03/08/2012
Ano 16 - Número 798

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13/08/2012

PREMIADO EM LOCARNO O MELHOR ATOR - "WALTER SAABEL"

O júri do Festival de Locarno premiou o ator do filme O Brilho do Dia com a melhor interpretação, ao que parece uma escolha justa. Walter Saabel é um artista de circo, acostumado com o adestramento de ursos, lançamento de facas e mesmo papéis de palhaço. Sua participação num filme ocorreu no primeiro longa-metragem dos realizadores austríacos Tizza Covi e Rainer Frimmel, La Pivellina, que concorreu, pela Áustria, aos Academy Awards, em 2011.

Walter Saabel contracena em O Brilho do Dia (Der Glanz des Tages) com um conhecido ator de teatro, Philipp Hochmair, em grandes peças na Alemanha e na Áustria. Ambos são criaturas reais, vivendo suas próprias vidas na tela. Mas Philipp passa a vida decorando novos textos de suas peças e dá a impressão de ter uma existência irreal.

O encontro com Walter Saabel, no filme um tio que nunca tinha visto, faz Philipp ter um contato com a realidade, mesmo porque seu vizinho vive um problema de imigração. E Walter Saabel decide tentar uma solução para o vizinho, ao passar alguns dias com o sobrinho, que consiste em trazer para a Áustria, de maneira irregular e clandestina, a esposa do vizinho imigrante, impedida de entrar na Áustria depois de ter ido ao entêrro da mãe na Moldávia, embora tenha deixado, em Viena, seus dois filhos.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



12/08/2012

PREMIADO EM LOCARNO A MELHOR DIREÇÃO E A MELHOR ATRIZ - "LIAN YING" E "AN NAI"

Quando Chega a Noite ganhou dois premios no Festival de Cinema de Locarno, o de melhor direção e o de melhor atriz.

Trata-se de uma coprodução chinesa-sulcoreana, dirigida por um jovem cineasta, Lian Ying que aborda um tema sensível envolvendo arbitrariedade policial, seguida de agressões a policiais e um processo sem transparência comcluído por pena de morte.

O filme não mostra o jovem agredido, responsável pela morte de seis policiais, mas apenas sua mãe (vivida pela atriz An Nai), contando suas infrutíferas tentativas para garantir ao filho um processo normal e transparente. Inexplicavelmente, o rapaz ligado no filmeRobocop tem um processo irregular, enquanto sua mãe, logo depois da prisão do filho, é internada numa clínica psiquiátrica durante todo a fase do processo.

Ao sair da clínica, a mãe do jovem assassino descobre que seu filho foi condenado à morte e lhe restam apenas alguns dias, insuficientes para um recurso ou uma tentativa de um julgamento transparente. Baseado num caso real, noticiado e acompanhado por blogs, o filme não tenta inocentar a violência do rapaz, em represália por ter sido maltratado por policiais quando rodava com uma bicicleta não regulamentar.

O filme discute a falta de transparência do processo, a exclusão da mãe, que perde praticamente sua razão de vida ao perder o filho único, com a pena de morte, sem poder sequer abraçá-lo como desejava, pouco antes da execução. Na época, o caso mobilizou a imprensa alternativa.

A entrega do prêmio de melhor atriz a An Nai supreendeu a crítica, pois a atriz tem uma interpretação bastante limitada, enquanto outros filmes mostravam atrizes com muito maior desempenho.

Processo em Shangai
O diretor Liang Ying declarou em Locarno que a polícia de Shangai, lugar do ocorrido, não está satisfeita com o filme, e que casos de censura, em situações parecidas ocorrem na China. Professor de cinema em Hong-Kong, Liang Ying não sabe se o filme terá distribuição na China continental. Trata-se de um documentário ficional. Embora não tenha conseguido falar com a mãe do jovem, documentou-se com o material publicado na Internet sobre o caso.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



11/08/2012

FILME FRANCÊS GANHA LEOPARDO DE OURO

O filme francês La Fille de Nulle Part, do cineasta Jean-Claude Brisseau ganhou o Leopardo de Ouro na competição internacional do Festival de Locarno, que terminou hoje, na Suíça, no Ticino.

O filme é uma espécie de thriller esotérico (ver crítica a seguir), feito com um mínimo de recursos, sendo o realizador Brisseau também ator e roteirista. Tratando da necessidade dos humanos terem ilusões, o filme mantém diálogos dignos de Eric Rohmer.

O prêmio Especial do Júri foi para a comédia americana Somebody Up There Likes Me, de Bob Byington.

O prêmio de Melhor Direção foi o chinês professor de cinema em Hong-Kong, Ying Liang pelo filme Quando Chega a Noite.

O prêmio de Melhor Atriz foi para a chinesa An Nai, do filme Quando Chega a Noite.

O prêmio de Melhor Ator foi para Walter Saabel, do filme austríaco A Luz do Dia, de Tizza Covi e Rainer Frimmel.

Houve uma menção honrosa para o filme portugues A Última Vez que Vi Macau.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



09/08/2012

EXCLUSÃO E EUTANÁSIA DOS VELHOS

Locarno continua sendo o Festival da descoberta, do cinema independente e não comprometido. Esta nova safra de filmes mostra alguns temas dominantes. Muitos filmes tratam da velhice, um achado para os atores aposentados e marginalizados pela idade, vivendo um tipo de exclusão que se acentua em tempo de crise.

Essa exclusão de uma população inativa pode sugerir a idéia perigosa da sociedade se desfazer dos velhos, sugerindo-lhes a idéia de se suicidarem, a chamada morte ou suicídio assistido. Melhor coisa não poderia se inventar para se equilibrar os orçamentos das caixas de pensão estatais ou das seguradoras privadas, condenadas a pagarem rendimentos a idosos com esperança de vida cada vez mais longa.

