Artur da Távola

         

CONTRADIÇÕES DA VIDA E DA MORTE

          
Alguns anos atrás, no fim da vida, o grande pintor brasileiro Milton DaCosta, sem poder falar, se comunicava apontando letras à sua frente, formando pequenas frases. Dessa forma, expressou a um amigo:

Estou feliz. Não tenho queixas. Às vezes choro”.

Essas frases, aparentemente contraditórias, construídas lentamente por quem já não podia falar, através do método de apontar letras à sua frente, são de significado amplo e comovente, como as figuras de suas telas. Representam pungente e salvadora concepção de vida. Um pintor gravemente enfermo, sem poder falar ou pintar, ao dizer “estou feliz” significa a compreensão serena de que é feliz quem cumpre, neste mundo, integralmente, a função para a qual veio destinado por misteriosa determinação.

A segunda frase, “não tenho queixas”, representa a resignação verdadeira, a aceitação da vida, da enfermidade, da morte, o que só a maturidade traz: compreensão ampla e generosa das coisas, as boas e más, ofensas, elogios, risos e dores, o sentido de perdão e tudo o que porventura o feriu ou machucou. A dor de saber-se para a morte. A esperança.

A terceira é aparentemente contrária à primeira: “Às vezes choro”. Mas como chora se está feliz e não tem queixas, perguntará alguém dominado por lógica implacável!?...! Choro, diria ele, porque partir é triste. Choro, porque a condição humana é atrelada à vida e aqui somos afeto e esperança. Era o choro recatado de quem se sabe em partida para o desconhecido e mesmo feliz por haver cumprido sua sina e vontade, despede-se com dor. Só quem é capaz de ser feliz sente, com saudade antecipada, a dilacerante despedida do mundo que ajudou a fazer melhor.


 

   
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