Simone Sotto Mayor

   

A consagração do “ficar”

Às vezes assistimos à consolidação de um determinado comportamento que foi se generalizando sem que nos déssemos conta e, em dado momento, achamos estranho ele estar ali, estabelecido como se sempre tivesse estado. Aí, nos indagamos como aquele movimento surgiu, como ele chegou àquele ponto, àquele lugar e o não acompanhamos? Com o “ficar” foi mais ou menos assim e hoje, quer se goste ou não, podemos dizer que o “ficar” veio para ficar. Os que não pertencem à geração de “ficantes”, sentem-se como se estivessem estado à margem de todo o processo e não entendem bem que novidade é essa.

A constatação que se faz é que o “ficar” não só é um rito de passagem da infância para a adolescência, como também uma prática que permeia todo o período da juventude, legitimada entre seus “praticantes” como uma forma de conhecimento mútuo. Como é mesmo isso de “forma de conhecimento”? Não nos aventuremos em esclarecer isso junto aos jovens em profundidade, pois eles também não dão explicações muito consistentes para o seu comportamento. É como se dissessem: é assim, e pronto. O fato é que tornam-se cada vez mais raros os namoros que acontecem sem serem precedidos de um período em que o casal se encontra e “fica” algumas vezes.

O “ficar” também pode existir sem a idéia de qualquer compromisso futuro: nem todas as vezes que se “fica” com alguém se está à procura de um namoro. Muitas vezes, é apenas a experiência pela experiência, valendo isso para ambos os sexos. Existe a idéia de que é puro entretenimento, experiência sensorial compartilhada. Não há, aparentemente, qualquer questão moral envolvida, de vez que desapareceu a idéia antiga de que as moças poderiam estar sendo “usadas”. Elas hoje pensam estar desfrutando tanto quanto eles da situação e sendo assim, se houver utilização, ela é mútua, dizem.

Numa cultura onde o transitório e o descartável cada vez têm mais lugar, o “ficar” parece representar o máximo possível de uma relação provisória. Nesse caso, os envolvidos em princípio parecem estar interessados apenas no bônus da experiência sensorial. Os ônus seriam os do compromisso.

E quais os ônus, aparentemente tão elevados, que adviriam do compromisso? É mais fácil saber do que falamos, uma espécie de horror ao compromisso, se pensarmos na sociedade de consumo em que vivemos hoje em dia e nas regras que ela gera. A substituição de tudo por algo “melhor” é a tônica de nossa cultura na atualidade. Assim, pode-se “ficar” com alguém mas se está, ao mesmo tempo, sempre aberto à possibilidade de aparecer alguém “melhor”.

Outra possibilidade de entendimento é que parece existir a crença de que, nas relações com esse caráter provisório, se está protegido do sofrimento trazido pela perda eventual da pessoa amada. Se não existe o vínculo afetivo com o outro, não se sente dor quando ele se vai. Supostamente, portanto, é um modelo de relacionamento interpessoal de menor risco, digamos assim.

De qualquer forma, tudo o que está sendo dito não encerra a questão, ao contrário, é apenas um convite à reflexão sobre um fenômeno contemporâneo, presente em nossa cultura e em nossas vidas, de uma ou de outra forma. Muitas outras possibilidades de compreensão surgirão. Para nós adultos, por enquanto, o que está valendo é saber que, entre os adolescentes, o “ficar” é apenas “uma forma de conhecimento” legitimada pela prática extensa e generalizada.


 

Simone Sotto Mayor é
Médica Psiquiatra e Psicanalista
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