Um filme francês Algumas Horas de Primavera, de Stéphane Brizé, mostra, como ocorre na intimidade, o suicídio dos que decidem colocar um ponto final na existência, seja pelo risco da fase final dolorosa de uma doença grave como o câncer, seja pelo receio de se tornarem velhos decrépitos, senis e dementes. Ou em consequência de uma depressão causada pela solidão.

Basta o candidato ao suicídio subir os Alpes e ir à Suíça, onde o decrépito segredo bancário começa a ceder lugar à eutanásia oferecida pelas associações Exit e Dignitas. Num ambiente de extrema frieza, mesmo cruel e asséptico, num pequeno quarto, quase isolado, o suicida toma suas duas poções com sabor de morango ou limão, pode escolher o gosto, perde gradativamente a consciência e morre, para ser logo depois incinerado e suas cinzas serem jogadas num lago ou rio suíço.

Algumas Horas de Primavera tem como tema as difíceis relações entre a mãe idosa e seu filho único de 48 anos, recém-saído da prisão e desempregado, que volta a morar com ela por falta de recursos. A incomunicabilidade total entre ambos reforça o desejo da velha senhora de por fim à vida, ao receber a confirmação de um câncer no cérebro.

Ao contrário de outros países latinos e dos países árabes, a cultura francesa privilegia a independência e a fragmentação familiar, com o hábito dos filhos irem viver sós ao chegarem a maioridade. O resultado dessa separação pode repercutir na época da velhice dos pais, praticamente abandonados pelos filhos sem vínculo familiar. É grande o número de idosos vivendo sós na França, sem contato com filhos e netos, em estado latente de depressão, presas fáceis para se desfazerem da vida pela eutanásia.


MOUSSA TOURÉ E O CINEMA AFRICANO

Moussa Touré um dos importantes cineastas africanos em Locarno irá ao Rio e São Paulo, dia 15 para apresentar seu novo filme A Piroga.

O cinema africano é destaque no Festival de Locarno, na Suíça, com a presença de realizadores africanos na mostra Open Doors ou Open Africa, oportunidade em que se discute a situação do cinema africano.

Alguns filmes africanos antológicos estão em Locarno – Yaaba, de Gaston Kaboré ; Abderrahmane Sissoko com Bamako, excelente crítica do plano do FMI para a África nos anos 80-90; e Cheick Oumar Sissoko com Guimba.

A abertura do Open Doors, ou Open Africa, foi com o filme A Piroga, do realizador senegalês Moussa Touré, que irá ao Brasil, São Paulo e Rio, no próximo dia 15, para apresentar seu filme.

O filme La Pirogue mostra senegaleses se servindo de barcos precários, canoas e pirogas com o objetivo de chegarem até a Espanha, onde nem todos conseguem aportar, vítimas de naufrágios.

A presença de Moussa Touré é a oportunidade para se tomar a temperatura do cinema africano.

«A grande falha atual do cinema africano é não haver salas de projeção - diz Moussa Touré - existem muitos filmes mas não há cinemas. Para que o cinema seja possível num país é preciso que o governo ponha dinheiro nisso, como mostra o exemplo positivo da França, e acho que no Senegal agora isso vai ser feito. Sou senegalês, vivo no Senegal e vejo começo das mudanças, fui dos que jogaram pedras nos protestos contra o outro presidente. E hoje acho que as pessoas que estão no poder, colocarão dinheiro, onde deve ser posto».

A África tem um grande Festival, criado na época de um incentivador do cinema africano, o ex-presidente Sankara de Burkina B. Moussa Touré fez parte do júri do Festival de Ouagadougou e destaca sua importância africana.

«Como eu vejo o Festival de Ouagadougou? Ainda agora há pouco alguém me disse, mas você vai sempre a Ouagadougou, e eu respondi, claro, sou patriota por esse festival. Como africano sinto-me obrigado a ir lá. Mesmo se podem surgir falhas de organização nesse festival, prefiro ir lá que em outro lugar, é lá que está meu povo e onde quero mostrar meus filmes, de preferencia a Locarno. Como eu vejo Ouagadougou ? Faço parte integrante desse festival é meu festival. Não é um festival de Burkina é um festival africano para os africanos e é um momento para juventude africana ver nossos filmes.» Para ele o Festival de Ouagadougou não é um festival de Burkina Faso mas de toda África, visto por milhares de jovens, que ali conhcem os filmes dos realizadores africanos.


PIAZZA GRANDE VIBRA CONTRA O DITADOR PINOCHET

Imagine mais de 8 mil pessoas aplaudindo o filme Não (No),do chileno Pablo Larrain, contando a campanha, em 1988, do referendo contra o ditador Pinochet. Essa é a força do Festival de Locarno, que não tem medo de assumir uma postura de engajamento ao projetar no telão de quase 300 metros quadrados, o desejo de liberdade do povo chileno, depois dos 15 anos da ditadura do golpista Augusto Pinochet.

E ao se ver a campanha publicitária de René Saavedra, vivido pelo ator Gael Garcia Bernal, projetada no telão e soando em alto volume pela praça, pode-se reviver a vitória do Não chileno à ditadura, há 24 anos, como se estivéssemos lá nas ruas de Santiago, cantando com o povo o jingle Chile, Chile...,que votara com maioria absoluta– Ditadura Não Mais, o sinal matemático do «mais» foi o que o povo traçou nas cédulas do referendo.

