Ano 20 - Semana 1.045





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15 de setembro, 2017

If

Não à maneira de Rudyard Kipling  


Millôr Fernandes
       

Se és dos que se perdem
na perdição geral,
e se duvidam de ti, tu duvidas também,
recobrando, às vezes, a certeza,
mas não com a mesma inteireza.

Se esperas furioso, e esperas o pior.
Se, por mais que te controles,
te perturbam a antipatia alheia
e o desprezo geral
e o pouco que agüentas
te dá um orgulho total.

Se o sonho crês realidade
e o que pensas, a Única Verdade.
Se és capaz de encarar a Derrota e a Vitória
como matrizes que são, do Olvido e da Glória.
Se combates a calúnia
com mentiras sem fim.

Se, destruído um esforcinho qualquer,
te pões logo a chorar: "Parei, não faço mais!",
até que os amigos
te arranjem capitais.

Se, num golpe de azar, perdendo o total
de tudo que era teu, tentares te salvar
com algum golpe imoral.

Se a vagotonia, a enfartemiocardia,
cirrose, catarata, simples cefalalgia
(ou seja, qualquer dor), te impedem de viver,
que o corpo é teu Senhor.

Se qualquer relação importante
te deixa exultante e, jogado à multidão,
te sentes um anão.
Te abalas ante o atraso da amiga,
a frieza do amigo,
qualquer sinal de "Nem te ligo",
e não consegues firmeza
ante a menor safadeza.

Se, enfim, de cada minuto,
hesitas, paras, sofres os sessenta segundos,
És um dos que nós somos;
sensato e desvairado,
liberto e emparedado,
idolatra e profano.

E, o que é melhor, meu filho,
tu és um ser humano.



Transcrição com autorização do autor. Fonte: O Cruzeiro - Pif-Paf/1960
Publicado na Revista Rio Total em 13 de outubro, 2003


 


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