Ano 22 - Semana 1.115



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1º de março, 2019


“Stashing”


Simone Sotto Mayor

Há tempos comentei aqui que gosto de acompanhar o surgimento de novas palavras, que vêm “oficializar” comportamentos que estão se tornando comuns, mas que ainda não tinham sido nomeados. A partir do ponto em que se dá “nome aos bois”, fica mais fácil de se entender, refletir e, até mesmo, escolher como se quer agir. E quem já viveu algo parecido se sente reconfortado, ao constatar que trata-se de uma tendência. E que não foi só consigo, ou por falha sua, que aquilo aconteceu.

Pois hoje há mais um termo em inglês, criado recentemente, que define um comportamento contemporâneo presente entre nós: o “stashing”. Originalmente, o verbo “to stash” quer dizer “esconder alguma coisa valiosa num lugar secreto”. “Stashing,” hoje, traduz também uma maneira muito peculiar de se relacionar amorosamente: uma pessoa namora alguém, mas decide esconder este alguém de quem quer que faça parte de sua vida. Os substantivos (stashing, stasher) e o verbo (to stash), com os novos significados, constam desde 2015 no dicionário Collins da língua inglesa, que já citamos aqui. Ou seja, acabaram de nomear algo que vem acontecendo há alguns anos, em relacionamentos amorosos, mundo afora. Infelizmente, caríssimos leitores homens, é um comportamento mais adotado por homens, em relação às suas parceiras.

E por que a vítima desse comportamento é escondida e excluída de todo o resto da vida do parceiro? Porque, dessa forma, o indivíduo pode fingir que não está se relacionando de verdade, com ela. Ao se recusar a reconhecer a existência de um parceiro ou parceira publicamente, alguém se autoriza a dizer a si mesmo que não está, na realidade, junto de ninguém. A partir daí, pode justificar para si mesmo o fato de sair com outras pessoas, de fazer só o que lhe convém e de agir, de forma geral, com desconsideração e desrespeito em relação ao seu par. E assim, numa sociedade centrada no masculino como a nossa, está perfeitamente facultado a tratá-lo (ou tratá-la) como alguém inferior a si. Infelizmente para a vítima que, confusa ou incrédula, pode demorar a entender a situação com clareza.

Mas, afinal, como funciona este processo? Como saber se uma relação que se está vivendo é o tipo de relacionamento que tentamos descrever hoje? Diríamos que é mais ou menos assim: vocês saem regularmente, passam noites juntos, de vez em quando até viajam juntos. Mas, aos poucos, você se dá conta de que algo está errado. Primeiro, você nota que, enquanto seu par já encontrou alguns de seus amigos ou familiares, você ainda não conheceu uma só pessoa da vida dele: não foi apresentada a nenhum familiar, nem nunca teve nenhuma espécie de contato com ninguém do círculo social dele. Em várias ocasiões, você vai vê-lo ao telefone falando com alguém, descrevendo o que está fazendo, e sua presença ou seu nome nunca serão mencionados. Você repara que, enquanto seu par aparece naturalmente nas suas postagens em redes sociais, a recíproca não acontece. Nas postagens dele, nenhuma indicação de que vocês estão num relacionamento.

Quando questionado, seu par lhe dirá, muito provavelmente, que esse tipo de conversa é desnecessária. Que tudo é só uma questão de oportunidade ou, talvez, de um pouco mais de tempo. Em breve, seu par estará pronto para “o próximo passo” com você; no caso, assumir para os outros que você existe… Seu par pode questionar o fato de você ficar tão aborrecido por ainda não ter sido apresentado a seu meio social: o que realmente deveria importar para você é o que está acontecendo entre vocês dois. “Assim, você não vive o momento”, pode ser uma frase que você ouvirá algumas vezes.

Estar sob o tal “stashing” deixa, invariavelmente, a noção de valor de si em frangalhos. Por que, então, o rompimento é postergado? Porque, como em outras situações abusivas (cônjuges de alcoólatras, por exemplo), tirando todos os comportamentos ofensivos, o parceiro ou parceira consegue achar a relação maravilhosa. Julgam que é tudo tão bom, quando estão a sós, que ficam esperando as coisas “entrarem nos eixos”…

Pessoas que aceitam ficar nesta situação precisam saber que só existem duas maneiras de sair fora do sofrimento que é o “stashing”. É claro que a primeira é trazer as questões para serem discutidas a dois, com o excluído explicando como se sente e perguntando ao outro se ele aceita fazer um pouco mais para mostrar que vocês estão juntos. Se ele acatar o pedido – e realmente cumprir isso – ótimo!

Se isto não ocorrer, pode ser difícil, mas não há meio termo: o jeito é sair agora, imediatamente. É preciso recuperar a coragem, virar a página e ficar sozinho por algum tempo, até encontrar alguém que demonstre ter orgulho de estar com você. Ninguém merece ser um relacionamento invisível de alguém, apenas “uma companhia”. Toda pessoa que se respeita, e que tem seu amor próprio íntegro, deve ser apresentada ao mundo por um parceiro que está feliz de todos saberem que vocês estão juntos.

 

Simone Sotto Mayor é psicanalista
contato@simonesottomayor.com.br

 


Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br