Em outras palavras, a campanha do Não no Chile foi uma versão por voto popular bem sucedida, parecida com a campanha brasileira pelas Diretas Já, que não deu certo por ter dependido do legislativo. René Saavedra lembra o publicitário Carlito Maia, que lutou contra a ditadura e bolou uma campanha publicitária, nas eleições presidenciais brasileiras com o jingle Lula Lá.

O filme chileno de Pablo Larraín já tinha sido exibido no Festival de Cannes e nele o ator principal é Gael Garcia Bernal, que não deixa dúvidas quanto às suas convições políticas de esquerda, desde sua participação no filme de Walter Salles, vivendo a figura mítica do Che Guevara.

O publicitário René Saavedra, embora filho de exilado de retorno ao Chile, não mostrava nenhum engajamento político, até decidir se encarregar da campanha publicitária do Não a Pinochet. E seu engajamento contra Pinochet foi em favor da democracia, de uma país com liberdade de expressão, não em favor de uma das 13 fações políticas de esquerda de oposição ao ditador.

O diretor Pablo Larraín considera Saavedra como um realista, consciente de que a ditadura era um entrave mesmo para a modernização econômica do país. E com sua cultura de publicitário atualizado, Saavedra encontrou no próprio liberalismo chileno de Pinochet, o antídoto para a manutenção do ditador no poder.

A força de persuasão de uma campanha publicitária pela televisão pode levar a outras comparações com o Brasil, onde é sabido a grande imprensa e tevê Globo manipulam a opinião pública e, no retorno das eleições presidenciais criaram uma imagem positiva para o caçador de marajás Fernando Collor e lhe deram a vitória para a presidência.

Ou seja, se no Chile a publicidade contribuiu para o fim da ditadura, no Brasil, o sistema Globo evitou a campanha das Diretas Jáe assegurou uma transição sem mudança de políticos, na fase terminal da ditadura militar brasileira. O quadro do monopólio da informação televisiva está, atualmente, sendo modificado com a criação da TV Brasil e com o crescimento de outros canais.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



08/08/2012

UM THRILLER ESOTÉRICO

Se esse gênero misterioso, transcendental e metafísico ainda não existe, o cineasta francês Jean-Claude Brisseau acaba de inventar com seu filme La Fille de Nulle Part, filmado em Paris, no seu próprio apartamento, onde alguns fenômenos estranhos - como aparições de fantasmas, barulhos inexplicáveis, levitação de mesa, cadeira furiosa se jogando sozinha contra estante e quebrando espelho se manifestam - depois de acolher uma jovem espancada pelo amante nas escadas do seu prédio, junto ao seu apartamento.

Michel é o personagem principal, vivido pelo enorme e pesado Brisseu, na sua primeira experiência de ator amador num cenário escrito por ele mesmo. Ex-professor, como na vida real, Michel tem o dom do didata e logo interessa sua hóspede, que precisa de cuidados médicos e repousa uma semana em seu apartamento, sobre uma pesquisa envolvendo as crenças e ilusões dos seres humanos.

Michel não é um crédulo mas um agnóstico ou ateu curioso na explicação dos mitos que embalam os seguidores das religiões. Pesquisador, baseado em descobertas arqueológicas, ele considera os personagens bíblicos do Velho Testamento como criaturas saídas da imaginação de um Josias.

Assim, Moisés nunca teria existido, mas se tivesse existido seria não o menino hebreu achado no curso do rio Nilo, mas um egípcio. E, reunindo num arquivo do seu computador os quadros da Ascenção de Cristo, pintados pelos grandes mestres computador, lhe surge a convicção de ter sido uma ilusão de seus discipulos, mesmo porque se Cristo tivesse subido aos céus para onde iria – para a Lua, Marte ou no forro de alguma igreja?

A presença da jovem Dora, de 26 anos, quarenta anos mais jovem que ele mas esperta e inteligente, capaz de ajudá-lo na conclusão dos seu livro sobre as ilusões criadas pelos homens, como uma necessidade existencial. Mas a jovem Dora parece ter levado o sobrenatural para sua casa e um espírito desenha num papel, com o pé de uma mesa em levitação, o rosto de uma mulher. O rosto se parece com sua esposa falecida há mais de vinte anos, perda da qual Michel nunca se refez.

Aparece também o fantasma de uma mulher de preto, enquanto ruídos estranhos saem de dentro do armário. E o intelectual impedernido, movido pela ilusão da possibilidade de um reencontro com sua esposa, cai na mesma cilada dos que precisam de algo místico para poder viver – Dora seria a reencarnação de sua esposa. E comete o erro fatal de legar todos seus bens, em caso de morte, para Dora, na verdade sua ex-esposa.

O resto nem se precisa contar. Filme indicado para os que vêem fantasmas e mensagens do além por todo lado e que se deixam levar pelo nariz por todos os tipos de crenças e crendices, nutrindo-se de ilusões para viver. Enquanto uns poucos, mais espertos explicarão sinais, vultos, ruídos, levitações, comunicados do além como simples truques de mágica. E ainda outros utilizarão das ilusões e dos crédulos como seu ganha pão esotérico.

Jean-Claude Brisseau quis também provar ser possível se fazer um filme com pouco dinheiro e que muitos caros efeitos especiais, usados nas superproduções sequer são percebidos pelos espectadores. Puro luxo desnecessário. Mas sem as ilusões poucos podem sobreviver.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



07/08/2012

JEANNE MOREAU E A CORAGEM DE SER VELHA RANZINZA

O Festival de Locarno acolhe dois monstros sagrados do cinema francês – um em carne e osso mas sem filme novo, é o ator Alain Delon; o outro é a atriz francesa Jeanne Moreau, ausente, mas presente no tamanho total da tela, no filme Uma Estoniana em Paris.

