Artur da Távola

é um grande melodista.
Esta é a sua característica fundamental. Desde as canções populares, até as
suas obras sinfônicas e a maravilhosa ópera Porgy & Bess, onde cenariza uma
tragédia de amor entre protagonistas negros de bairro paupérrimo em fase de
absoluta discriminação racial nos Estados Unidos.
Ele é uma cachoeira de melodias desde que começou com temas para musicais em
1913, com 15 anos até a sua morte em 1937.
Suas canções populares para os musicais da Broadway vão às centenas. E tantas
imortais como
"Do I Again";
"Yankee Doodle Blues";
"Somebody Loves Me";
"Oh
Lady, Be Good";
"Fascinating Rythm";
"The Man I Love";
"Something about Love";
"Loves
Is In The Air";
"My Fair lady";
"Strike Up The band";
"Someone to
watch over me";
"Funny Face";
"S'Wonderful";
"New York Serenade"
e muitas outras, isso sem incluir árias da
ópera Porgy & Bess, onde por exemplo, a
canção "Summertime" corre o mundo até hoje desentranhada da obra prima. Suas
incursões pela música de concerto, igualmente lhe sobreviveram para equívoco dos
críticos sisudos que as consideravam superficiais e pobres em harmonia e em
regras musicais, obras descozidas.
A verdade é que Gershwin exalava melodias.
Assim é a fantasia "Um Americano em Paris".

RAPSODY IN BLUE - 20'04"
-
Uma das mais famosas obras de George Gershwin. Famosa, marca de seu estilo,
e profundamente norte-americana, com inovações do jazz negro, chegando via
um judeu, filho de russos, ao cerne do espírito norte americano.
Dela existem versões para piano solo e dois pianos. Começa com a clássica
escala chorosa da clarineta, que segundo o próprio compositor, ele mesmo
criou por acaso. Com a obra pronta, passava pelos bastidores e ouviu um
clarinetista fazer uma escala para testar a técnica, era algo natural em
qualquer músico para "esquentar" o instrumento. Gershwin sentiu ali a
inspiração do que hoje é marca registrada da Rapsódia.
Outro engano comum é o de supor que ele usou a palavra "blue" em seu sentido
de triste. Ele o fez no sentido de azul. Disse que idealizava para ela um
bailado todo azul. Que a considerava uma obra azul, pelo otimismo e energia
pacificadora que traz.
Esta versão que veremos e ouviremos não é a original. O maestro Seiji Osawa
convidou um maravilhoso trio de jazz, com o exímio pianista Marcus Robert,
que dá o nome ao trio, o baterista (mais um músico do clã dos Marsalis -
Jason Marsalis) e o baixo de Roland Guérin.
Este trio intervém na obra, recria-a em trio inserido em sua orquestração
original.
Há uma integração racial muito linda nesta exibição: um maestro oriental
formado no Ocidente, organizando para uma platéia alemã branca, a música de
um judeu norte americano de origem russa, e introduzindo um maravilhoso trio
de músicos negros, num exemplo de que a música deve ser paz, deve ser
antipreconceito, pois com tudo isso, a obra jamais deixa de ser norte
americana. É uma fusão notável e eclética. Inesquecível. A música não carece
de explicação, é melódica e genial como espetáculo e sonoridade. Explica-se
por si mesma. Os músicos são aplaudidos de pé, enquanto entardece em Berlim.
UM AMERICANO EM PARIS - 19'25"
É numa tarde bem clara no parque Waldebuhne que o maestro Seiji Osawa é
recebido com verdadeiro delírio pelos presentes neste local, onde a
Filarmônica de Berlim apresenta a sua temporada popular de verão e junta
tanta gente quanto qualquer show de rock.
Um Americano em Paris é uma verdadeira delícia musical, um "cheese cake" que
Gershwin doou como homenagem à França e que relata a felicidade de uma
pessoa a passear pela cidade. Não é obra descritiva. É simbólica porque
mistura o olhar norte-americano com a cidade luz, deslumbrante na primavera.
Quase nem dá para descrever a orquestração pela variedade de sons, timbres,
ritmos, melodias lindas, misturas de estado de ânimo, tudo bem século XX,
com sua música revogadora das regras de harmonia e do contraponto que
permaneceram até os românticos do século XIX e mesmo alguns do século XX.
A melodia exposta no meio da peça pelos trompetes é muito bonita e tem o
passo de um caminhante urbano encantado com o que vê.
Seiji Osawa, além de ensaiar, comanda a orquestra o equilíbrio instrumental,
as alterações de ritmos e de intensidades, de modo expressivo, bastante
claro para o olhar dos músicos. E chega a emocionar ver aquele japonês
nascido na China e estudado na Alemanha e nos Estados Unidos, baixinho,
deter em suas mãos, braços e expressões faciais, a energia interna da
orquestra e sua absoluta disciplina numa peça ao mesmo tempo acessível ao
ouvido, ousada para a época e tão difícil tecnicamente. Estamos diante de
uma aula de música!
Não é obra profunda. É espetáculo musical de altíssima qualidade.
O final é arrebatador com a mistura em trechos de várias melodias da obra.
GEORGE GERSHWIN : Rhapsody in Blue e Um Americano em Paris
Orquestra Filarmônica de Berlim
Regente: Seiji Ozawa, Marcus Roberts Trio, Piano - Marcus Roberts, Baixo -
Roland Guerin, Bateria - Jason Marsalis
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