Danuza Leão    

Tudo de novo? E a coragem?
      

Como bo-ba-gens podem mudar nossa vida; não se está falando de enormes mudanças, apenas daquelas bem bobas que fazem com que tudo fique melhor e não custam nada, a não ser ter uma boa idéia e estar alerta, sempre, como os escoteiros.

Chega o dia, enfim, de arrumar a estante e os discos; aí você descobre que tem dezenas de fitas cassetes, essa coisa pré-histórica que ninguém nem lembra mais que existe. Faz o quê? Dá para o porteiro? Mas será que ele vai entender Chet Baker, cantando Let's Get Lost, ou Bola de Nieve, cantando Drume Negrita?

É possível que você esteja apenas passando o problema adiante, pois ele também não vai saber o que fazer com as fitas. Mas jogar tudo fora seria um crime, quase um sacrilégio. Muitas delas foram pirateadas de amigos que trouxeram de viagem e você pediu para copiar, o que naquela época ainda não era crime; outras ainda são mais históricas, pois foram copiadas de velhos LPs, que viraram peças de museu - literalmente.

Além disso, ficou tão complicado ouvir cassetes que a gente até desaprendeu; você ainda sabe automaticamente - como sabia -, se a parte cheia da fita fica do lado esquerdo ou do direito? Claro que não, mas isso até se resolve.

Como resolveu mesmo organizar a casa, vai fundo e descobre num armário, meio empoeirado, aquele rádio/toca-fita que até esqueceu que existia.

Leva para o quarto, pega umas dez fitas que não ouvia havia séculos e resolve criar um novo hábito: música de manhã, enquanto lê os jornais, e à noite, depois de ver os telejornais - bem baixinho, até dormir. E a vida muda.

Até agora, chegava em casa, ligava - automaticamente - a televisão e ficava procurando alguma coisa interessante para ver. Se encontrava, ótimo; se não encontrava, péssimo, mas continuava tentando, sempre automaticamente, até 10, 11 da noite.

Você deve estar pensando: "Ah, quanta bobagem, qual o problema de botar um toca-fita num quarto?" Aí é que está: problema nenhum, mas às vezes um novo hábito muda uma vida - e esse é o grande trunfo que temos, mas esquecemos que temos.

Tudo tem seus perigos, e acordar com música é um deles; já pensou, numa segunda-feira de manhã, ouvir Miles Davis antes de abrir os olhos e viajar naquele caso de amor tão maravilhoso, mas tão maravilhoso, que você não pensa nele há anos - como acontece com as boas recordações de amor.

Nem nele nem no trabalho que deveria ter feito no fim de semana e não fez, tão animada estava com a novidade de ter música no quarto; agora vai ter de encarar a irresponsabilidade - ah, para que existem as segundas-feiras?

Aliás, não são as segundas-feiras: a verdadeira dificuldade é transitar entre a realidade e o sonho.

É preciso sempre sonhar - dizem. Para isso existem os livros, os filmes, as novelas, as viagens, as férias, a música, o amor - o maior de todos os sonhos. Mas de um sonho se acorda, e aí se sofre. Não seria melhor não sonhar nunca, viver sempre com os pés no chão, não ter nenhuma espécie de ilusão, nunca?

Os grandes sonhadores dirão que não; os medrosos, que sim. Na verdade, não há maior sinal de medo do que trancar o coração para os sentimentos, não ter coragem nem de ter um gato - o bicho - pensando em como vai ser nas férias, se quiser passar um fim de semana fora, se o gatinho ficar doente, se morrer; e se você gostar muito dele? Também, se é para não gostar, para que ter?

De uma simples arrumação de uma estante, veja onde você chegou; e se, de repente, sem pensar muito, arranjasse um gatinho - o bicho - pequenininho, aí de uns dois meses; ah, que alegria ia ser na casa, que alegria quando estivesse vendo televisão e ele subisse no seu colo e ficasse de olhinho meio fechado, rosnando, e você fazendo um carinho na cabeça dele.

Aliás, há quanto tempo você não faz um carinho em alguém? E não recebe nenhum? Que tal começar com um gatinho, quem sabe dois, para alegrar não só a casa como seu coração?

Não é você que fala tanto em mudar? Pois vamos ver se tem coragem.

Dois gatinhos e dois novelos de lã, para eles brincarem; não ia ser ótimo?
         

Fonte: O Dia

 

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