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O dia 8 de MARÇO
é dedicado à comemoração do DIA INTERNACIONAL DA MULHER. Em nossos
dias tornou-se uma data um tanto festiva, com flores e bombons para uns.
Para outras é relembrada sua origem marcada por fortes movimentos de
reivindicação política, trabalhista, greves, passeatas e muita
perseguição policial. É uma data que simboliza a busca de igualdade
social entre homens e mulheres, em que as diferenças biológicas sejam
respeitadas mas não sirvam de pretexto para subordinar e inferiorizar a
mulher.
As
mulheres faziam parte das "classes perigosas".
No século XIX e no início do XX, nos países que se industrializavam, o
trabalho fabril era realizado por homens, mulheres e crianças, em
jornadas de 12, 14 horas, em semanas de seis dias inteiros e freqüentemente
incluindo as manhãs de domingo, salários de fome e terríveis condições
nos locais da produção. Os proprietários tratavam as reivindicações
dos trabalhadores como uma afronta, operárias e operários considerados
como as "classes perigosas". Sucediam-se as manifestações de
trabalhadores, por melhores salários, pela redução das jornadas e
pela proibição do trabalho infantil. A cada conquista, o movimento
operário iniciava outra fase de reivindicações mas, em nenhum
momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que
homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas. As
trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava da
igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas
das mulheres afetariam a "luta geral", prejudicariam o salário
dos homens e, afinal, as mulheres apenas "completavam" o salário
masculino.
Subjacente aos grandes movimentos sindicais e políticos emergiam
outros, construtores de uma nova consciência do papel da mulher como
trabalhadora e cidadã. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Clara Lemlich,
Emma Goldman, Simone Weil, e outras militantes dedicaram suas vidas ao
que posteriormente se tornou o movimento feminista.
Clara
Zetkin e o Dia Internacional da Mulher
Clara Zetkin (1857- 1933), alemã, membro do Partido Comunista Alemão,
militava junto ao movimento operário e se dedicava à conscientização
feminina. Fundou e dirigiu a revista "Igualdade" que durou 16
anos (1891 -1907). Foi Deputada pelo Partido Comunista em 1920.
Líderes do movimento comunista como Clara Zetkin e Alexandra Kollontai
ou anarquistas como Emma Goldman lutavam pelos direitos das mulheres
trabalhadoras mas o direito ao voto as dividia: Emma Goldman afirmava
que o direito ao voto não alteraria a condição feminina se a mulher não
modificasse sua própria consciência.
Ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em
Copenhagem, em 1910, Clara Zetkin propôs a criação de um Dia
Internacional da Mulher sem definir uma data precisa. Contudo vê-se
erroneamente afirmado no Brasil e em alguns países da América Latina
que Clara teria proposto o 8 De MARÇO para lembrar operárias mortas
num incêndio em Nova Iorque em 1857. Os dados a seguir não confirmam
aquela afirmação, ao contrário, demonstram que os fatos se passaram
diferentemente.
O
movimento operário nos Estados Unidos
Assim como na Europa, era intenso o movimento trabalhador nos Estados
Unidos desde a segunda metade do sec. XIX, sobretudo nos setores da
produção mineira, ferroviária e no de tecelagem e vestuário.
A emergente economia industrial norte-americana muito instável era
marcada por crises. Em 1903 formou-se, pela ação de sufragistas e de
profissionais liberais, a "Women's Trade Union League" para
organizar trabalhadoras assalariadas. As crises industriais de 1907 e
1909 reduziam o salário dos trabalhadores e a oferta de mão de obra
era imensa dada a numerosa imigração proveniente da Europa. Grande
parte destes operários e operárias eram imigrantes judeus, muitos
tendo um passado de militância política.
No último domingo de Fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos
Estados Unidos, fizeram uma manifestação a que chamaram Dia da Mulher, reivindicando o direito ao voto e melhores condições de trabalho. No
ano seguinte, em Mannhatam, o Dia da Mulher reuniu 2.000 pessoas.
Problemas muito conhecidos do operariado latino-americano impeliam
trabalhadores e trabalhadoras a aderir às manifestações públicas por
salários e pela redução do horário de trabalho. Embora o setor
industrial tivesse algumas grandes empresas, predominavam as pequenas, o
que dificultava a agregação e unicidade das reivindicações. O
movimento por uma organização sindical era intenso e liderado no setor
de confecções e vestuário por trabalhadores judeus com experiência
política sindical, especialmente do BUND.