No seu encontro com os jornalistas, Alain Delon foi taxativo, « não tenho medo da velhice mas vocês nunca me verão como velho enfraquecido » e ficava claro, nem pessoalmente nos festivais nem em filmes mostrando o bonitão como um ancião.

Jeanne Moreau, que não é menos vaidosa, ganha de Delon por ter feito a opção de ser atriz até quando puder, mesmo se tiver de viver personagens envelhecidos. Como ser a estoniana Frida, de rosto marcado pela idade, mau humorada como costumam ficar todas as mulheres idosas e sob os cuidados de uma governanta.

Ninguém tinha coragem de convidar Jeanne Moreau para o papel da velha mas orgulhosa Frida, até que um produtor francês decidiu enfrentar o desafio. Resultado – o filme com Jeanne Moreau faz sensação em Locarno, uma verdadeira jóia na competição internacional do Festival. Será que Jeanne virá a Locarno, no caso de ganhar o premio de melhor interpretação feminina? Se isso acontecer, Locarno terá marcado um enorme tento, mesmo se os dois grandes do cinema não se cruzarem nos bastidores. E Jeanne poderá roubar a cena de Delon com sua coragem de filmar idosa no papel de uma personagem enfraquecida.

Será que o diretor do filme, o estoniano Ilmar Raag teve muita dificuldade para dirigir Jeanne Moreau. Ele diz que não, mas deve ser pro-forma, pois confessa, a seguir, que a famosa atriz queria ver, no fim do dia de filmagens, tudo quanto fora feito e dava suas opiniões e orientações, com as quais Ilmar concordava e aceitava.

« Jeanne também fazia observações sobre a atriz estoniana Laine Maegi e outros autores, que eu tomava a sério, pois acho que se fizesse pouco caso, ela poderia se irritar », conta o realizador.

« Quando o filme terminou – continua Ilmar – Jeanne Moreau, que sempre tratou sua colega estoniana (sua governanta no filme) com a expressão « minha pequena » lhe disse, ao saber que a atriz estava lamentando deixar Paris, « não fique triste minha pequena você trabalhou bem ». E Laine Maegi, que no papel de governanta era sempre humilhada por Frida, reagiu « e você também Jeanne! »

Conversa de atores à parte, o filme conta como Frida, que deixou a Estônia por Paris nos anos 30, época da explosão artística francesa, esperava ali encontrar um lugar como artista. Os letonianos interessados em melhorar de vida iam naquela época para outros países como imigrantes.

Em Paris, Frida logo se adaptou e, ao contrário das letonianas conservadoras e religiosas de sua época, viveu as folias da Belle Époque. Casada com um francês rico e atencioso, isso não lhe impediu de ter um caso com um jovem garçon de café, bem mais novos que ela, e mesmo com homem casado da comunidade letoniana, sendo por isso rejeitada.

O garçon de café se tornou proprietário de um restaurante chique e o amor antigo se tornou impossível por ter se tornado idosa. Mesmo assim Stéphane cuidava da ex-amante que, desiludida por ter envelhecido e ser obrigada a ceder seu lugar a mulheres mais jovens, tentou se suicidar. Para assegurar a Frida uma velhice tranquila, Stéphane contratou Anne como governanta, sabendo que seria uma tarefa difícil para Anne suportar, visto o mau-humor e o caráter ranzinza e autoritário de Frida.

O roteiro de Ilmar Raag, ex-diretor da televisão estatal estoniana, foi inspirado na experiência de sua mãe que, depois de viúva teve a oportunidade de ir a Paris para cuidar de uma senhora idosa da comunidade estoniana, que tentara o suicídio. Depois de alguns anos, sua mãe retornou à Letônia mas não era a mesma. Tinha se transformado numa mulher cheia de vida, alegre, tanto que se casou de novo e ainda hoje vive essa nova personalidade.

Ilmar imaginou, então, Frida, a mulher desejosa de uma outra vida livre, naquela Paris dos anos 30, diferente das outras mulheres estoniana da época, moralistas, religiosas e para as quais uma mulher de 50 anos, já era velha e não podia sair à noite e nem ter amantes.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



06/08/2012

STEVEN SODERBERGH E SEUS MARMANJOS NUS

O realizador americano Steven Soderbergh deve entender da coisa, pois em 1989 ganhou a Palma de Ouro de Cannes com Sexo, Mentiras e Videotape. Mas não ficou nisso, pois seus outros filmes tratam de temas diversos, e mesmo político, como o Che, que, ainda em Cannes, valeu o prêmio de melhor ator para Benício del Toro.

Desta vez, Sodergergh, um dos diretores mais ativos e produtivos, mostra um grupo de rapazes boas-pintas e belos corpos, excitando jovens curiosas e ardorosas ou mulheres mais maduras com falta de homem, em strip-teases masculinos numa casa de shows, o Xquisite. Uma versão inversa, mais criativa e movimentada que o Crazy Horse de Paris, endereçado aos homens.

Para dar corpo ao filme, Soderberger foi buscar o alto e corpulento ator Channing Tatum, para viver o Magic Mike que sem roupa só de string com protege sexo, é capaz de deixar úmida qualquer mulher. E para compor o elenco foi buscar outros espécimes na série policial sanguinolenta da tevê americana, Experts.

A idéia de homens fazendo strip-teases para mulheres não é nova e não se sabe se funciona na realidade, mas já foi usada com sucesso por ingleses, aqui mesmo no Festival de Locarno. Mas os americanos têm mania de fazer remake e, na contraditória sociedade que fica entre puritanismo e Playboy, deve ser garantia de um público feminino e gay.

