Um dos princípios básicos das várias modalidades de Terapia e até da
própria vida é a condição de constante mudança a que o ser humano está
sujeito, em vários aspectos: Uma pessoa, por mais bela que seja, não pode
centralizar sua vida em sua beleza, pois o tempo pode envelhecê-la, um
acidente pode desfigurá-la. Enfim, inúmeros fatos podem ocorrer e torná-la
“feia”. Portanto a colocação correta deveria ser: “Esta pessoa está bela”
e não como se diz normalmente: “Esta pessoa é bela”. Da mesma forma, quem
está solteiro pode casar-se, quem está casado pode divorciar-se ou
enviuvar...
Sendo assim, a grande verdade é que nenhuma condição humana é irreversível
a não ser a morte. E, ainda assim, para quem acredita em reencarnação,
esta pode reverter-se (?)
Por isso fica meio difícil aceitar a forma como a maioria das pessoas
classifica os pacientes em relação aos distúrbios que atingem os seres
humanos. Diz-se: “Fulano é diabético”, “Sicrano é soropositivo”, “Beltrano
é disléxico ou epilético ou qualquer coisa assim”. Com estas afirmações
instala-se, além da doença, o “sentimento da doença”, ou seja, o indivíduo
não mais está doente e sim, psicologicamente, passa a ser a própria
doença.
Quando alguém se classifica como: “Eu sou... algum distúrbio qualquer”, na
verdade, centraliza toda a sua potência na doença. Como se não existisse
antes de adoecer e/ou nada do que faça tenha real importância, diante de
suas limitações impostas pela doença que, no fundo, é ele mesmo. Ele e a
doença são “uma só pessoa” e a partir daí, o paciente passa a viver em
função do que pode ou não fazer de acordo com os “limites” que a doença
lhe impõe. Isto não é visível e a maioria das pessoas não percebe, mas
influencia bastante no processo de recuperação.
Quando alguém se classifica como: “Eu estou com o distúrbio X”, já melhora
sua aceitação da doença, pois admite que o distúrbio existe, o acompanha,
“está com ele”, mas não o domina. Sua vida continua acontecendo
normalmente, apesar de um ou vários impedimentos que a doença lhe inflija.
Esta pessoa tem mais chances de recuperar-se, por acreditar ser tão forte
quanto a doença que o acompanha. Mesmo assim, ainda não é o ideal.
Penso que a melhor forma de um paciente classificar-se diante de um
distúrbio seja: “Eu sou portador do distúrbio X”. Psicologicamente o
portador sente-se forte. O fato de portar o distúrbio e ter o “poder” de
conduzi-lo como e por onde quiser faz com que o paciente sinta-se capaz de
dominar totalmente a doença. Por mais debilitado fisicamente e por mais
poderoso que seja o distúrbio ou vírus ou o que for, este parece não ter
forças contra o paciente que se julga portador, portanto “possuidor” da
mesma, no sentido real de posse. Com poder para dominar o distúrbio como e
por quanto tempo quiser. Isso reflete positivamente na recuperação e até
em casos considerados incuráveis, pode prolongar o período de vida por
vários anos além do previsto.
Desta forma é possível encontrar pessoas já bastante idosas e/ou
debilitadas por inúmeras doenças e que, ainda assim, parecem achar forças
para sair, desenvolver atividades diversas e viver muito, mesmo convivendo
com limitações. Por outro lado é possível encontrar pacientes jovens, mas
que, por falta de objetivos, perspectiva de vida e/ou motivação, acabam
deixando-se sucumbir por distúrbios/doenças simples que poderiam ser
facilmente controlados com perseverança e vontade de viver.
Diante de tudo isso, fica uma pergunta: Até que ponto uma doença é
realmente incurável e/ou um vírus é realmente mortal? Será que nós,
profissionais de saúde, não podemos mudar esse conceito com menos alarde
em “descobertas científicas” e mais investimento na auto estima de nossos
pacientes?
Dra. Lou de Olivier – Psicopedagoga e Multiterapeuta
http://psiconeuroarte.hpgvip.com.br
http://planeta.terra.com.br/educacao/portaldofuturo
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