Ano 21 - Semana 1.063

 

 
ARQUIVO de MÚSICA




1º de fevereiro, 2018


MPB4: MAIS DE 50 ANOS DE UMA CARREIRA DE SUCESSO

 

 

Cândido Luiz de Lima Fernandes


É com grande emoção que escrevo sobre o MPB4. Este grupo vocal e instrumental faz parte da história de minha vida, eu o acompanho desde que tinha 16 anos, tenho todos os CDs e LPs que gravou e assisti a todos os seus shows. O MPB4, mesmo tendo sofrido mudanças em sua formação original, mantém a qualidade dos arranjos e interpretações do seu vasto repertório e resiste ao longo do tempo como um dos melhores e mais longevos quartetos vocais masculinos da história da música popular brasileira.

O MPB4 formou-se em Niterói, Rio de Janeiro, em 1965. A sua primeira formação contou com Miltinho, Magro Waghabi, Aquiles Reis e Ruy Faria. Em 2004 Ruy Faria (na foto, o segundo da esquerda para a direita) saiu do quarteto, depois de participar do grupo durante 40 anos, sendo substituído por Dalmo Medeiros, ex-integrante do Céu da Boca. Há poucos dias, em 11 de janeiro de 2018, tivemos a triste notícia do falecimento do Ruy, aos 80 anos. Prestamos aqui nossa homenagem a este cantor de tão bela voz. Impossível não se emocionar ao ouvi-lo cantar “Pois é, pra quê”, de Sidnei Miller.

Outra perda sentida se deu em 2012, quando faleceu Magro Waghabi (na foto, o primeiro da esquerda para a direita), vítima de um câncer, aos 68 anos.


O cantor, compositor e arranjador, Paulo Malaguti Pauleira, ex-integrante do Céu da Boca e integrante do Arranco de Varsóvia, foi convidado para substituir Magro e foi apresentado oficialmente como novo integrante do MPB4, em dois emocionantes shows no Rival Petrobras, em janeiro de 2013.

Na foto abaixo, vemos a nova formação do MPB4: da esquerda para a direita, Paulo Malaguti Pauleira, Miltinho, Dalmo Medeiros e Aquiles Reis.


Nos primeiros anos, a imagem do MPB4 esteve intimamente ligada à obra de Chico Buarque. Quem não se lembra de “Roda Viva”, canção que foi interpretada por Chico e MPB4 e obteve o terceiro lugar no III Festival da TV Record, em 1968? Esta canção tornou o grupo conhecido em todo o país. A parceria com Chico Buarque durou aproximadamente dez anos. Durante esse período, o MPB4 firmou sua musicalidade e acompanhava-o em suas apresentações como escudeiro musical, com excelentes interpretações de suas composições, sendo que o Chico chegou a ser considerado como o "quinto integrante do quarteto". Algumas das belas interpretações de músicas do Chico feitas pelo MPB4 são, além de “Roda viva", “Quem te viu, quem te vê", “Morena dos olhos d’água”, “Valsinha”, “Minha história”, “Olé, olá”, “Cálice”, “Angélica”, “Partido alto”, “Corrente”, “Fantasia” e “Vai trabalhar, vagabundo”. Mas não poderia deixar de registrar a magistral “Apesar de você”, que foi proibida pela Censura na época da ditadura. Lembro-me que, em 1971, fui assistir a um show do MPB4 e Chico Buarque em um recinto fechado em Belo Horizonte. Apresentado aos integrantes do grupo, tive a ousadia de lhes pedir para cantar a proibida “Apesar de você”. Responderam-me que tentariam incluí-la no set list, mas que não poderiam garantir nada. Ao final do show, cantaram apenas as três primeiras palavras da letra de “ Apesar de você” e bateram em retirada.