O filme evidentemente tem um enredo que inclui um jovem de 19 anos, Adam, desempregado, cuja irmã não aprecia sua chance de ser incluído no grupo de Magic Mike, cujos dançarinos são especialistas nos remelexos com os quadris mimando o ato sexual. Enfim, Mike se cansa de suas fãs desavergonhadas e cai de amores pela reservada e contida irmã de Adam, que não é de tirar roupa e nem de frequentar strip-teases.


A SOBREVIVÊNCIA DOS FILHOS DOS NAZISTAS

As atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial em nome da ideologia nazista ainda impressionam as novas gerações de cineastas. Kate Shortland nasceu bem depois do término da Guerra e num país bem distante, a Austrália. Mas ficou impressionada com a leitura do livro da alemã Rachel Seiffert, The Dark Room, sobre a situação dos filhos dos dirigente nazistas, ao entrarem as tropas aliadas na Alemanha.

Lore, é o título do filme e o nome da adolescente, filha de um graduado militar alemão, que deverá ser preso e decide esconder sua esposa e cinco filhos numa casa em plena Floresta Negra. A situação se complica com a entrada dos americanos na região e a mãe das crianças decide se entregar sem saber das consequências, dando à filha mais velha a incumbência de aos 16 anos, cuidar dos quatro irmãos, um deles ainda bebê e fazer o caminho até a casa da avó, no norte da Alemanha, onde acha que estarão seguros. O trajeto será longo, 900 quilômetros. O caminho é penoso e perigoso na Alemanha devastada pela guerra.

Numa das pousadas precárias numa casa em ruínas, Lore vê um jovem, Thomas, também em busca de um abrigo, que mostra o desejo de ajudá-la e à pequena família, obrigada a dormir ao relento e geralmente com um mínimo para comer. Sem dúvida a bela e viçosa alemã atrai o rapaz e, por sua vez, Lore sente, passado o momento de desconfiança, que Thomas pode ser de grande valia.

Mas existe uma barreira – Thomas é um judeu foragido de uma campo de concentração à busca de uma proteção juntoa os Aliados. Para Lore, criada na ideologia nazista, essa barreira é quase intransponível, será preciso surgir um grave problema para Lore ultrapassar a carga cultural nazista e se aproximar de Thomas, sem o qual não teria chegado à casa da avó.

Histórias de amores entre judeus e alemães, logo depois do fim da Segunda Guerra, quando a dor ainda era profunda, existem. O autor de um dos primeiros livros sobre o Holocausto, escrito por um judeu sobrevivente, Steiner, que se refugiu na França, tinha se casado com a filha de um general nazista alemão.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



05/08/2012

DE RETORNO OS AUTORES DE LITTLE MISS SUNSHINE

Foi aqui em Locarno, na Piazza Grande, que começou a carreira de sucesso do filme em todo o mundo e no Brasil, de Little Miss Sunshine. Jonathan Dayton e Valerie Faris, os cenaristas e realizadores estão de volta com outro filme, destinado também ao sucesso.

Trata-se de "Ruby Sparks", nome da personagem do jovem escritor Calvin, que, de repente, sai praticamente de sua máquina de escrever para se transformar numa mulher real em carne e osso e pela qual ele se apaixona.

Inicialmente, Calvin mantém distância dessa jovem alegre, viva e inteligente, imaginando ser uma visão ilusória de sua excessiva imaginação. Porém, a dúvida se desfaz, quando seu irmão vindo lhe visitar encontra Ruby Sparks em sua casa. Os três almoçam, conversam e fica evidente ser real a namorada de Calvin.

Intrigado, Calvin explica, à parte, para seu irmão não saber como explicar aquela materialização de sua personagem. O irmão não fica convencido e pede uma prova para Calvin de que Ruby é personagem de romance e não uma jovem real. Calvin vai até a máquina de escrever e bate uma frase, segundo a qual a jovem Ruby fala francês. E imediatamente ouvem Ruby lhes chamando em francês.

Calvin exige de seu irmão não contar a ninguém essa incrível capacidade de manipular uma personagem com sua escritura, porém logo surgem alguns problemas. Calvin percebe estar manipulando Ruby e tenta lhe tornar uma personagem livre, porém isso lhe causa sofrimento, pois Ruby descobre outras amizades, quer estudar arte e nem sempre volta para dormir em casa. Até que, consciente de ser uma personagem irreal e manipulada Ruby se revolta e vai embora, enquanto Rubin se conscientiza da irrealidade vivida e troca de máquina mecânica para um computador.

O filme lembra outro recente, embora com história diferente, de Woody Allen, Meia Noite em Paris, no qual o escritor por um passe de mágina à meia-noite, vive com escritores e personagens de um romance em fase de escrita. Porém, Ruby Sparks é mais explícito – o escritor, como um Pigmalião, cria e controla a vida real da personagem, como os escritores fazem com suas personagens fictícias e não materializadas ou encarnadas.

Conjugando a escrita com a cena real, o filme pode parecer um bem sucedido exercício de estilo. Feito pelo casal diretor, o filme reúne um casal real de atores Paulo Dano e Zoe Kazan, por sinal a neta do grande cineasta Kazan. Antonio Banderas faz o personagem do irmão do escritor Calvin.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



04/08/2012

UM TROTE POR TELEFONE LEVA A UMA VIOLAÇÃO

O realizador Craig Zobel com seu filme Cumplicidade, baseado num fato real nos Estados Unidos, mostra como as pessoas, submetidas a uma pressão, são capazes de gestos e ações inesperadas e quase inexplicáveis.

A gerente de um pequeno fast-food recebe um telefonema do chefe do comissariado próximo e é informada que uma de suas empregadas roubou uma das clientes. O delegado pede para Sandra, a gerente, começar a tomar as primeiras providências, como interrogar a jovem Becky, enquanto ele providencia o envio de policiais.

