Ricardo Bonalume Neto
          

O FILÓSOFO E SEU MESTRE


        
O filósofo Pirron de Elis andava por sua aldeia quando encontrou seu mestre com a cabeça presa em um fosso. Pirron (cerca de 360-272 a.C) contemplou o mestre por um tempo e continuou seu caminho sem salvar seu velho professor, que teria provavelmente morrido se não fosse pelo auxílio de outros.
"Seu tolo", disseram os outros habitantes da aldeia. "O mestre poderia ter morrido." Mas o mestre não castigou Pirron. Ao contrário, elogiou sua atitude e sua fidelidade a seus princípios.

Pirron era um filósofo cético, discípulo de Anaxarco de Abdera. Para ele, nós nunca conseguimos saber o suficiente para tomarmos decisões sábias - por isso, não havia como decidir por salvar o mestre.
Pirron dizia que os dois lados de qualquer questão poderiam oferecer argumentos de peso igual, e portanto a busca da verdade é algo sem sentido, vão.

Curiosamente, Pirron se aproveitou de uma das grandes oportunidades de fazer turismo de sua época, viajando para a Ásia junto das tropas de Alexandre, o Grande. Alexandre era um homem de ação. Quando lhe mostraram o nó górdio, que todos consideravam impossível de desatar, ele não teve dúvida. Cortou-o com sua espada.

Pirron era de outra estirpe. O turismo proporcionado por Alexandre o colocou em contato com os faquires indianos, que ele considerou céticos perfeitos, já que eram indiferentes a tudo, notadamente à dor.

Pirron é considerado o pai do ceticismo, a atitude filosófica que consiste em duvidar de tudo, de todo o conhecimento e suas bases. Levado ao extremo, o ceticismo de Pirron acaba tendo um efeito nocivo: não se sabe e nem existe como saber.

Pode parecer paradoxal, mas o cético extremado como ele torna-se um dogmático. "O ceticismo era a consolação do homem preguiçoso, já que mostrava que o ignorante era tão sábio como o homem de reputado saber", escreveu, perto de dois milênios depois, outro filósofo, Bertrand Russell (1872-1970).


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