Ano 22 - Semana 1.109




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16 de janeiro, 2019

A história da resiliência



Simone Sotto Mayor


Você, como eu, de uns anos para cá começou a ouvir a palavra “resiliência” com frequência? Ela hoje exprime o conceito de estar apto a se reconstruir após uma situação dramática, ou mesmo, de ser capaz de se adaptar às dificuldades da vida. Uma ideia simultânea de resistência e superação. Mas nem sempre o significado foi este: a noção de resiliência veio inicialmente da física, para designar a capacidade de um corpo, como uma barra de ferro, de resistir à pressão e retornar à sua forma original. A noção de resiliência entrou no campo da psicologia no século 20 e seu sentido vem se ampliando cada vez mais. Falamos de “resiliência ambiental” para descrever a capacidade de um ecossistema, uma população ou uma espécie, de encontrar um funcionamento normal após uma ruptura profunda ou uma destruição parcial.

Nos anos 1950, uma jovem psicóloga, Emmy Werner, ficou encarregada de 700 crianças que viviam em estado de angústia no arquipélago do Havaí: elas não estavam na escola, vinham de famílias com sérios problemas sociais e haviam sofrido violência psíquicas e sexuais. Ela os acompanhou regularmente até eles estarem com 40 anos. Chamando este grupo de “vulneráveis mas invencíveis”, a pesquisadora constatou que, dentre os que se mostraram ajustados à época de término do estudo (ou seja, aprenderam a ler e a escrever, encontraram um trabalho, formaram uma família), haviam recebido, nos primeiros três anos de suas vidas, a atenção de pelo menos uma pessoa amorosa em quem confiavam. Este era o dado comum entre os “sobreviventes”. E essa memória, ousou formular como hipótese a psicóloga, os fez capazes de enfrentar o mundo exterior e pedir ajuda para sobreviver. Enquanto os especialistas da época teriam achado mais normal que se tornassem delinquentes, viciados em drogas e que se tornassem pais ruins, aqueles meninos maltratados do Havaí ajudaram a compreender como um processo de reconstrução de si poderia ter início.

Nos anos 1990, o psicanalista francês Boris Cyrlnik, ele próprio um sobrevivente de perseguições nazistas durante a segunda guerra, ficou impressionado quando viu, num campo de refugiados, órfãos romenos que não interagiam com ninguém, recusando-se a falar por meses. Algumas mulheres camponesas começaram a “adotar”, de maneira informal, uma ou outra criança. E foram estas crianças justamente que, graças às atitudes tranquilizadoras das “novas mães”, conseguiram retomar seu desenvolvimento psicológico e afetivo. Cyrlnik percebeu que essas crianças viveram um processo de resiliência e teve a ideia de recriar o conceito. A palavra não era nova, mas fez enorme sucesso a partir daquele momento.

Mesmo na psicologia, a definição de resiliência nem sempre é óbvia. O psicanalista Cyrlnik diz que ela seria uma espécie de “impulso de vida”, ou de “ser capaz de mudar de olhar” sobre os infortúnios experimentados. Mas a ideia que vigora hoje entre a maioria dos que estudam o tema é que, por trás de cada pessoa resiliente, existe uma outra que conseguiu chegar no momento certo para ajudar. Não seria uma condição inerente a alguém, dependeria da sorte de ter encontrado em outro um forte suporte emocional, quando foi necessário.

E será que, aumentando a capacidade de resiliência, a pessoa consegue ser a mesma que era antes de passar pela dor? Não, as coisas não se passam assim. Após um trauma ou uma situação dramática que o cérebro não consegue elaborar, ninguém será o mesmo, jamais. As feridas da alma só se recuperam progressivamente, com o viver, o amar, o pensar. As marcas das vivências mais difíceis podem estimular alguém a permanecer sempre no papel de vítima ou a caminhar, com o tempo, em direção à tolerância e à sabedoria.

 

Simone Sotto Mayor é psicanalista
contato@simonesottomayor.com.br

 


Direção e Editoria
IRENE SERRA
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