Mantendo-se na linha, o delegado explica à gerente como deve fazer para o interrogatório. A empregada nega o roubo, mas aceita responder às perguntas, mesmo porque o delegado deixa claro ter autoridade sobre ela e sobre Sandra.

A situação vai pouco a pouco se tornando cada vez mais grave e patética, mesmo se não chegam os policiais, como despir a jovem para ver se ela não esconde o dinheiro no corpo, dar palmadas na bunda de castigo e o noivo de Sandra acaba tendo um relação sexual com a jovem, na sequências das exigências do delegado.

Craig conta ter havido nos EUA 70 casos parecidos de uma suposta autoridade telefonar para uma rede de fast-food, sob pretextos diversos e assim provocar arbitrariedades e humilhações nos empregados.

Na verdade não passa de um trote levado às extremas consequências, que levanta a questão de até onde as pessoas são capazes de ir mesmo em termos de tortura, a pretexto de obedecerem ordens. E por que a vítima submetida a diversos tipos de violência, como ser despida, espancada e mesmo violada, não se revolta?

Seria possível, na Europa, um trote por telefone degenerar ao extremo como no filme? Na França, um programa na rádio Europa1 consiste justamente em aplicar trotes com a diferença de que tratam de questões sem grande importância e que a cômica, Anna Romanof, se identifica ao final.

Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



03/08/2012

ENTREVISTA COM ALAIN DELON

Depois de receber o premio do Festival de Locarno por sua carreira, o ator Alain Delon deu entrevistas e fez declarações diversas: "Não sou um apaixonado pelo cinema de hoje, e acredito que não sou o único a dizer isso, tive a chance de ter vivido um outro cinema, dos anos 60 a 80, diferente do que se pratica hoje, um cinema que fazia sonhar."

  • Algum filme recente que gostaria de ter feito?
  • - Há um filme que vi recentemente que gostaria de ter feito o papel principal do filme Intocáveis (Intouchables.

  • De onde veio sua vontade de fazer cinema?
  • - Um dia, no escritório do que seria o diretor do meu primeiro filme, vi o filme de Sacha Guitry e ali senti que queria fazer cinema. Eu não entendia nada de cinema, tinha acabado de terminar o exército. E quando ouvi ele dizer que ser ator de cinema era a mais bela profissão do mundo, pelo que ela dá aos outros, me decidi - é isso que vou fazer, me disse a mim mesmo.

  • Embora tenha trabalhado em Asterix, nunca fez comédia, por quê?
  • - Porque não é meu estilo, não é meu jeito e nem meu gênero. O exemplo que dou sempre é o de um trem que entra na estação e numa janela está Belmondo e na outra Delon. Quando Belmondo passa todo mundo ri, quando Delon passa ninguem ri. Então, deixei a comédia para Belmondo. Mas é verdade, quando as pessoas vêem a cara de Belmondo não podem deixar de rir, mas comigo é o silêncio. Eu nunca tiver o senso da comédia. No filme Asterix, o diretor viu que não conseguia me fazer rir e me deu, então, o papel de Julio Cesar. Fazia tempo que eu não fazia um filme e aceitei.

  • Tem medo da velhice?
  • - Não, não tenho medo, tenho medo da doença. Em respeito ao público que me viu, me fez e que me amou e seguiu, durante todos esses anos, decidi que nunca me mostrarei enfraquecido, desfigurado. Se eu viesse assim aqui, vocês não gostariam e não seria digno. O dia que isso acontecer vocês não me verão mais. Não tenho medo da idade.

  • Como é o homem Delon politicamente?
  • - A coisa que notei na vida é que os únicos serem que não pegam aposentadoria são os políticos e os atores.
    Serei bem breve. Não sou apaixonado pela política, mas é verdade que era amigo do ex-presidente da França. Sempre fui um homem de direita e não sou um militante socialista.

  • Quais eram suas relações com Visconti?
  • - Primeiro devo dizer que não fiz filmes só com Visconti. Minhas relações com Visconti, no início, eram atenciosos, respeituosos e submissos porque Visconti era um mestre, mais um diretor de ópera que de cinema. Mas para se colocar as coisas no seu lugar, fiz um filme antes de Visconti, em 1959, Plein Soleil, de René Clement, e foi vendo esse filme que Visconti decidiu que eu seria Rocco. Para mim essa fase foi importante e fiz cinema na Itália com Antonioni e outros, essa fase foi muito mais imporante. E como eu era um jovem, foi só bem mais tarde que descobri minha chance e o privilégio que tive. E é também por isso que digo não se tratar do mesmo cinema de hoje.
    Ao contrário do que dizem, não sou o ator difícil com os grandes diretores, sou difícil com os imbecis. Com os grandes vou de olhos fechados, mas com aqueles que não sabem sequer onde colocar a câmera, sou terrível. Com esses diretores citados e com Melville, tudo tinha seu lugar marcado, fosse o chapéu, o laço, o cachecol, os sapatos, tudo estava previsto. Esses diretores, como Clement, tem tres qualidades essenciais ao diretor – primeiro dirigem como o ator deve ficar, sentado com as pernas cruzadas ou não, a seguir , diz o que o ator vai fazer, quando entra em cena. E por fim, vai atrás da câmera. A maioria dos atuais diretores têm só uma ou duas dessas qualidades nunca as três. Antes os realizadores também escreviam, agora raramente e o que fazem é mais pelo dinheiro.
    O diretor é como o chefe de orquestra. Naquela época poderia nomear facilmente dez, hoje teria dificuldade.

