Ano 9 - Semana 435



Artur da Távola é escritor, jornalista, radialista e mestre em música.

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30 de julho, 2005
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Artur da Távola
 

é um grande melodista. Esta é a sua característica fundamental. Desde as canções populares, até as suas obras sinfônicas e a maravilhosa ópera Porgy & Bess, onde cenariza uma tragédia de amor entre protagonistas negros de bairro paupérrimo em fase de absoluta discriminação racial nos Estados Unidos.

Ele é uma cachoeira de melodias desde que começou com temas para musicais em 1913, com 15 anos até a sua morte em 1937.

Suas canções populares para os musicais da Broadway vão às centenas. E tantas imortais como "Do I Again";  "Yankee Doodle Blues";  "Somebody Loves Me";  "Oh Lady, Be Good";  "Fascinating Rythm";  "The Man I Love";  "Something about Love";  "Loves Is In The Air";  "My Fair lady"; "Strike Up The band";  "Someone to watch over me";  "Funny Face";  "S'Wonderful";  "New York Serenade" e muitas outras, isso sem incluir árias da ópera Porgy & Bess, onde por exemplo, a canção "Summertime" corre o mundo até hoje desentranhada da obra prima. Suas incursões pela música de concerto, igualmente lhe sobreviveram para equívoco dos críticos sisudos que as consideravam superficiais e pobres em harmonia e em regras musicais, obras descozidas.

A verdade é que Gershwin exalava melodias. Assim é a fantasia "Um Americano em Paris".
 


RAPSODY IN BLUE - 20'04" -

Uma das mais famosas obras de George Gershwin. Famosa, marca de seu estilo, e profundamente norte-americana, com inovações do jazz negro, chegando via um judeu, filho de russos, ao cerne do espírito norte americano.

Dela existem versões para piano solo e dois pianos. Começa com a clássica escala chorosa da clarineta, que segundo o próprio compositor, ele mesmo criou por acaso. Com a obra pronta, passava pelos bastidores e ouviu um clarinetista fazer uma escala para testar a técnica, era algo natural em qualquer músico para "esquentar" o instrumento. Gershwin sentiu ali a inspiração do que hoje é marca registrada da Rapsódia.
Outro engano comum é o de supor que ele usou a palavra "blue" em seu sentido
de triste. Ele o fez no sentido de azul. Disse que idealizava para ela um bailado todo azul. Que a considerava uma obra azul, pelo otimismo e energia pacificadora que traz.

Esta versão que veremos e ouviremos não é a original. O maestro Seiji Osawa convidou um maravilhoso trio de jazz, com o exímio pianista Marcus Robert, que dá o nome ao trio, o baterista (mais um músico do clã dos Marsalis - Jason Marsalis) e o baixo de Roland Guérin.
Este trio intervém na obra, recria-a em trio inserido em sua orquestração original. Há uma integração racial muito linda nesta exibição: um maestro oriental formado no Ocidente, organizando para uma platéia alemã branca, a música de um judeu norte americano de origem russa, e introduzindo um maravilhoso trio de músicos negros, num exemplo de que a música deve ser paz, deve ser antipreconceito, pois com tudo isso, a obra jamais deixa de ser norte americana. É uma fusão notável e eclética. Inesquecível. A música não carece de explicação, é melódica e genial como espetáculo e sonoridade. Explica-se por si mesma. Os músicos são aplaudidos de pé, enquanto entardece em Berlim.

UM AMERICANO EM PARIS - 19'25"

É numa tarde bem clara no parque Waldebuhne que o maestro Seiji Osawa é recebido com verdadeiro delírio pelos presentes neste local, onde a Filarmônica de Berlim apresenta a sua temporada popular de verão e junta tanta gente quanto qualquer show de rock.
Um Americano em Paris é uma verdadeira delícia musical, um "cheese cake" que Gershwin doou como homenagem à França e que relata a felicidade de uma pessoa a passear pela cidade. Não é obra descritiva. É simbólica porque mistura o olhar norte-americano com a cidade luz, deslumbrante na primavera. Quase nem dá para descrever a orquestração pela variedade de sons, timbres, ritmos, melodias lindas, misturas de estado de ânimo, tudo bem século XX,
com sua música revogadora das regras de harmonia e do contraponto que permaneceram até os românticos do século XIX e mesmo alguns do século XX. A melodia exposta no meio da peça pelos trompetes é muito bonita e tem o passo de um caminhante urbano encantado com o que vê.
Seiji Osawa, além de ensaiar, comanda a orquestra o equilíbrio instrumental, as alterações de ritmos e de intensidades, de modo expressivo, bastante claro para o olhar dos músicos. E chega a emocionar ver aquele japonês nascido na China e estudado na Alemanha e nos Estados Unidos, baixinho, deter em suas mãos, braços e expressões faciais, a energia interna da orquestra e sua absoluta disciplina numa peça ao mesmo tempo acessível ao ouvido, ousada para a época e tão difícil tecnicamente. Estamos diante de uma aula de música!
Não é obra profunda. É espetáculo musical de altíssima qualidade. O final é arrebatador com a mistura em trechos de várias melodias da obra.


GEORGE GERSHWIN : Rhapsody in Blue e Um Americano em Paris
Orquestra Filarmônica de Berlim
Regente: Seiji Ozawa, Marcus Roberts Trio, Piano - Marcus Roberts, Baixo - Roland Guerin,  Bateria - Jason Marsalis

 




Direção
IRENE SERRA
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