Ladainha das Malditas  

Maria de Fátima B. Michels   



 

 

 

 

 

 

 

Texto e Fotografia -
Fátima de Laguna
Ensaio Bocas
Modelo: Regininha Carvalho – Florianópolis

 

Maldita és tu, mulher que escreves
quando descobres
no que encontras, onde garimpas
nas íngremes montanhas do espírito,
e então descreves teus sentimentos
Maldita és tu
que rogas por todas nós quando escreves
e priorizas as coisas do amor
Devias ser queimada viva!
para não mais disseminar o
gozo da tua alma/corpo
Maldita és tu
que fluída entregas tua última gota
ao comparsa que se esvai
em frêmitos de sons liquefeitos
em movimentos dentro de ti
Maldita és tu mulher que escreves
e a palavra comungada
te sai por todos os buracos da carne
porque tua língua não se resume à tua
boca . Maldita, porque lançaste além da
garganta o berro do teu gozo em gêneros,
números, cânticos, praças públicas
Maldita és tu mulher que escreves
porque de assalto proclamas, conclamas
imploras o sentir
Maldita és tu mulher que te despes pra
qualquer um que do amor queira saber
e denuncias, por tabela todas as fêmeas
pois são iguais, todas as grutas,
e são irmãs, todas as santas
em todas essas grutas,
em todas essas santas
se processam, usinam e ardem leite e mel
Maldita és tu mulher que escreves!
E rogas por todas, e gemes quando
escreves
Que pões a boca da vagina no mundo
Oh! Hiena alfa capaz do metabolismo mais
absurdo quando retornas das caçadas
e vomitas a morte,
que tua cria ao devorar esfomeada,
transforma em vida
oh vaca taurina que arremetes cornos
profanos
ameaçando o grandique represador de um
mar de lágrimas, de moções,
carinho, invenções, convenções, emoções
Maldita és tu mulher que escreves!
ré confessa, concubina da paixão,
não percebes ?
escrevendo assim, destilando letra por
letra teu coração/orgasmo ameaças uma
dita ordem tal global da coesão armada,
facilitas,
potra-poeta, cúrvea, pétrea-angular
o estouro da manada!?


 

 

Fátima de Laguna é poetisa, escritora e fotógrafa.