Marciano Vasques
O Estatuto do Avô
Devo à avó uma parte da composição poética da minha vida. Também ao
avô, ambos por parte de mãe.
Os meus avós paternos morreram em 1918 no mar, quando meu pai era um
menino.
Lembro-me do avô Pedro, caminhando entre pedras numa tarde que
azulava o horizonte de Ribeirão Pires.
Parece que tinha sempre, desde cedo, gargalhadas de plantão o velho
Pedro.
A avó Conceição, que já era vovó, estendendo um cobertor sobre mim ou
estendendo-me a mão com uma generosa fatia de pão com manteiga, numa
manhã ilesa de pedra lisa e limo e plantas suspensas no reflexo das
águas de um riacho enfeitado por cascalho e asas aquáticas.
Essas pessoas se foram e eu, como é costume acontecer, só após a
partida pude afinal compreender o significado amoroso da vida que se
manifesta nos gestos simples que são ofertados com afeto sem
cobrança, sem o pressuposto do retorno.
O signo ficado é o do amor numa de suas mais bonitas ramificações.
Mas, hoje estou em estado de encantamento por Melissa.
Sua mãe, Daniela, quase não conviveu com os avós. Um deles, o avô Chicão, partiu quando ela tinha seis anos, assassinado covardemente
pela inveja de um homem chamado Salvador, um desequilibrado incapaz
de suportar a alegria, e decidiu matá-la.
Com a chegada de Melissa em 26 de junho me transformei em avô. Isso significa, adquiri a capacidade de reviver emoções, de olhar a vida
com o olhar de renovação, de participar ativamente do ciclo mágico
da vida, que nos faz renascer com a chegada de uma criança, mesmo
que o mundo pareça desbotado, manchado pela insensatez.
Penso que a vida nos prepara durante anos para ser avós. O avô é
feito desde a mocidade. A condição de avô é construída, é edificada
através dos anos. Ser avô é um estado.
A mulher, que na infância e na mocidade colhe as flores do
aperfeiçoamento humano, vai sendo preparada para ser avó.
A colheita da avó está simbolizada na cestinha repleta de histórias
e poesia.
Histórias e poesia moram no coração da ternura e beijam o rosto do
neto.
O avô é o dom, o privilegio de alcançar outra geração. De transmitir
o acúmulo poético da vida como se transmite uma receita de doce
caseiro, preservada de geração em geração.
Melissa me coloca em contato com o futuro.
Por ela, a liberdade, o sol, o renascimento.
Ponho-me como risco de fósforo no verde claro lilás que varre o céu
num entardecer úmido em gotas discretas que escorrem entre os
arbustos.
Estar vivo vendo o neto crescer, acompanhar os seus primeiros
passos, ver uma nova geração desabrochar como flor e se impor no
jardim do mundo...
É o brinde que a vida reserva ao homem. Os avós significam a
serenidade da sabedoria da vida, que reserva para o ser humano essa
manifestação de felicidade na velhice.
O neto é a sinalização de que a velhice é apenas uma manifestação
física do corpo, que exposto à duração, vai perdendo a sua energia
original, como acontece com todos os seres vivos.
Velhice nada tem a ver com a mente, ou seja, com o espírito. O neto
dá esse toque. O avô atento estará sempre próximo a ele.
O nascimento do neto desenha no homem que se fez avô a confiança na
felicidade.
A felicidade jamais desiste.
O estatuto do avô é o mesmo que funda a felicidade, fundando-a, diz
que o avô jamais será em vão.
Como jamais se perderão as palavras pronunciadas ao vento numa
caminhada de mãos dadas, também jamais se perderá o afeto entre
gerações.
(2001)
marcianovasques@hotmail.com