Para desmobilizar o apelo das organizações e controlar a permanência
dos trabalhadores/as, muitas fábricas trancavam as portas dos
estabelecimentos durante o expediente, cobriam os relógios e
controlavam a ida aos banheiros. Mas as difíceis condições de vida e
os baixíssimos salários eram forte incentivo para a presença de operários
e operarias nas manifestações em locais fechados ou na rua.
Uma das fábricas, a "Triangle Shirtwaist Company" (Companhia
de blusas Triângulo) para se contrapor à organização da categoria
criou um sindicato interno para seus trabalhadores/as. Em outra fábrica
algumas trabalhadoras que reclamavam contra as condições de trabalho e
salário foram despedidas e pediram apoio ao United Hebrew Trade,
Associação de Trabalhadores Hebreus. As trabalhadoras da "Triangle"
quiseram retirar alguns recursos do sindicato interno para ajudar as
companheiras mas não o conseguiram. Fizeram piquetes na porta da
Triangle que contratou prostitutas para se misturarem às manifestantes,
pensando assim dissuadi-las de seus propósitos. Ao contrário, o
movimento se fortaleceu.
Uma greve geral começou a ser considerada pelo Presidente do Sindicato
dos Trabalhadores Hebreus, Bernardo Weinstein, sempre com o objetivo de
melhorar as condições de trabalho da industria de roupas. A idéia se
espalhou e, em 22 de novembro de 1909, organizou-se uma grande reunião
na Associação dos Tanoeiros liderada por Benjamin Feigenbaum e pelo
Forward. A situação era extremamente tensa e, durante a reunião,
subitamente uma adolescente, baixa, magra, se levantou e pediu a
palavra: "Estou cansada de ouvir oradores falarem em termos gerais.
Estamos aqui para decidir se entramos em greve ou não. Proponho que
seja declarada uma greve geral agora!" . A platéia apoiou de pé a
moção dar jovem Clara Lemlich.
No movimento trabalhador as relações étnicas tinham peso fundamental
razão pela qual, para garantir um compromisso com a greve, Feigenboin,
o Presidente da Associação, usou um argumento de extraordinária
importância religiosa para os judeus. Ele perguntou à assembléia:
"Vocês se comprometerão com o velho mandamento judaico? Uma
centena de mãos se ergueram e gritaram: "Se eu esquecer de vós, O
Jerusalém, que eu perca minha mão direita". Era um juramento de
que não furariam a greve.
Cerca de 15 000 trabalhadores do vestuário, a maioria moças, entraram
em greve. Fecharam-se mais de 500 fábricas. As jovens operárias
italianas aderiram, houve prisões, tentativas de contratar novas
trabalhadoras. O clima tornou-se muito tenso.
A direção da greve ficou com a Associação dos Trabalhadores Hebreus
e com o Sindicato Internacional de Trabalhadores na confecção de
roupas de senhoras ( ILGWU) . 'À medida que as grandes empresas cederam
algumas reivindicações, a greve foi se esvaziando e se encerrou em 15
de fevereiro de 1910 depois de 13 semanas.
O
INCENDIO
Pouco tinha sido alterado sobretudo nas fábricas de porte médio e nas
pequenas e os movimentos reivindicatórios retornaram. A reação dos
proprietários repetia-se: portas fechadas durante o expediente, relógios
cobertos, controle total, baixíssimos salários, longas jornadas de
trabalho.
O DIA 25 DE MARÇO DE 1911 era sábado e todos trabalhavam. Às 5 horas
da tarde irrompeu um grande incêndio na Triangle Shirtwaist Company.
A Triangle se localizava na esquina da Rua Greene com a Washington Place;
ocupava os três últimos andares de um prédio de 10 andares. O chão e
as divisórias eram de madeira, com uma grande quantidade de tecidos e
retalhos, e a instalação elétrica era precária. Tudo contribuía
para que o incêndio se propagasse rapidamente. Algumas portas da fábrica
estavam fechadas.
A Triangle empregava 600 trabalhadores e trabalhadoras, a maioria
mulheres imigrantes judias e italianas, jovens de 13 a 23 anos. Fugindo
do fogo parte das trabalhadoras conseguiu alcançar as escadas e desceu
para a rua ou subiu para o telhado. Outras, desceram pelo elevador. Mas
a fumaça e o fogo se expandiu e trabalhadores/as pularam pelas janelas
para a morte. Outras morreram nas próprias máquinas. O Forward
publicou terríveis depoimentos de testemunhas e muitas fotos.
