacabana, RJ


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