Ano 9 - Semana 436


 

 

06 de agosto, 2005
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Daniel Barenboim

trechos da entrevista à Revista VEJA, em setembro de 2005

Sobre judeus e palestinos: "Podemos viver juntos" .


O argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim, de 62 anos, é um dos maiores nomes da música erudita atual. Nascido em Buenos Aires, ele se lançou na carreira de concertista aos 7 anos de idade. Na década de 60, assumiu também a função de maestro. Regeu grupos importantes, como a Filarmônica de Berlim, a Sinfônica de Chicago e a Ópera Estatal de Berlim - nas duas últimas, acumulou o cargo de diretor artístico. Seu repertório de regência é vasto: vai de clássicos como Beethoven - sua gravação das sinfonias do alemão é tida como essencial - aos compositores contemporâneos.
 
Barenboim é também um agudo polemista. Uma de suas brigas é em defesa da obra do alemão Richard Wagner (1813-1883), famoso pelo anti-semitismo. "Ele foi um ser humano execrável e um compositor genial", diz. Em 1999, ao lado do intelectual palestino Edward Said, Barenboim criou a West-Eastern Divan Orchestra, que reúne jovens músicos judeus e árabes. A orquestra atualmente está sediada em Sevilha, onde é sustentada por uma verba anual de 2,5 milhões de euros.

"As tensões entre Israel e a Palestina tinham se agravado em 1999, quando inauguramos o projeto, e o clima era pesado. Havia preconceitos a vencer. Alguns músicos judeus mostravam descrédito diante da idéia de instrumentistas árabes. Mas as barreiras caíram nos ensaios. Quando uma orquestra está em ação, ninguém consegue diferenciar etnias. Todos são iguais diante de Beethoven. A partir daí, nasceram vínculos pessoais. Os músicos perceberam que tinham gostos e costumes em comum. A orquestra tem uma oboísta israelense chamada Meirav Kadichevski. A melhor amiga dela é uma violinista palestina. Outro oboísta, Mohamed Saleh, veio do Egito e é muçulmano. Ele mora em Berlim e divide o apartamento com dois instrumentistas judeus. Os novos membros da orquestra se deixam contagiar por esse clima e acabam fazendo amizades. Os maiores desafios, hoje em dia, vêm de fora. Músicos sírios e egípcios muitas vezes desafiaram o governo de suas nações para tocar conosco. Músicos judeus também sabem que podem sofrer represálias. Todos mostram uma dose de heroísmo para fazer aquilo em que acreditam".

"Acredita-se que a música está sempre ao alcance de todos, mas há certos lugares do mundo carentes de informação e de espaços onde as pessoas possam usufruir a música. Ramallah é um desses lugares. Eu o visitei pela primeira vez em 1995, levado por Edward Said, e lá senti na pele o desespero e a raiva de muitos jovens palestinos. Com a escola de música, quis dar aos habitantes de Ramallah a oportunidade de estudar e enriquecer sua bagagem cultural. Mas também tinha em mente outra coisa. Na Europa ou nos Estados Unidos, uma hora ao violino é apenas uma hora de estudo. Na Palestina, significa também uma hora longe da violência e do fundamentalismo".


Gentileza de Carlos André Ribeiro de Araujo

 



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