Gilkéa Maciel
        

TRANSFORMAÇÕES



Ando tranqüilamente pelas areias da praia quando, de repente, percebo alguém que me olha insistentemente. Retribuo seu olhar e me afasto ruminando pensamentos. Depois de algum tempo as palavras de um certo amigo me voltam à memória: os frutos maduros são os mais doces.

Sim, por vezes me entristece o passar dos anos e os sinais dos tempos a se refletirem em meu corpo e minha face. É difícil aceitar que jamais voltarei aos meus trinta anos, idade que me fascinou e que me deixou muito feliz e realizada. Porém, descubro os encantos que vão surgindo a partir do desdobramento de novas etapas em minha vida. A sabedoria, a paciência, a resignação, a calma e o prazer de estar só são novos encantos a serem explorados.

De novo alguém me olha começando pelo rosto e quando desce os olhos pelo meu corpo seu olhar se desvia. Interpreto o seu gesto e compreendo que o meu corpo já tem marcas, nem sempre agradáveis ao olhar. São marcas do tempo. Indeléveis.

Mas, será que esse passante que me olha consegue ver através do concreto o intangível? Saberá ele que dentro desse corpo há uma alma jovem, sábia e mais densa do que talvez tantas outras que, apesar de pertencerem a corpos jovens, não têm a doçura do fruto maduro? Agora sei o tesouro que tenho dentro de mim, disponível para ser usufruído.

Vou aos poucos tomando conhecimento do nada e do muito que nós somos, enquanto vivemos uma vida às vezes apenas de aparências. Mergulho mais fundo dentro de mim e começo a voltar aos tempos em que começou minha transformação e uma luz se acende em minha mente, re-significando os acontecimentos daquela época.

Já se vão quase onze anos desde aquele mergulho em um buraco escuro e profundo. Naquela época, interpretei que ali começara o meu calvário, meu sofrimento e a minha sina em viver uma vida de tristeza e amargura.

Mas agora, neste exato momento, caminhando pelas areias mornas dessa praia de águas límpidas e sol brilhante, compreendo o significado daquele processo. Quando eu me senti caindo, eu estava apenas penetrando dentro de mim mesma. Eu estava mergulhando dentro do meu eu mais profundo para poder proceder às mudanças que se faziam necessárias em minha vida. Eu estava atravessando uma fase crucial, com muitos acontecimentos traumáticos, com insatisfações físicas e emocionais e todo o meu corpo mostrava as marcas de uma existência de frustrações e desgostos. As cicatrizes de muitas cirurgias eram a prova de que minh'alma gritava por mudanças e transformações essenciais ao meu bem-estar e tranqüilidade.

Porém eu me recusava a ver, a enxergar o que meu corpo mostrava. Eu me recusava a ouvir os gritos do meu corpo e permanecia insensível aos sentimentos que afloravam pelos meus poros através de dores e queixas.

Se eu não fosse tão resistente às mudanças... se eu me deixasse levar pela correnteza do rio, me abandonando à sua vontade e ao seu curso... Mas foi assim no meu nascimento, quando eu resisti bravamente. Eu não desejava mudar de ninho pois aquele era tão suave, macio e morno, que meu desejo era permanecer ali para sempre. Assim, foi preciso alguém ir me buscar para que eu visse a luz do dia brilhar e me iluminar, penetrando no mundo concreto.

Por isso não entendi a necessidade de um grande mergulho dentro de mim mesma para poder proceder às mudanças drásticas que se fazia necessário àquela época. Eu não queria sair do lugar em que estava e então resisti e não penetrei em meu âmago, em meu interior para escutar a minha sabedoria interna que estava a me dizer que era hora de transformações. Era chegada a hora de dar um grande passo em direção ao meu crescimento, à minha realização pessoal. Era a hora de resgatar a minha verdadeira identidade e o meu SER. Mas, como eu poderia mergulhar dentro de mim mesma se meu referencial era externo e eu estava completamente desligada de mim mesma? Não havia mais conexão entre o que eu era e aquela que ali estava, caindo em um abismo profundo. Eu caía porque não havia mais cordões para me segurar. Eu caia porque não havia mais ligações onde plugar a minha alma. Toda a minha energia se esvaíra me deixando inerte, sem entendimento, sem força nem discernimento para lutar contra uma situação extremamente esdrúxula e desconfortável.

Mas hoje eu posso mergulhar dentro de mim mesma, fazer perguntas e buscar respostas coerentes com a minha sabedoria interior e com o meu bem-estar. Hoje estou conectada aos ligamentos energéticos da vida que flui dentro de mim e que escoa tranqüilamente no processo de dar e receber. Hoje e sempre estarei lendo nas entrelinhas do meu ser aquilo que me faz feliz, trazendo meu bem-estar e a minha felicidade para poder distribuí-las com aqueles que estão ao meu redor.

Eu quero cada vez mais mergulhar dentro do meu ser para proceder às transformações necessárias ao meu processo de crescimento interior.

 

Gilkéa Maciel é
Master trainer em Programação Neurolingüística
gilkea@hotlink.com.br


 

Clique aqui e leia outras reflexões

Rio Total