  • Tem uma preferência pela tragédia?
  • -É algo mais próximo de minha vida, como diria Pascal Jardin, são as lágrimas da minha infância, pois minha vida foi bastante trágica até o começo do cinema e depois foi transformada no cinema. Minha infância foi difícil, mas isso é da minha conta. Em seguida, entrei bem cedo para o exército, com 17 anos, e fui aos 18 para a Indochina. E de regresso fiz coisas totalmente diferentes e provavelmente não estaria vivo hoje. E de duma maneira miraculosa e rara, o cinema veio de buscar. E por quê? Pelo meu físico, basicamente, mas que não correspondia ao que eu pensava ou tinha no meu interior. Talvez por isso minha relação com a tragédia. Mas eu sou um caso raro, não fui ao cinema foi o cinema que veio me buscar.

  • Faz-lhe falta hoje o cinema?
  • - Não, porque nele tudo conheci e tudo vivi. Só pode faltar para quem não fez tudo com esses diretores com os quais trabalhei. Hoje, prefiro viver das minhas lembranças com eles do que fazer outra coisa.

  • Por que não fez cinema nos EUA?
  • - Sou apaixonado pelo cinema e diante da câmera não há diferença. Fiz dois filmes nos EUA e me disseram para eu ficar lá, que me tornara um grande star. Mas eu não queria ficar nos EUA e não gostava de viver lá, embora gostasse do cinema americano. A França e Paris me faziam uma falta enorme e eu lhes disse, quando quiserem fazer algum filme comigo me chamem. E retornei a França e fiz minha carreira na Itália e depois na França. Meu filho Anthony nasceu nos EUA.

  • Como foi trabalhar com Burt Lancaster?
  • - Foi como trabalhar com Jean Gabin, dois mestres. Lancaster era um dos meus ídolos. Outro grande foi John Garfield. Certa vez disse a Marlon Brando que gostaria de fazer um filme com ele, nem que fosse para ser numa cena de camareiro. Mas não tivemos a chance de fazer isso.

    Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



    02/08/2012

    FILME POLICIAL THE SWEENEY ABRE O FESTIVAL DE LOCARNO

    Inspirado na série inglesa Reagan de televisão, de 1975-78, o filme de abertura do Festival de Cinema de Locarno, The Sweeney é um policial dirigido por Nick Love, com todos os ingredientes destinados a agradar o grande público – violência, efeitos especiais, corridade carros, tiros em profusão e muita gente morrendo.

    O resumo cabe em duas linhas – dois membros da Polícia Metropolitana, o inspetor Jack Reagan e o sargento George Carter lutam contra o crime em Londres. Felizmente, o Festival de Locarno paga férias para os habitantes da Piazza Grande porque ao anoitecer desta quarta-feira, por volta das 21h30, logo após a cerimônia inicial de abertura do Festival, com a presença do diretor Olivier Père e do realizador Nick Love acompanhado do ator Ray Winstone, os decibéis cada vez mais altos inundarão a praça e seus oito mil espectadores.

    Antes do filme, o Festival de Locarno entregará um Premio de Excelência à atriz Charlotte Rampling. Já receberam premio equivalente Chiara Mastroianni, Susan Sarandon, Michel Piccoli e Isabelle Hupert, entre outros.

    Nick Love, ao que parece, não é amado pela crítica. Seu filme Fora da Lei, Outlaw,foi considerado pela crítica francesa como de uma brutalidade digna da extrema-direita, com seu convite indireto para se fazer justiça por suas próprias mãos, mostrando uma cidade de Londres violenta,que não existe na realidade. The Sweeney, será diferente?

    Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



    01/08/2012

    ENTREVISTA COM DIRETOR DO FESTIVAL DE LOCARNO

    O Brasil não está na competição internacional do Festival de Locarno, porém a participação latinoamericana é importante. Um filme guatemalteco, Polvo, de Júlio Hernandez Cordón, e um filme mexicano Los Mejores Temas, de Nicolás Pereda, competem entre os 19 selecionados.

    O Brasil está concorrendo na mostra de novos diretores, Cineastas do Presente, com o filme de Daniel Aragão, Boa Sorte, MeuAmor, junto com o filme do mexicano Pedro González Rubio, Inori, feito e produzido no Japão.

    O diretor do Festival Internacional de Cinema de Locarno, Oliver Père, fala da participação brasileira e latinoamericana, em entrevista exclusiva.

  • Qual a participação brasileira neste Festival de Locarno?
  • - Este ano temos um filme brasileiro que descobrimos e que gosto muito. Está na mostra Cineastas do Presente, é Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão. Existem diversos cineastas brasileiros da nova geração que muito nos interessam, tanto que no júri há a presença do diretor Kleber Mendonça Filho, que conheci há alguns anos, pois mostrei seu primeiro curta-metragem, quando eu dirigia a Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes. Kleber fez um longa-metragem que não está aqui em Locarno mas que gostei muito e, por isso, o convidei para o júri de curta-metragens. As coisas que se passam hoje no Recife ou no Rio são muito interessantes para nós.

  • Vemos que o cinemaportuguês está competição internacional...
  • - E trata-se de um bom filme, com um cineasta que muito aprecio, JoãoPedro Rodrigues que dirigiu com João Rui Guerra da Mata, A Última Vez que Vi Macau. Um filme impressionante, mesmo em relação ao filme precedente de João Pedro, pois mistura o fantástico, o inquérito policial, o diário íntimo e o documentário. Estamos felizes por poder mostrá-lo em estréia mundial aqui em Locarno.
    Além disso, existem curtas-metragens portugueses, um do próprio João Rui, outro de João Nicolau. A cada ano o cinema português tem coisas bonitas e importantes para mostrar entre os filmes do cinema europeu.

