Cesar Campos


CONCERTOS DIDÁTICOS

A música, dentre todas as expressões artísticas, assume um papel bastante peculiar. Em uma peça de teatro pode ser de fundamental importância para a compreensão do texto ou transmissão de uma determinada emoção proposta pelo texto. Pode ser apenas um pano de fundo para amenizar ou agravar situações (Cinema). Em outra situação pode ser o elemento chave para mobilizar as pessoas para um determinando objetivo (Bandas Marciais). No campo religioso podemos afirmar com segurança que não há religião sem música. Pois é mais do que conhecida a sua importância para a criação de estados de espírito elevado.
Portanto, a música pode ser: Diversão, Reflexão, Expressão de sentimentos, Relaxamento, Estímulo à ação, Cura pela musicoterapia, Espiritualidade, Êxtase, e tantas outras coisas que o ser humano vive, sente e precisa.

No entanto, a música sob o ponto de vista de evolução do ser humano apresenta-se como um verdadeiro paradoxo, como um desafio à lógica do ser humano. Por quê? Para a sobrevivência do ser humano até hoje não se entendeu a necessidade da música. É diferente quando analisamos o cérebro, o andar em duas pernas, o ouvido desenvolvido para ouvir sons sutis, a capacidade de inventar e refletir sobre a própria experiência, tudo isto se explica pela necessidade de se adaptar e de desenvolver para sobreviver.

Então, voltamos à questão para que serve a música. Por exemplo, quando ouvimos o Estudo n.º 1 de Villa Lobos como podemos associá-lo à nossa sobrevivência? Podemos associá-lo às nossas emoções e sentimentos, mas à nossa sobrevivência? Como?
Uma coisa tem chamado a atenção de alguns estudiosos, principalmente nas Universidades Americanas de Wayne, Califórnia Harvard , Washington e Rockfeller, além de Konstanz, na Alemanha.

SE O SOM EXISTE, ENTÃO HÁ UM OUVIDO PARA CAPTÁ-LO, UM CÉREBRO PARA OUVI-LO E UMA MENTE PARA ENTENDÊ-LO . SE EXISTE TAMBÉM A MÚSICA, ENTÃO O PROCESSO É O MESMO. HÁ UM OUVIDO PARA CAPTÁ-LA, UM CÉREBRO PARA OUVI-LA E UMA MENTE PARA ENTENDÊ-LA.

Daí então inúmeras pesquisas foram iniciadas e, como não poderia deixar de ser, o caminho a seguir nas pesquisas foi pela psicologia e neurobiologia, pesquisando sobre a construção do cérebro. Nós temos o mesmo número de células nervosas desde o nosso nascimento, porém as nossas 400 gramas de massa encefálica quando nascemos tornam-se 1.500 gramas na nossa fase adulta. O que mudou ? As nossas células nervosas se associam umas as outras (sinapse) tornando-se em neurônios. Com este recursos nós pensamos, raciocinamos, lembramos, ouvimos, enxergamos e aprendemos e nos emocionamos. Esta é a diferença entre os cérebro de crianças e adultos. O volume do cérebro de um adulto é maior, porque há mais sinapses realizadas, porém, são as mesmas 100 bilhões de células nervosas de quando nascemos, com mais de 100 trilhões de ligações entre si.
Nestas pesquisas confirmou-se que há etapas definidas para o desenvolvimento do cérebro das crianças, e que a inteligência, a sensibilidade e a linguagem podem e devem ser aprimoradas na escola, no clube e especialmente dentro de casa. E que o gosto pela ciência, pela arte e por idiomas ocorre muito mais cedo do que se imaginava.

A revista TIME, em 10/02/97, fez matéria especial sobre o assunto; a Revista Newsweek fez matéria de capa, em 1996 e a revista Veja também seguiu o mesmo caminho em 1996.

"AS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS DE VIDA SÃO TÃO IMPORTANTES QUE PODEM MUDAR POR COMPLETO A MANEIRA COMO AS PESSOAS SE DESENVOLVEM", afirma o neuropediatra Harry Chugani, professor da Universidade de Wayne, nos EUA.
Foi comprovado que o contato físico, o ouvir a voz, as entonações diferentes da voz, as luzes e cores são fundamentais para o desenvolvimento neurológico das crianças, como sentar, andar, falar etc... Crianças criadas no colo das mães e avós têm muito mais chances de um desenvolvimento normal do que as crianças sem este tipo de contato físico.
Cada contato, cada experiência nova, cada estímulo na época certa faz realizar ligações entre as células nervosas abrindo assim possibilidades de desenvolvimento para as crianças, que podem ou não ser mais desenvolvidas , mas não por falta de recursos ou inteligência.

