Ano 15 - Semana 784
 



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      27 de abril, 2012
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  As Possibilidades Perdidas

(Fernando Baganha esclarece sobre esse texto, atribuído a Carlos Drummond de Andrade,
mas que é na verdade uma colagem de 3 autores: Martha Medeiros, Mary Cholmondeley (uma escritora inglesa) e um americano chamado Tim Hansel.
O texto também é conhecido com o título "Viver não dói".)


Martha Medeiros

Fiquei sabendo que um poeta mineiro que eu não conhecia, chamado Emilio Moura, teria completado 100 anos neste mês de agosto, caso vivo fosse. Era amigo de outro grande poeta, Drummond. Chegaram a mim alguns versos dele, e um em especial me chamou a atenção: "Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive".

Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais."


MARY CHOLMONDELEY - RED POTTAGE
(Trecho do romance de 1899)
"Every year I live I am more convinced that the wast of life lies in the love we have not given, the powers we have not used, the selfish prudence which will risk nothing, and which, shirking pain, misses happiness as well."
"A cada ano que vivo, mais me convenço de que o desperdicio da vida está no amor que não damos, nas energias que não usamos, na prudencia egoista que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade."

TIM HANSEL - YOU GOTTA KEEP DANCING'
(Tim sofreu um acidente e vive com dores terríveis mas não desistiu de viver)
"Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy."
"A dor é inevitável, mas a miséria é opcional. Não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria."

EMILIO MOURA - CANÇÃO
(Emilio Moura é citado e homenageado não só por Drummond mas por outros escritores)

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.



 


 

Direção e Editoria
IRENE SERRA