  • E quanto à participação do cinema latinoamericano?
  • - Há um filme da Guatemala, Polvo, o que é coisa rara e o filme de Nicolás Pereda, Los Mejores Temas, que é muito bom. Não é nenhum segredo que os amantes do cinema sonham com os filmes latinoamericanos e estamos contentes de poder ter aqui conosco alguns deles. Do México, temos um filme feito no Japão, por um dos meus cineastas preferidos Pedro González-Rubio. Uma mistura de países e de cultura próprios do Festival de Locarno.

  • Como viu, no ano passado, a declaração do produtor português Paulo Branco, presidente do Júri, chamando um filme de fascista?
  • - Bom, uma atitude dessas seria de se esperar de um homem como Paulo Branco, pois nele há muito de entusiasmo e de veemência. Evidentemente, cada pessoa tem o direito de se exprimir e Paulo foi suficientemente grande para explicar essa sua posição e continuar sua polêmica nos jornais. Isso não causou nenhum prejuízo ao filme de Melgar, Vôo Especial, que conheceu uma brilhante carreira internacional e ganhou premios em todo o mundo.
    Não interferi nesse caso, porque os membros do júri são livres de se exprimir e mesmo de usar palavras violentas. A seguir, o cineasta Melgar e a equipe do filme apresentaram argumentos, que penso justos. Quanto a mim, acho que o fato do filme estar na competição, era seu lugar certo. A controvérsia, a polêmica e a crítica fazem parte do jogo num Festival.

  • Como pode definir o formato do Festival de Locarno?
  • - Nos anos precedentes e no passado principalmente, chegamos a uma forma e a um estilo de Festival bastante satisfatórios, tanto que este ano decidimos manter o formato, é só o conteúdo que varia.
    Este ano, por exemplo, há mais filmes americanos que franceses, mais filmes suíço-alemães que suíço-franceses, tudo depende dos filmes que nos são mostrados. A seguir, procuramos encontrar um equilíbrio entre filmes de autor, filmes de descoberta, de cineastas confirmados e a presença de stars atores e realizadores. Com a preocupação de incorporar surpresas, prazer e emoção aos espectadores.

  • Foi difícil encontrar bons filmes para Locarno?
  • - Não,a seleção deste ano é muito boa e temos cerca de 40 filmes em estréia mundial, o que mostra ser Locarno onde se pode descobrir, em primeira mão, filmes do mundo inteiro. Locarno pode ser o ponto de partida bastante favorável para a carreira de um filme.
    Ainda este ano, existem filmes mostrados em Locarno que continuam viajando pelo mundo e recebendo premios. Esperamos que os filmes deste ano também façam carreira, temos nossos prognósticos, os filmes nos quais acreditamos, porém pode acontecer serem outros, vamos ver.
    Na Piazza Grande, estamos curiosos por ver a reação do público diante de certos filmes. No ano passado, a surpresa foi o grande sucesso público do filme canadense Monsieur Lazhar.

    Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.



    31/08/2012

    FESTIVAL DE LOCARNO COMEÇA NA QUARTA-FEIRA

    Alain Delon, Charlotte Rampling, Ornella Mutti, Harry Belafonte estarão no Festival de Locarno, onde haverá filme português mas não brasileiro na competição internacional. Oito mil cadeiras já foram colocadas no amplo espaço da Piazza Grande, limitada por suas construções de estilo lombardo, para os espectadores noturnos do 65. Festival Internacional de Cinema de Locarno. Diante delas, já foi instalado o telão com cerca de 300 metros quadrados, onde serão projetados 17 filmes, a quase totalidade estréias mundiais ou européias de filmes de diversas nacionalidades.

    No estrado erguido junto ao telão, receberão prêmio e encontrarão o público, astros como Alain Delon, Charlotte Rampling, Ornela Mutti e o inesquecível Harry Belafonte, alvo de um filme souvenir Sing Your Song, de Susanne Rostock, e premiado pelo conjunto de sua carreira.

    O Brasil, assim como aconteceu no Festival de Berlim, não participa da principal competição internacional. É Portugal quem compete com a estréia mundial de A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata.

    O mesmo João Rui participa da mostra de curtas e médias metragens, denominada Pardo do Amanhã, concorrendo com O Que Arde Cura. Nessa mesma mostra, concorre o cineasta português Gabriel Abrantes com o curta ZwazoOutro curta-metragem português, mas fora da competição é O Dom das Lágrimas, de João Nicolau.

    A presença brasileira está na competição paralela, Cineastas do Presente, com o filme de Daniel Aragão, Boa Sorte, Meu Amor. Nela só concorrem cineastas de primeiro ou segundo filme, vindos principalmente de países pobres e emergentes. Fora da competição, há um curta-metragem brasileiro de Gregório Graziosi, Monumento.

    Na mostra Curtas de Autores, fora de competição, estão o filme do brasileiro Guto Parente Dizem Que os Cães Vêem Coisas; e outro curta-metragem português, O Dom das Lágrimas, de João Nicolau.

    Da Competição Internacional participam 19 filmes de diversos países, dois da América Latina, Los Mejores Temas, de Nicolás Pereda, uma coprodução mexicana-canadense-holandesa; e Polvo, de Julio Hernandes Cordón, uma coprodução que reúne quatro países – Guatemala, Espanha, Chile e Alemanha.

    O cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, autor do filme O Som ao Redor, participa do júri dos curtas e médias Pardo do Amanhã.

    Dois cineastas brasileiros Juliana Rojas e Marco Dutra, que frequentaram a Residência da Cinefundação do Festival de Cannes, apresentarão aos produtores e compradores presentes o seu projeto de filme Boas Maneiras.

    Rui Martins, em Locarno, convidado pelo Festival.