Flores, bombons e reflexão  

Marciano Vasques  


Mulheres abastadas, proibidas de terem acesso ao curso superior, liam folhetins com histórias de amor. Carolinas e Augustos viviam emocionantes dramas que levavam às lágrimas jovens senhoras. Depois, o grupo de leitores foi ampliado e muitas mulheres liam as fotonovelas em revistas com títulos inesquecíveis, como Capricho, Grande Hotel, Sétimo Céu, Noturno e outros. Atualmente, vêem novelas. Há aquele detalhe importante, que é o quase, e por isso pode-se dizer que quase todas assistem.
Apenas um entre os fragmentos da história das mulheres em nosso país.

Hoje, elas, em direitos conquistados, estão em todas as partes, inclusive na política, na Literatura, no teatro e no cinema: uma atividade exclusivamente masculina, no passado- basta lembrar da Lua representada por um homem.

Mulher não podia fumar em público, nem tomar cafezinho. Tudo mudou, entramos no XXI com a presença forte da mulher, e com elas tudo fica mais colorido.

Alvo preferido do mercado, as indústrias investem pesado nesse cliente potencial, lançando enxurrada de produtos para a beleza, a saúde e o lazer, uma parte útil, outra para satisfazer a vaidade, parte integrante dessa metade fundamental da humanidade.

Mulher não é só vaidade (Não pode ser a horrorosa Amélia - a sem vaidade, que “às vezes achava bonito não ter o que comer”), e não é também apenas a vulgarização imposta pelo mercado cultural, a imagem da mulher objeto, subserviente, pronta para atender aos desejos e às vontades do homem. Ela é, além da imagem projetada pelas mulheres alienadas do mercado musical, a responsável (e bota responsabilidade!) pela condução da sobrevivência e continuidade da espécie, e também o fator de equilíbrio das relações afetivas solicitadas pela razão amorosa.

Sentimentos ditos femininos através dos tempos, -quem condicionou à mulher, os sentimentos essenciais para a sobrevivência afetiva dos seres humanos, transferindo para o patriarcal os valores guerreiros, inflexíveis e secamente racionais?- hoje estão mais acessíveis, mais próximos da condição do homem, e isso é resultado das conquistas e do avanço feminino no mundo, pois como faz parte da condição feminina o atributo da divisão, esses sentimentos poéticos com regalias foram espalhados, estando à disposição de todos os que se esforçarem para alcançá-los.

Isso não significa que uma mulher no poder (no governo) não possa decepcionar (principalmente quando utilizar o autoritarismo –imitando ou absorvendo uma característica de governos tirânicos masculinos). Entretanto, é visível a possibilidade do aperfeiçoamento humano com a mulher junto.

Ela tem o dom da reorganização das coisas, e uma visão direcionada para a limpeza do mundo. Como dá à luz, tem naturalmente uma predileção pela luz.

Evidente que durante pelo menos dois mil anos foram vitimadas pelo obscurantismo intelectual imposto pelo império patriarcal que dominou o mundo, e apenas em nosso tempo apresenta fendas em seu edifício, frestas pelas quais o mundo vai sendo presenteado com a oportunidade histórica de melhorar.

Nada impede nem é prejudicial que o dia 8 de março seja um dia de flores e bombons, mas é também (e principalmente) um dia de reflexão sobre a luta histórica da mulher para ocupar o seu verdadeiro lugar no mundo, que é o espaço ao lado do homem na construção de sociedades humanizadas.

Também não custa lembrar que apesar de todas as conquistas e das mulheres estarem cada vez mais independentes, há ainda muita exploração e muito sofrimento nos agrestes da vida contemporânea, além de serem ainda vítimas de sistemas religiosos injustos, cujos dogmas ferrenhos em nossos dias sobrevivem.

No Brasil, a exploração do seu corpo, e a sua submissão intelectual , encontram um forte aliado nas próprias mulheres, como algumas cantoras de conjuntos musicais que atuam na mídia.

De qualquer modo, o importante no momento é vislumbrar as conquistas e vitórias, e poder lembrar neste Dia Internacional da Mulher, que há outros modelos femininos, além dos impostos pela indústria da cultura e do divertimento.

 

Marciano vasques é escritor e poeta.