Simone Sotto Mayor
UMA
FORMA DE ABUSO EMOCIONAL
Nos dias de hoje, em que somos acossados pela violência explícita vinda
de várias frentes, também somos muitas vezes testemunhas ou mesmo
vítimas de um tipo de violência mais difícil de se visualizar e nem por
isso menos virulenta. Essa violência advém de relacionamentos com
pessoas perversas, que elegem uma vítima e passam a se dedicar à
tentativa de destruí-la. Já que não é possível matá-la fisicamente,
tentam assassiná-la moral, emocional e socialmente. Este tipo de ação
vem sendo estudado por especialistas nos últimos anos e recebeu o nome
de assédio moral uma forma de abuso emocional.
Mas, afinal, do que estamos falando? O que é um indivíduo perverso e
mais, o que estamos chamando de uma relação perversa? Os estudiosos do
assunto definiram indivíduos perversos como sendo aqueles que, sob a
influência de seu grandioso eu, tornam-se capazes de tentar criar sempre
uma relação peculiar com uma segunda pessoa. Neste tipo de relação
característica, o sujeito perverso ataca particularmente a integridade
psíquica do outro, visando desarmá-lo e deixá-lo à sua mercê. Assim, são
atacados igualmente o amor-próprio do outro, sua confiança em si, sua
auto-estima e a crença em si próprio.
Todas as pessoas estão sujeitas a terem momentos de perversidade moral
do tipo descrito em suas relações com os outros. A diferença é que os
verdadeiros perversos só sabem se relacionar dessa maneira em todas as
esferas de sua vida. Movidos por um egocentrismo extremado e uma total
falta de empatia pelos outros, esses indivíduos ainda sentem uma enorme
inveja dos que parecem possuir o que eles não têm ou daqueles que,
simplesmente, têm prazer com a própria vida.
O perfil das vítimas também tem sido estudado dentro da vitimologia.
Esta disciplina é recente e estuda o processo de vitimização, suas
conseqüências para as vítimas e os direitos que elas possam vir a
reivindicar.
Durante muito tempo, dizia-se que a vítima da pessoa perversa seria
masoquista. Hoje em dia, entretanto, sabe-se que elas são pessoas bem
dotadas, cheias de vitalidade e colaborativas. São seduzidas para se
enredar numa relação destrutiva, justamente a partir de seu feitio
doador. É desse feitio que o agressor tira partido, ao se apresentar
como alguém a quem a vida lesou e que necessita muito de proteção e
carinho. A maior vulnerabilidade das vítimas é que elas não se vêem como
realmente são. Têm dúvidas quanto a sua própria capacidade. Isso faz com
que criem para si o desafio de mudar o outro, provando assim sua força e
seu valor.
Mas, será mesmo possível que o agressor consiga tudo isso, sem encontrar
obstáculos? Certamente, pois existem inúmeras formas básicas e simples
de desestabilizar o outro e o perverso as conhece muito bem. Ele sabe
por exemplo que, para tal, basta rir das convicções e dos gostos do
outro, deixar de lhe dirigir a palavra, ridicularizá-lo publicamente,
denegri-lo diante dos demais, colocar em dúvida sua capacidade de
avaliação e decisão. E assim por diante.
Assim, um processo de desqualificação de alguém geralmente leva anos,
especialmente em relações familiares, onde os cônjuges e os filhos são
as vítimas mais comuns. No início, não há palavras explícitas, apenas
olhares de desprezo, alusões malévolas e críticas dissimuladas. Um dia
vem o momento crucial, quando surgem as palavras. “Você é mesmo uma
pessoa muito complicada”, diz, por exemplo, um pai a uma filha. Esta
integra esse dado, e vai se anulando realmente. Ou seja, alguém torna
nula sua própria identidade porque outro decretou o que ela era.
Durante muito tempo, a vítima, confusa, não compreende o que se passa
com ela. Mas quando enfim se dá conta e resolve reagir, rompendo com o
seu agressor, desperta a ira do perverso. E é aí que a violência se
torna intensa, explícita e implacável. Alguns perversos passam a dedicar
sua vida à tentativa de destruir o outro. Essas pessoas até podem
parecer se ocupar de outros projetos, mas o único que realmente lhes
importa é o de tentar destruir quem ousou lhes abandonar.
Mas como é levada a cabo tarefa tão ambiciosa? Bem, para tal é preciso
que sejam criadas o maior número de mentiras acerca da idoneidade da
vítima, que passa a ser a culpada de tudo o que aconteceu (de ruim) ou
deixou de acontecer (de bom) ao agressor. É bom lembrar que o indivíduo
perverso não experimenta o menor sentimento de culpa por agir assim,
pois já vimos como ele é incapaz de sentir empatia ou compaixão por
outro ser humano.
A pior de todas essas situações é a que envolve as relações entre pais
perversos e seus filhos, como vítimas. Aos olhos do agressor, os filhos
deixam de ser seus e passam a ser apenas filhos do ex-cônjuge,
merecedores, portanto, de todo o seu ódio. Nesses casos, terapias feitas
nas vítimas podem ser eficazes para deter o processo de destruição da
identidade. Mas é preciso que o terapeuta não venha a agir como a
maioria da sociedade. Ou seja, por comodismo ou respaldados numa alegada
postura “neutra”, os terapeutas podem até se omitir. Quando deixam de
destacar e nomear para as vítimas esse tipo de abuso emocional,
dificultam sua libertação do agressor.
Como em todos os demais casos de abuso, sabemos hoje que a vítima
precisa de alguém que acredite nela, para ter forças e reagir ao
massacre. Muitas vezes, basta que uma só pessoa acredite e apóie a
vítima para que ela comece a se reorganizar emocionalmente. Esperemos
que, se for um terapeuta o escolhido para desempenhar esse papel, ele
seja capaz de abraçá-lo sem entraves, até por sua condição de ser
humano, anterior à de terapeuta.
No meio cultural individualista em que vivemos atualmente, esse tipo de
ataque está se tornando mais comum. Precisamos todos ter cuidado pois, a
pretexto de sermos tolerantes, podemos estar sendo complacentes com uma
situação desse tipo próxima a nós, facilitando assim a atuação perversa.
Simone Sotto Mayor é
Médica Psiquiatra e Psicanalista