Ano 9 - Semana 439



Artur da Távola é escritor, jornalista, radialista e mestre em música.

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27 de agosto, 2005
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Artur da Távola



O CHAPÉU DE TRÊS PONTAS
 


Manuel de Falla nasce em Cádiz a 27/11/1876, o mesmo ano em que Brahms, com mais de 40 anos, escreve a sua primeira Sinfonia e Wagner, "O Anel dos Nibelungos". O pai, comerciante, que arruinar-se-ia muitos anos depois de acumular fortuna. A mãe, Carmen Matheu y Parodi, tocava piano e cantava com sua doce voz, impressões que o acompanharam por toda a vida. E o pai dela, avô de Manuel de Falla, tocava muito bem piano e influencia o neto em quem percebe sensibilidade e talento. Ele é o mais velho de cinco irmãos, dos quais apenas três chegaram à idade adulta.

Com cinco anos, já Manuel de Falla está nos estudos de piano e aos seis une esses estudos com os de solfejo e canto.

Quando tinha oito anos, declara-se epidemia de cólera em Cádiz. Sai às pressas da cidade Natal e vai para San Fernando. As impressões deixadas pela epidemia jamais o abandonarão: até o fim da vida, além de alguma ou muita hipocondria, jamais bebe água que antes não tenha sido fervida. De Falla era quieto, severo, introvertido, quase autista quando criança. Um dia os pais descobrem, num velho cômodo fechado da casa, que o menino Manoel havia construído ou feito uma miniatura engenhosa de imaginária cidade, a que chamou de Colombo, onde projetou seu mundo de menino: até havia ali um teatro de ópera. Ele também pintava com facilidade e em outro recanto da casa, inventaria peças em um rudimentar teatro de marionetes. Sua saúde sempre se manteve precária.

Pelo resto da vida, seria De Falla, quieto, tímido, temeroso de doenças e nada obstante forte em sua excêntrica e introvertida personalidade. Refugiou-se em duas verdades para ele definitivas: a religião católica e a música. Nesta, começa a compor aos 12 anos: embora sem possuir uma obra vasta, sendo assim sério e perfeccionista, se faz adulto. Dos 14 aos 18 anos viaja a Madrid e outras cidades. Justamente em 1884, aos 18 anos, os negócios do pai vão à bancarrota. Um ano depois segue para Madrid e estuda a fundo teoria musical e piano, concluindo o curso deste instrumento alguns anos depois com um prêmio do Conservatório em 1899. Está com 23 anos e vive a vida musical de Madrid até 1907, quando com 31 anos se muda para Paris (onde vive sua maioridade artística). Conhece e se nutre das influências de Debussy e de seu compatriota de gênio, Isaac Albeniz. Seis anos depois estrearia sua ópera "A Vida Breve", síntese de sua espanholidade e influências, com grande êxito. Estamos em 1913.

A vida adulta de Manuel de Falla pode ser sintetizada por:
1) musical intensidade pela Europa que já o conhecia e apreciava;
2) crises em sua fé e retornos permanentes ao acendrado catolicismo;
3) originalidade do estilo;
4) enfermidades constantes, a meu ver, depressões mal diagnosticadas;
5) seu horror às guerras e ditaduras;
6) não adesão ao dodecafonismo mesmo sendo compositor típico de outras das vertentes do século vinte;
7) amizade que dedicou a seu reservado círculo de amigos;
8) desespero causado pelo assassinato covarde e brutal do amigo Garcia Lorca;
9) radical celibato;
10) decisão súbita de auto exilar-se da Espanha aos 63 anos, em face do regime de Franco, depois de atroz enfermidade. Temeroso como era, ao estalar a guerra na Europa e por causa do regime totalitário de Franco, vai para a Argentina acompanhado da sua irmã, Maria del Carmen, que durante toda a sua vida, foi quem dele cuidou com desvelos de mãe;
11) vida de crise em crise dos 65 aos 70 anos, quando veio a falecer. Das crises financeiras às nervosas e seu misticismo se acentua. As enfermidades que o acometiam tanto eram reais, quanto imaginárias. Com a idade, a velha hipocondria se tornou patológica.
12) incomensurável sofrimento por saudades da Espanha, tristeza, medo, solidão.
13) jamais voltar à pátria querida, partindo definitivamente em 1946 com 70 anos de vida honrada, introspectiva e uma obra de altíssima qualidade musical.


A SUÍTE DO BALÉ


Grassava a Guerra 14-18 em seus finais. A companhia de balé Russo de Diaghilev vinha, depois de revolucionar a Europa Ocidental, aos trancos e barrancos, com o grande empresário e animador cultural já idoso e enfermo a lutar por mantê-la de pé. Um dos convites que faz é para De Falla, pelos mistérios de suas melodias, pela modernidade da construção e facilidade de audição.

De Falla, saído de uma de suas crises de depressão e manias (ele tinha pavor da lua nova por seu citado poder maligno) resolve re-escrever o seu "O Corregedor e a Moleira", num balé bufo, baseado no bailado de Gregorio Martinez Sierra, por sua vez originado em antiga história de Pedro Antonio de Alarcón.

É a história simples de uma espécie de governante das pequenas vilas antigas da Espanha, lá chamados de corregedor, um idoso caricato barrigudo e sem compostura, que se enamora da mulher do dono do moinho local, uma bela e sedutora mulher. Uma série de peripécias são feitas para driblar o mandrião, organizadas por ela e seu zeloso marido, a quem amava e a quem era fiel.
De Falla aproveita e coloca-nos várias danças espanholas.
A peça começa com uma introdução na qual uma voz de soprano prenuncia: "Casadita, Casadita, cierra com llave la puerta que aunque el diablo esté dormido, a lo mejor se despierta".
Segue-se o entardecer no qual se ouvem pássaros. A duração é de aproximados 5 minutos.

Depois disso, em 3'35"aproximadamente, surge a dança sensual da moleira que é um fandango espanhol. Logo após o fandango, entra uma passagem chamada "As Uvas", também espanhola na melodia e no ritmo. Sua melodia central é bem conhecida.

Aparece, então outra manifestação popular - uma típica Seguidilla, que durante três minutos e um pouco mais, é base para uma dança dos vizinhos.

A quarta passagem é a parte maior da obra. Trata-se de uma farruca, outra dança típica da Espanha que serve de base para a dança do moleiro. Ela tem algo ameaçador e nostálgico. O corregedor sem compostura começa a se dar conta dos riscos que corre. Esta passagem é ardentemente apreciada pelos bailarinos e nela para se fazer ameaçador, o compositor cita de modo jocoso os primeiros compassos da 5º Sinfonia de Beethoven . Isso se dá por volta dos sete minutos, quase oito. Ouve-se a voz do soprano que faz o som do cuco.

Segue-se uma dança caricata, variada, divertida, do corregedor e a suíte do balé, se completa com Dança Final, onde de Falla coloca o ritmo espanholíssimo de uma Jota Aragonesa, assim chamada por ser uma dança da região de Aragón.
Esfuziante, brilhantíssima, a pantomima se conclui.
 

MANUEL DE FALLA
El Sombrero de 3 Picos ( O Chapéu de Três Pontas)
Orquestra Sinfônica da Rádio Stuttgart - Alemanha
Regente: Garcia Navarro

 



Direção
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br