Os neurobiólogos têm denominado esta situação como sendo a criação de "JANELAS DE OPORTUNIDADES" , ou seja, cada experiência vivida em cada período de desenvolvimento da criança realiza conexões entre as células nervosas que cria as condições favoráveis para o surgimento de determinadas capacidades observadas nos adultos.
Assim, Musicalidade, raciocínio lógico-matemático, inteligência espacial, são capacidades que se consolidam na primeira infância, quando a criança está aprendendo a aprender. Em relação ao domínio de linguagem, estas "janelas de oportunidades" se abrem ao nascer e vão até os 10 anos, sendo que após esta idade a dificuldade para se adquirir um novo idioma é a mesma de um adulto, como afirma Patrícia Kuhl da Universidade de Washington.

Nestas pesquisas verificou-se que a música é, de fato , um dos estímulos mais potentes para ativar os circuitos do cérebro, como também que a "janela de oportunidade" musical abre-se aos 3 anos e fecha-se aos 10.

Na Universidade de Konstanz, na Alemanha os pesquisadores estudaram o cérebro de nove músicos, utilizando-se de ressonância magnética e observaram que as porções cerebrais relacionadas aos movimentos do polegar e dedo mínimo da mão esquerda eram maiores do que os que não eram músicos. Nesta pesquisa não importava a quantidade de tempo dedicada ao estudo musical, mas sim em que idade eles haviam sido apresentados aos instrumentos.
A música também demonstrou que é capaz de imprimir no cérebro a compreensão da melodia das próprias palavras.
Portanto, é fundamental para a criação de "janelas de oportunidades" que as crianças ouçam as cantigas de roda, as cantigas de ninar, as conversas com os bebês, as entonações diferentes nestas conversas, o colo das mães, tias e avós, a escola, o clube, os vizinhos e, principalmente, as brincadeiras das crianças.

Em fevereiro de 1997, foi publicado na revista Neurological Research que pré-escolares que estudaram piano apresentavam 34% de melhores resultados em habilidade no uso de raciocínio espacial e temporal do que os alunos que não tiveram estudo de música, mas gastaram a mesma quantidade de tempo estudando computadores. Assim, as mães, as tias e as avós, os professores e os médicos, os colegas e os vizinhos, sem que soubessem estiveram contribuindo durante a infância de inúmeras crianças, filhos, netos e sobrinhos com a construção de inúmeras "janelas de oportunidades".

São estas janelas de oportunidade que nos permitem admirar, com sensibilidade e emoção, músicas como por exemplo, a valsa " Doce Lembrança" de Adamo Prince, pois qualquer de nós, mesmo que não a tenha ouvido antes, não deixa de perceber a riqueza melódica e harmônica. Ou então para lembrarmos da letra, das notas musicais e pausas encadeadas compondo a melodia de um "Carinhoso" de Pixinguinha.

Mas afinal, continuamos com a mesma questão: para que serve a música? Podemos também seguir o caminho do relaxamento para combater o stress inevitável na vida, que sempre nos coloca na situação de enfrentar ou fugir, o velho dilema do ser humano desde os tempos das cavernas. Enfrentamos a fera ou fugimos dela. E sempre que não conseguimos dar uma resposta adequada ficamos stressados.
Mas as respostas para serem adequadas às situações exigem que estejamos equilibrados, saudáveis e de bem com a vida , apesar dos problemas. É necessário que estejamos com a nossa auto estima elevada , para que possamos separar o que é nosso e o que é de fora. Senão corremos o risco de nos confundir com os problemas e passamos a nos achar ruins, fracos, sem coragem, deprimidos etc.. Isto é uma típica reação de stress.
Problema é só para ser resolvido e não para ser cortejado. Problema sem solução, solucionado já está.

Mas pode a música nos ajudar no combate ao stress? De que forma? Simplesmente, dedicando alguns minutos de atenção exclusiva para ouvir uma música calma e tranqüila, sem interrupções, sem dispersão, tornando a música como o centro da nossa atenção. Outro caminho é aprender a tocar um instrumento musical, opção que tem atraído muitos profissionais liberais e executivos nestes últimos três anos para a nossa escola, pois sendo uma atividade com uma elevada qualidade de atenção, relaxa e fortalece a auto estima.
Imaginem se é possível ficar estressado ou tenso, ouvindo ou tocando uma música como " Feitio de Oração" de Noel Rosa.

E a música tem ou não uma finalidade? Podemos experimentar agora o caminho da simples diversão, até para ver se, de fato, é verdadeiro o ditado: " Quem canta seus males espanta". Será possível também para nós?

 

Colaboração da Escola de Música In Concert

 

 

 

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