O que é que você
acha de você mesma? Se é feia ou bonita, magra ou
gorda, já sabe - ou pelo menos tem uma vaga idéia.
Mas por dentro, você se considera como? Uma pessoa
legal ou mais ou menos? O que será que falam de
você na sua ausência? Bem, mal, muito bem ou muito
mal? Isso aliás pouco importa; o que interessa mesmo
é saber de sua própria opinião sobre você mesma.
Geralmente as
pessoas se consideram piores do que são. Se alguém
faz um elogio, qual a sua reação? Apenas agradece,
como seria o normal, ou começa logo a dizer coisas
do tipo "ah, é bondade sua, ah, são seus
olhos, ah, você é muito gentil", o que pode
ser traduzido por "não sou nada disso, você
está querendo me agradar, não mereço ser
elogiada". Mas será que não mesmo?
Perfeito ninguém
é, mas ser um total monstro também é meio raro.
Faça um bom exame de consciência e responda: tem
feito muitas maldades ultimamente? De que tipo? Tem
roubado merenda das crianças na porta das escolas e
empurrado velhinhas para debaixo dos ônibus de
propósito?
Tem sido uma boa e
leal amiga, ou mais ou menos? Por mais ou menos
entenda-se falar sutilmente mal daquela que sempre
segurou suas pontas quando você mais precisou etc
etc.
Mas se tem passado
rasteiras para conseguir o que quer, acha que o fim
sempre justifica os meios, que a vida é um vale-tudo
em que vale tudo mesmo, quando se quer alcançar um
objetivo, a coisa anda mal. Se este não é seu caso,
vamos então tentar outro caminho.
Suas qualidades -
afinal, você deve ter alguma; quais são elas? Nem
vamos falar de nobrezas de almas e que tais, mas de
coisas mais simples. Tem se empenhado em fazer um bom
trabalho para merecer o salário que ganha, mesmo que
ele seja pequeno? Se respondeu sim, já é um ponto -
o primeiro - a seu favor.
Pense, reflita e descubra se fez alguma coisa boa -
uma, pelo menos - nas últimas 24 horas. Nada de
sensacional, apenas banalidades tipo ter sorrido para
alguém a troco de nada, ter olhado para o porteiro
na hora de dizer boa-noite, ter sentido o coração
apertado ao ver gente dormindo nas calçadas.
Se leu os jornais e teve um pensamento de
misericórdia em relação a qualquer ser humano que
está sofrendo do outro lado do planeta ou pensou com
carinho e ternura em algum velho amigo que não vê
há tempos, isso já pode ser um indício de que não
é um monstro - não um monstro total, pelo menos.
Mas nessas coisas é claro que não se pensa, só nas
outras, as bem ruins.
Se algum amigo tem a
gentileza de contar que andaram dizendo que você é
egoísta e só pensa em seus próprios interesses,
esse comentário vai cair na sua alma como uma luva.
Afinal, tirando alguns santos - dizem -, quem não
pensa freqüentemente em seus interesses, o que,
aliás, não é crime nenhum? Mas o problema não é
bem esse: é que a cada vez que dizem coisas ruins
sobre nós, acreditamos, damos toda razão e
começamos imediatamente a sofrer, já que somos tão
horríveis.
É fácil atingir as
pessoas com palavras, muito mais do que com um tiro -
e sem ao menos se arriscar a ir para a cadeia. Se
você acusa alguém de ser capaz de todas as maldades
desse mundo, esse alguém vai imediatamente achar que
no fundo é uma acusação justa. Quantas vezes ela
não teve vontade de esganar alguém, vontade de que
a pessoa que a incomoda suma, desapareça, que seja
muito feliz, mas bem longe, do outro lado do mundo?
Para quem tem uma certa tendência ao martírio - e
quem não tem? - é um prato cheio. Afinal, querer
que alguém desapareça faz de qualquer pessoa um
assassino em potencial. E quem consegue ser feliz se
sentindo capaz de tantas baixezas?
Ah, porque é tão
mais fácil acreditar no pior, arranjar boas razões
para sofrer, se achar a última de todas as criaturas
do que pensar que é apenas uma pessoa normal, com
erros e acertos, como todo mundo. Trocando em
miúdos, qualquer pretexto é bom para que o mundo
seja mesmo um vale de lágrimas - pelos sofrimentos
que já passou, pelos problemas atuais ou pelos
riscos que a vida apresenta. Afinal, ninguém está
livre de uma doença, de perder tudo que tem etc etc.
Quem nunca ouviu essa ladainha?
Pode até ser, mas
se for para pensar assim é melhor tirar o lenço do
bolso e começar a chorar - aliás, o que faz muita
gente a vida toda. E fazendo isso, vai acabar sozinha
- aliás, mais uma bela razão para chorar ainda
mais.