Fica difícil apresentar com detalhes neste curto espaço a extensa discografia do MPB4. São mais de 40 LPs e CDs, com um repertório marcado por composições de grandes nomes da música popular brasileira, como Noel Rosa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Sidnei Miller, João Bosco, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Baden Powell, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Monsueto e muitos outros. Vou citar apenas alguns dos maravilhosos discos do quarteto. Um deles é o LP "Deixa estar", de 1970, com destaque para a música "Amigo é pra essas coisas", de Aldir Blanc e Sílvio da Silva Júnior, que até hoje é um grande sucesso do grupo. No ano seguinte, foi lançado o LP "De palavra… em palavra...", em que se destacam as músicas "Cravo e canela", de Milton Nascimento, "O cafona", de Marcos Valle, "Eu chego lá", de Ataulfo Alves, "De palavra…em palavra…", de Miltinho, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, e "Pois é, pra quê", de Sidnei Miller, com a emocionante interpretação do Ruy Faria. Em 1972 foi lançado o LP “Cicatrizes”, em que Miltinho destacou-se como compositor da música-título, com a parceria de Paulo César Pinheiro. Neste, os arranjos, instrumental e vocal, de Magro, tornaram-se mais ousados, com destaque para as músicas "San Vicente", de Milton Nascimento e Fernando Brant, "Partido alto”, de Chico Buarque" e "Pesadelo", de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro. Em 1974 o MPB4 lançou o LP “Antologia”, que reúne pout-pourri de vários sambistas e outros nomes consagrados da música brasileira, como Dorival Caymmi, Noel Rosa, Paulinho da Viola e o próprio Chico Buarque. Em 1975 é lançado o primoroso LP “10 anos depois”, como destaque para “De frente para o crime”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Galope”, de Gonzaguinha e “Vera Cruz”, de Milton Nascimento e Márcio Borges.

Treze LPs se sucederam de 1976 a 1991. Não poderia deixar de registrar neste período, o excelente “Cobra de Vidro”, de 1978, em que o MPB4 canta junto com o Quarteto em Cy, com destaque para a linda “A estrada e o violeiro”, de Sidnei Miller. Também quero ressaltar "Vira, virou", de 1980, no qual a música "A lua”, de autoria de Renato Rocha, tornou-se sucesso nacional. Em 1989 , no show “Amigo é para essas coisas”, que virou disco, o MPB4 apresentou uma música do compositor cubano Sílvio Rodriguez, com versão do Miltinho, “Por quem merece amor”, que me faz arrepiar toda vez que a escuto. Em 1993 foi lançado o maravilhoso CD “Encontro marcado”, em que o grupo apresenta dezesseis músicas de Milton Nascimento. Em 2000 o MPB4 novamente se uniu ao Quarteto em Cy no CD “Vinícius - a arte do encontro”. Também em 2000 o grupo lançou "MPB4 e a nova música brasileira", com canções de autoria de novos compositores, como Lenine, Paulinho Moska, Marcelo Camelo, Zeca Baleiro, Nando Reis, Adriana Calcanhoto e Zélia Duncan. Em 2007 foi a vez de “MPB4 40 anos ao vivo", com sucessos como “O ronco da cuíca”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Cicatrizes”, de Miltinho e Paulo César Pinheiro (com a participação de Roberta Sá), “Olé, olá”, com a participação de Zeca Pagodinho), “Conceição”, de Dunga e Jair Amorim (com participação de Cauby Peixoto), “Falando de amor”, de Tom Jobim (com a participação do Quarteto em Cy) e “Roda viva”, (com a participação de Chico Buarque). Em 2008, o grupo gravou CD e DVD junto com Toquinho. Em 2012 é lançado, pela Biscoito Fino, o CD "Contigo aprendi”, com versões inéditas para o português, feitas por diversos compositores brasileiros, para grandes boleros, como “ A barca”, “Relógio”, “Sabor em mim”, “Tu me acostumaste”, “Noite de ronda” e outros mais.

Em 2016 o grupo apresentou uma série de shows intitulada "Toquinho, Ivan Lins e MPB4 - 50 anos de música" em várias cidades do país e lançou, em maio, o CD "O sonho, a vida, a roda viva!". Desde então, o grupo vem apresentando com sucesso o show "O sonho, a vida, a roda viva!", celebrando a marca de 50 anos de carreira, em que mistura músicas inéditas com seus clássicos dos anos 1960 em diante. Depois dos shows feitos em janeiro de 2018 no Theatro NET Rio, Centro de Artes UFF (Niterói) e Imperator Centro Cultural, o grupo volta a se apresentar, em 5 de abril próximo, no Theatro NET Rio.

Parabéns ao MPB4 por seus mais de 50 anos de sucesso de crítica e público e vida longa ao quarteto, que tem e teve uma contribuição tão marcante para a música popular brasileira!

 

 

Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com

 


 

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IRENE SERRA
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