Não, caro leitor, não se trata de artigo sobre a nossa atual
situação político-social, nem com o poder aquisitivo da classe
média, como bem poderia o título levar a pensar. Infelizmente é
mesmo sobre o velho chavão dos machistas de plantão. Mas o assunto é
sério e é mundial. O assunto é AIDS.
A AIDS, na terceira idade, vem avançando de forma alarmante em todo
o mundo e, em nosso país, as causas são fáceis de apontar, mas
difíceis de combater. Vários fatores contribuem para isso, porém os
mais destacados são as alterações no comportamento sexual, surgidas
com o lançamento de drogas para disfunção erétil, associado à falta
de informação sobre a doença nessa faixa etária, além da cultura
vigente nos idosos de que preservativo é apenas contraceptivo ou
para uso com prostitutas.
Para confirmar o avanço da doença, o Ministério da Saúde realizou
uma pesquisa, em 2002, que revela que cerca de 67% da população
entre 50 e 59 anos se diz sexualmente ativa, e 39% naqueles acima de
60 anos. Esses resultados levam à necessária e urgente discussão
sobre o avanço da AIDS nesse público tão esquecido pelas campanhas
de prevenção e visivelmente discriminado pela sociedade.
Nas propagandas publicitárias o grande enfoque de alerta para a AIDS
é dirigida para adolescentes, ao passo que a propaganda de
medicamentos que prometem acabar com a impotência sexual é voltada
para a terceira idade. Ora, enquanto o Governo enfoca a prevenção
nos jovens, são os idosos os mais esquecidos e teimosos na hora de
decidir pelo uso do preservativo. Os jovens já crescem educados com
a nova cultura, ao contrário das pessoas da terceira idade, que
desconhecem até mesmo o modo correto de usar o preservativo.
E quando se pergunta a um idoso a razão do abandono do preservativo,
em detrimento da própria saúde, vem o velho chavão de que não tem
graça chupar bala com papel. Peraí! Não estamos falando de crianças
inconseqüentes, muito menos de uma doença rara, que confira
imunidade. Estamos falando de AIDS! AIDS, meus caros! Não cabe aqui
esse discurso machista e ultrapassado de bala com papel! Estamos
falando de vida, e vida não tem embalagem, não tem quentinha, não
tem microondas!
As campanhas veiculadas pela mídia para conscientização da
necessidade de sexo protegido foram de fundamental importância na
modificação de práticas sexuais nas várias categorias de exposição,
notadamente os homossexuais, que modificaram seus hábitos, passando
a usar preservativo e a reduzir o número de parceiros, com declínio
no número de novos casos. Por outro lado, houve elevação do número
de contaminados de outras categorias, como os heterossexuais, que se
consideravam distantes dos riscos, por acreditarem se tratar de
doença relacionada à homossexualidade (a AIDS era considerada
inicialmente como sendo “epidemia gay”). Isso resultou na
necessidade de readequação das campanhas publicitárias, expondo
claramente os riscos também para os heterossexuais.
Atualmente, a utilização de jovens nas propagandas impede que o
idoso entenda que também ele tem risco de contrair o vírus do HIV,
afastando-o dessa grave realidade. De certa forma, isto acontece
pela dificuldade de se mencionar publicamente questões de
sexualidade do idoso, como suas preferências e práticas sexuais.
Vivemos um imenso tabu, que esbarra no preconceito, não só da
sociedade geral, como por parte dos próprios idosos.
A reação da família ante o conhecimento da positividade do HIV em um
de seus integrantes idosos gera, num primeiro momento, indignação e
surpresa, especialmente por se ter revelado hábitos até então
desconhecidos, geralmente fora do âmbito conjugal. Segue-se, então,
a aproximação, traduzida pela preocupação e o envolvimento dos
familiares no tratamento, naqueles que tinham laços de afetividade
bem solidificados antes da notícia, diferentemente daqueles cujos
relacionamentos já eram precários, que tendem ao abandono.
A pessoa idosa, em nosso país, já sofre com a discriminação,
independente de ter ou não saúde, imagine se considerarmos um idoso
doente, mormente decorrente de relações sexuais ou do uso de drogas.
Os preceitos da ética, moralidade, religiosidade e dos padrões de
bons costumes deveriam vir à tona para serem discutidos. No entanto,
é mais fácil para a família e a sociedade ignorar, resultando no
afastamento do meio social e até mesmo familiar, postura muitas
vezes adotada pelo próprio paciente, a fim de se resguardar.
Para o idoso soropositivo a situação é mais complicada do que para
os demais portadores do HIV, porque eles não possuem ambulatórios
especializados em tratamento de pessoas idosas com HIV, nem grupos
de auto-ajuda. Além disso, há maior dificuldade de tratar este grupo
etário, pela presença de doenças metabólicas e do próprio
envelhecimento, que comprometem a escolha da terapêutica adequada
(anti-retrovirais), por conta dos efeitos colaterais, que agravariam
as alterações preexistentes. Alia-se o fato que muitos pacientes têm
seu diagnóstico estabelecido tardiamente, apresentando-se com
doenças oportunistas, elevando-se a dificuldade de controle da
doença.
A resistência das pessoas idosas em usar preservativo está
relacionada com o medo de perder a ereção. Alguns ainda acreditam
que só é necessário usar com prostitutas. A falta de informação,
diálogo e discussão na mídia, torna a situação angustiante e o idoso
prefere calar e correr riscos, muitas vezes sem saber que está
correndo e expondo outras pessoas.
Para as mulheres, os especialistas alertam que fazer sexo sem
camisinha é mais arriscado ainda depois da menopausa, porque nessa
fase as paredes vaginais estão mais finas e ressecadas, favorecendo
o surgimento de ferimentos, que abrem caminho para o HIV.
É bom que prestemos mais atenção a esse grupo, que incentivemos as
campanhas de uso de preservativos, que conversemos com nossos pais,
tios, avós, porque certamente teremos uma elevação do número de
casos de pacientes da terceira idade, o que se deve não somente ao
aumento da expectativa de vida da população geral, como também ao
aumento da expectativa de vida dos pacientes soropositivos,
decorrente dos avanços das terapêuticas anti-retrovirais. Desta
forma, pacientes na quarta e quinta décadas atingirão a sexta
década, colaborando, infelizmente, para a elevação das estatísticas
de AIDS nos idosos.
No mais, que se passe a encarar o “papel de bala” como salvador de
muitas vidas, que se exalte suas qualidades, e que se ensine a
usá-lo com o mesmo prazer e infinitamente mais segurança.
Aqui damos muita ênfase nos cuidados com as crianças, pois que todos
já fomos um dia, o que é louvável, mas não podemos nos esquecer dos
cuidados com os idosos que, afinal, todos nós desejamos um dia ser.
Lílian Maial é médica
RJ