As mulheres de Gustav Klimt  

Rosângela Scheithauer   

  
Você não precisa ser feminista para achar que há sempre um ar sensual no olhar de um pintor. Por muitos séculos, pintores de várias nacionalidades consagraram a beleza da mulher em suas telas. Entretanto, no final do último século a sensualidade feminina tornou-se tema principal pela primeira vez na história da arte. As mulheres começavam a fazer-se ouvidas na vida pública enquanto que suas fantasias particulares eram detalhadamente examinadas. Em nenhuma outra parte do mundo esta tensão foi mais aparente do que em Viena, então o coração de um império em fase de desmoronamento, residência de uma próspera burguesia e berço do famoso trabalho de Freud "A interpretação dos sonhos", publicado naquela cidade em 1900. Um século depois a exposição Klimt e Mulheres mostrada na Galeria do Palácio de Belvedere traz novas luzes desta complexa sociedade.

Gustav Klimt (1862-1918) foi um excêntrico em seu tempo, muitas vezes chocando a sociedade com seus desenhos de modelos em poses eróticas e inclinadas à pornografia. Sabe-se que Klimt gerou quatro crianças ilegítimas com mulheres da classe urbana que ele mantinha bem distantes da respeitável posição de solteiro vivendo com a mãe e as irmãs. Suas "mulheres fatais" como Eve ou Judith chegam a dar uma impressão de medo ao sexo oposto. Entretanto, seu forte relacionamento com sua cunhada, Emilie Flöge, conta uma outra estória. Ela possuía uma das mais renomadas casas de alta costura da época especializada em vestidos até então nunca vistos – largos, soltos permitindo que as mulheres pudessem respirar livremente sem os tradicionais espartilhos. Klimt passava todos os verões na casa de Emilie em Attersee, um lago ao oeste da Áustria. Analisando algumas das fotos tiradas naquela época é possível observar que os dois se divertiam muito juntos e no seu portrait de 1902 ele acentua a sua beleza e elegância, seu olhar firme, uma mão na cintura e um vestido em tons de azul marinho, turqueza, lilás e ouro. Era enorme o seu interesse por vestidos, materiais têxteis, bem como por fotografia de moda. Para ele esses temas eram mais que naturais, uma vez que ele era o líder da Secession, uma associação criada em 1897 para se desligar da tradicional associação de artistas vienenses. Seu talento era tão grande que logo foi contratado para trabalhar na decoração de instituições imperiais da nova Ringstrasse (rua principal que circunda o centro) de Viena. Para este trabalho ele fez inúmeras pesquisas sobre a arte egípcia, grega clássica, romana, bizantina e japonesa. Todas essas fontes juntadas ao seu estímulo de criar uma nova arte ajudaram-no a formar seu estilo forte e maduro.

Na maioria de seus portraits Klimt frisa a necessidade das mulheres em querer mostrar a riqueza e status de seus maridos. É curioso observar a enorme diferença entre Klimt e os portraits de Boldini ou Sargent pintados na mesma época para mulheres da mesma classe social, predominante as ricas clientes judias.

De todos os seus trabalhos, provavelmente o mais suntuoso é o portrait da esposa de um banqueiro, Adele Bloch-Bauer, todo decorado com espirais em ouro, pingos de lapislazuli e prata dando a impressão de madrepérolas. Talvez esse desejo de pintar com materiais preciosos tenha sido uma reação à pobreza da sua infância: seu pai trabalhou a vida inteira, sem sucesso, com gravuras a ouro.

Ao escolher um artista como Klimt para pintá-las, essas mulheres proclamavam seu intelectual e até sua emancipação social. Elas eram assíduas freqüentadoras de exposições de arte no novo prédio da Secession, desenhado por Joseph Maria Olbrich na forma de um templo grego com uma cúpula adornada por folhas de ouro. A exposição mais espetacular da Secession aconteceu em 1902 quando um monumento dedicado a Beethoven por Max Klinger foi exposto em um santuário pintado por Klimt na forma de uma faixa mural intencionada a criar uma analogia à Nona Sinfonia.

Somente em Viena é possível capturar a magia do mundo de Klimt na sua totalidade. Belíssimos trabalhos retratando suas primeiras figuras alegóricas de culturas ancientes podem ser vistas na entrada principal ao lado das escadas do Museu de História da Arte. A atual exposição no Palácio de Belvedere é um "must" aos admiradores de arte, principalmente por terem a chance de ver também a obra prima do mestre, "O Beijo", que foi comprada pelo país já nos anos de 1908.

Com todas essas evidências, quem poderá duvidar que Klimt foi simplesmente um grande amante das mulheres?

Rosângela Scheithauer é escritora e artista plástica
riototal@riototal.com.br