Millôr Fernandes

        IF

Não à maneira de Rudyard Kipling

      
Se és dos que se perdem
na perdição geral,
e se duvidam de ti, tu duvidas também,
recobrando, às vezes, a certeza,
mas não com a mesma inteireza.

Se esperas furioso, e esperas o pior.
Se, por mais que te controles,
te perturbam a antipatia alheia
e o desprezo geral
e o pouco que agüentas
te dá um orgulho total.

Se o sonho crês realidade
e o que pensas, a Única Verdade.
Se és capaz de encarar a Derrota e a Vitória
como matrizes que são, do Olvido e da Glória.
Se combates a calúnia
com mentiras sem fim .

Se, destruído um esforcinho qualquer,
te pões logo a chorar: "Parei, não faço mais!",
até que os amigos
te arranjem capitais.
Se, num golpe de azar, perdendo o total
de tudo que era teu, tentares te salvar
com algum golpe imoral.

Se a vagotonia, a enfartemiocardia,
cirrose, catarata, simples cefalalgia
(ou seja, qualquer dor), te impedem de viver,
que o corpo é teu Senhor.

Se qualquer relação importante
te deixa exultante e, jogado a multidão,
te sentes um anão.
Te abalas ante o atraso da amiga,
a frieza do amigo,
qualquer sinal de "Nem te ligo",
e não consegues firmeza
ante a menor safadeza.

Se, enfim, de cada minuto,
hesitas, paras, sofres os sessenta segundos,
És um dos que nós somos;
sensato e desvairado,
liberto e emparedado,
idolatra e profano.
E, o que é melhor, meu filho,
tu és um ser humano.

Transcrição com autorização do autor.
Fonte: O Cruzeiro - Pif-Paf/1960
 

   
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