Ano 13 - Semana 662





Outras REFLEXÕES

 

 12  de dezembro, 2009
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Marciano Vasques

O Estatuto do Avô


Devo à avó uma parte da composição poética da minha vida. Também ao avô, ambos por parte de mãe.

Os meus avós paternos morreram em 1918 no mar, quando meu pai era um menino.
Lembro-me do avô Pedro, caminhando entre pedras numa tarde que azulava o horizonte de Ribeirão Pires.

Parece que tinha sempre, desde cedo, gargalhadas de plantão o velho Pedro.

A avó Conceição, que já era vovó, estendendo um cobertor sobre mim ou estendendo-me a mão com uma generosa fatia de pão com manteiga, numa manhã ilesa de pedra lisa e limo e plantas suspensas no reflexo das águas de um riacho enfeitado por cascalho e asas aquáticas.

Essas pessoas se foram e eu, como é costume acontecer, só após a partida pude afinal compreender o significado amoroso da vida que se manifesta nos gestos simples que são ofertados com afeto sem cobrança, sem o pressuposto do retorno.

O signo ficado é o do amor numa de suas mais bonitas ramificações.

Mas, hoje estou em estado de encantamento por Melissa.

Sua mãe, Daniela, quase não conviveu com os avós. Um deles, o avô Chicão, partiu quando ela tinha seis anos, assassinado covardemente pela inveja de um homem chamado Salvador, um desequilibrado incapaz de suportar a alegria, e decidiu matá-la.

Com a chegada de Melissa em 26 de junho me transformei em avô. Isso significa, adquiri a capacidade de reviver emoções, de olhar a vida com o olhar de renovação, de participar ativamente do ciclo mágico da vida, que nos faz renascer com a chegada de uma criança, mesmo que o mundo pareça desbotado, manchado pela insensatez.

Penso que a vida nos prepara durante anos para ser avós. O avô é feito desde a mocidade. A condição de avô é construída, é edificada através dos anos. Ser avô é um estado.

A mulher, que na infância e na mocidade colhe as flores do aperfeiçoamento humano, vai sendo preparada para ser avó.

A colheita da avó está simbolizada na cestinha repleta de histórias e poesia.

Histórias e poesia moram no coração da ternura e beijam o rosto do neto.

O avô é o dom, o privilegio de alcançar outra geração. De transmitir o acúmulo poético da vida como se transmite uma receita de doce caseiro, preservada de geração em geração.

Melissa me coloca em contato com o futuro.

Por ela, a liberdade, o sol, o renascimento.

Ponho-me como risco de fósforo no verde claro lilás que varre o céu num entardecer úmido em gotas discretas que escorrem entre os arbustos.

Estar vivo vendo o neto crescer, acompanhar os seus primeiros passos, ver uma nova geração desabrochar como flor e se impor no jardim do mundo...

É o brinde que a vida reserva ao homem. Os avós significam a serenidade da sabedoria da vida, que reserva para o ser humano essa manifestação de felicidade na velhice.

O neto é a sinalização de que a velhice é apenas uma manifestação física do corpo, que exposto à duração, vai perdendo a sua energia original, como acontece com todos os seres vivos.

Velhice nada tem a ver com a mente, ou seja, com o espírito. O neto dá esse toque. O avô atento estará sempre próximo a ele.

O nascimento do neto desenha no homem que se fez avô a confiança na felicidade.

A felicidade jamais desiste.

O estatuto do avô é o mesmo que funda a felicidade, fundando-a, diz que o avô jamais será em vão.

Como jamais se perderão as palavras pronunciadas ao vento numa caminhada de mãos dadas, também jamais se perderá o afeto entre gerações.

(2001)

marcianovasques@hotmail.com 
 

 





Direção e Editoria
Irene Serra