Morreram 146 pessoas, 125 mulheres e 21 homens, na maioria judeus.
A comoção foi imensa. No dia 5 de abril houve um grande funeral
coletivo que se transformou numa demonstração trabalhadora. Apesar da
chuva cerca de 100.000 pessoas acompanharam o enterro pelas ruas do
Lower East Side. No "Cooper Union" falou Morris Hillquit e no
Metropolitan Opera House, o rabino Reformista Stephen Wise.
A tragédia teve conseqüências para as condições de segurança no
trabalho e sobretudo serviu para fortalecer o International Ladies'
Garment Workers' Union (ILGWU).
Para autores como Sanders todo o processo, desde a greve de 1909, mais o
drama do incêndio da Triangle, acabou fortalecendo o reconhecimento dos
sindicatos. O ILGWU , de conotação socialista, se tornou o maior e
mais forte dos Estados Unidos naquele momento.
O ILGWU era um dos braços mais "radicais" do AFL (American
Federation of Labour) .
Atualmente no local do incêndio está construída uma parte da
Universidade de New York onde há uma placa com a seguinte inscrição:
"Neste lugar, em 25 de março de 1911, 146 trabalhadores perderam
suas vidas no incêndio da Companhia de Blusas Triangle. Deste martírio
resultaram novos conceitos de responsabilidade social e legislação do
trabalho que ajudaram a tornar as condições de trabalho as melhores do
mundo". ILGWU .
Quase todos os anos mulheres trabalhadoras se manifestaram em várias
partes do mundo: New York, Berlim, Viena (1911); São Petersburgo
(1913). Em 1915 Alexandra Kollontai organizou uma reunião em Cristiana,
perto de Oslo, contra a guerra. Neste mesmo ano Clara Zetkin faz uma
Conferencia sobre a Mulher. As datas variavam. Mas é fundamental
lembrar que em 8 DE MARÇO de 1917 ( 23 de fevereiro no Calendário
Juliano) trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve e
pediram apoio aos metalúrgicos. Para Trotski esta teria sido uma greve
espontânea, não organizada e que teria dado inicio à Revolução que
culminou em outubro de 1917.
Embora não se conheça com precisão porque o 8 DE MARÇO foi o
escolhido, o fato é que ele se consagrou ao longo do século XX.
Certamente isto ocorreu algumas décadas depois dos fatos mencionados
mesmo porque as reivindicações das mulheres e dos jovens iam além das
questões trabalhistas e das formas de poder político. Nem sempre a
liderança comunista entendia estas necessidades como foi o caso de
Lenin e de muitos outros.
Lenin
e o Direito das Mulheres
Em seu "Diário" Clara Zetkin relata o que ouvira do camarada
e amigo Lenin, ao visitá-lo no Kremlin, em 1920. Lenin lamentava não
tivesse sido implantado o Dia Internacional da Mulher que ela propusera
em Copenhagem. Mas, ele mesmo "explicava": o importante era
criar um movimento de "massa", internacionalizar os propósitos
da Revolução de 17, agitar mulheres e jovens. Para alcançar este
objetivo era necessário discutir exclusivamente os problemas políticos
e não perder tempo com aquelas discussões que os jovens trabalhadores
traziam para os grupos políticos, como casamento, sexo. Lenin criticava
também Rosa Luxemburgo que procurava abordar a questão das
prostitutas: "Será que Rosa Luxemburgo não encontrava
trabalhadores para discutir, era necessário buscar as
prostitutas?".
Esta visão de Lenin fez escola por longo tempo na esquerda. Temas
relativos ao corpo, à sexualidade, à reprodução humana, relação
afetiva entre homens e mulheres, aborto, não eram considerados temas
políticos até os anos 60. A experiência do "amor livre" nos
primeiros anos pós-Revolução trouxe enormes conflitos que levaram à
restauração do sistema de familia regulamentado pelo contrato civil.
O
8 De MARÇO no Brasil
Embora no Brasil tenhamos visto repetidas vezes a associação entre o 8
DE MARÇO e o incêndio na Triangle, há ai uma confusão histórica.
Clara Zetkin propôs o Dia Internacional da Mulher no Congresso de
Mulheres Socialistas em Copenhagem em 1910, um ano antes do incêndio.
É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha
se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o
processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha
sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias, há algum
tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin em 1910.
