Ano 11 - Semana 577



Outras REFLEXÕES

 

   19 de abril, 2008
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O artista é um pescador


Artur da Távola    

O artista é uma espécie de pescador. Às vezes fisga uma emoção, um sentimento, uma atitude, um impulso inverbalizável. Daí, igualmente, o prestígio do escritor. Como, no ser humano, a capacidade de alcançar é maior que a de entender (e, portanto, verbalizar) quem tem a capacidade de pôr em palavras, em conceitos e idéias o que aparece na mente de maneira confusa (ou é, mesmo, inexpressável), recebe a gratidão dos demais, pois os alivia ao traduzir em palavras (e, portanto, ter a sensação de dominador) o que lavra em direções diversas e assusta por ser inaprisionável por conceitos, idéias ou palavras. Tudo o que consegue ser traduzido em palavras parece domado por quem o faz.

No caso dos atores (artistas de representação) é o ser humano o objeto dos ‘‘alcances’’. Representando o espectador e através dele a espécie humana, o artista-ator busca nas próprias profundezas emocionais os sentimentos próprios ao bicho homem, estabelecendo comparsaria, solidariedade, fraternidade, pois divide com o espectador o peso, a dor e a energia de todas as emoções humanas, carga demasiada para cada pessoa isoladamente.

Outro aspecto soma-se a este: quando o artista amadurece, a profundidade de sua manifestação independe de provir de uma obra ou personagem no qual ele dê o máximo de si.

A medida da maturidade de alguém dá-se quando desempenha o seu trivial de maneira profunda. É alcançar a profundidade no exercício regular de sua atividade, sem esforços especiais. Um grande artista chega a perder a noção de seu valor, porque certas realizações às quais não atribui importância atingem os demais de forma profunda e para ele (artista) inesperada.

No traço de um grande pintor está condensada a sua profundidade artística, independente de esse traço estar no seu quadro mais elaborado ou num desenho feito de brincadeira no guardanapo do bar.

Quando o artista desvincula-se da obrigação de ser profundo e, na realização de seu ofício, dia a dia, consegue ser denso até sem querer, ele pode estar certo de que atingiu a maturidade artística.
         

Fonte: O DIA

 


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