Nas primeiras décadas do século XX, no caso brasileiro, a comemoração
do Dia Internacional da Mulher foi suplantada pela reivindicação do
direito ao voto. Berta Lutz, a grande líder sufragista brasileira,
aglutinou um grupo de mulheres da burguesia para divulgar a demanda.
Ousadas, espalharam de avião, panfletos sobre o Rio de Janeiro, pedindo
o voto feminino, no início dos anos 20! Pressionaram Deputados Federais
e Senadores e se dirigiram ao Presidente Getúlio Vargas. O direito ao
voto feminino foi concedido em 1933 por ele e garantido na Constituição
de 1934 . Mas só veio a ser posto em prática com a queda da ditadura
getulista. As mulheres votaram pela 1ª vez em 1945.
Concomitantemente, as mulheres operárias e as crianças que constituíam
72,74% do setor têxtil, em 1901, denunciavam que ganhavam muito menos
do que o homem e faziam a mesma tarefa, trabalhavam de 12 a 14 horas na
fábrica e muitas ainda trabalhavam como costureiras, em casa. Como
mostra Rago a jornada era de umas 18 horas e as operárias eram
consideradas incapazes física e intelectualmente. Por medo de serem
despedidas submetiam-se à exploração sexual.
Os jornais operários, especialmente os anarquistas, reproduziam suas
reclamações contra a falta de higiene nas fábricas, o assédio
sexual, as péssimas condições de trabalho, a falta de pagamento de
horas extras, um sem número de abusos. Para os militantes operários a
fábrica era um local onde as mulheres facilmente se prostituiriam, daí
reivindicarem a volta das mulheres para a casa. Patrões, chefes e
empregados partilhavam dos mesmos valores: olhavam as trabalhadoras como
prostitutas.
Entre as militantes das classes mais altas a desqualificação do
operariado feminino não era muito diferente: partilhavam a imagem
generalizada de que operárias eram mulheres ignorantes e
"incapazes de produzir alguma forma de manifestação
cultural". A distância entre as duas camadas sociais impedia que
as militantes burguesas conhecessem a produção cultural de
anarquistas, como Isabel Cerruti e Matilde Magrassi, ou o teatro
representado por Maria Valverde, em teatros populares como o Arthur
Azevedo.
Como as anarquistas americanas e européias, também as brasileiras
(imigrantes ou não) defendiam a luta de classes mas também o divórcio
e o amor livre como escrevia "A voz do trabalhador" de 1° de
fevereiro de 1915:"Num mundo em que mulheres e homens desfrutassem
de condições de igualdade... Vivem juntos porque se querem, se estimam
no mais puro belo e desinteressado sentimento de amor".
A distinção entre anarquistas e comunistas foi fatal para uma eventual
aliança: enquanto as comunistas lutavam pela implantação da
"ditadura do proletariado", as anarquistas acreditavam que o
sistema partidário reproduziria as relações de poder, social e
sexualmente hierarquizadas.
No Partido Comunista a diferenciação de gênero continuava marcante.
As mulheres se encarregavam das tarefas "femininas" na vida
quotidiana do Partido. Extremamente ativas desenvolveram ações
externas de organização sem ocupar qualquer cargo importante na
hierarquia partidária. Atuavam, por exemplo, junto a crianças das
favelas ou dos cortiços, organizavam colônias de férias supondo que
poderiam ensinar às crianças novos valores.
Zuleika Alembert, a primeira mulher a fazer parte da alta hierarquia do
PC, eleita deputada estadual por São Paulo em 1945, foi expulsa do
Partido quando fez criticas feministas denunciando a sujeição da
mulher em seu próprio partido.
O feminismo dos anos 60 e 70 veio abalar a hierarquia de gênero dentro
da esquerda. A luta das mulheres contra a ditadura de 1964 uniu,
provisoriamente, feministas e as que se auto-denominavam membros do
"movimento de mulheres". A uni-las, contra os militares, havia
uma data: o 8 DE MARÇO. A comemoração ocorria através de denúncias
sobre prisões arbitrárias, desaparecimentos políticos, pelo retorno
da democracia.
A consagração do direito de manifestação pública veio através do
apoio internacional - a ONU instituiu em 1975, o 8 de Março como o Dia
Internacional da Mulher.
Entrou-se numa nova etapa do feminismo. Mas velhos preconceitos
permaneceram nas entrelinhas. Um deles talvez seja a confusa história
propalada do 8 DE MARÇO, em que um anti-americanismo apagava a luta de
tantas mulheres obscurecendo até mesmo suas origens étnicas.
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