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Daniel Barenboim
trechos da entrevista à
Revista VEJA, em setembro de 2005
Sobre judeus e palestinos: "Podemos viver juntos" .
O argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim, de 62 anos, é um dos
maiores nomes da música erudita atual. Nascido em Buenos Aires, ele se
lançou na carreira de concertista aos 7 anos de idade. Na década de 60,
assumiu também a função de maestro. Regeu grupos importantes, como a
Filarmônica de Berlim, a Sinfônica de Chicago e a Ópera Estatal de Berlim -
nas duas últimas, acumulou o cargo de diretor artístico. Seu repertório de
regência é vasto: vai de clássicos como Beethoven - sua gravação das
sinfonias do alemão é tida como essencial - aos compositores contemporâneos.
Barenboim é também um agudo polemista. Uma de suas brigas é em defesa da
obra do alemão Richard Wagner (1813-1883), famoso pelo anti-semitismo. "Ele
foi um ser humano execrável e um compositor genial", diz. Em 1999, ao lado
do intelectual palestino Edward Said, Barenboim criou a West-Eastern Divan
Orchestra, que reúne jovens músicos judeus e árabes. A orquestra atualmente
está sediada em Sevilha, onde é sustentada por uma verba anual de 2,5
milhões de euros.
"As tensões entre Israel e a Palestina tinham se agravado em 1999, quando
inauguramos o projeto, e o clima era pesado. Havia preconceitos a vencer.
Alguns músicos judeus mostravam descrédito diante da idéia de
instrumentistas árabes. Mas as barreiras caíram nos ensaios. Quando uma
orquestra está em ação, ninguém consegue diferenciar etnias. Todos são
iguais diante de Beethoven. A partir daí, nasceram vínculos pessoais. Os
músicos perceberam que tinham gostos e costumes em comum. A orquestra tem
uma oboísta israelense chamada Meirav Kadichevski. A melhor amiga dela é uma
violinista palestina. Outro oboísta, Mohamed Saleh, veio do Egito e é
muçulmano. Ele mora em Berlim e divide o apartamento com dois
instrumentistas judeus. Os novos membros da orquestra se deixam contagiar
por esse clima e acabam fazendo amizades. Os maiores desafios, hoje em dia,
vêm de fora. Músicos sírios e egípcios muitas vezes desafiaram o governo de
suas nações para tocar conosco. Músicos judeus também sabem que podem sofrer
represálias. Todos mostram uma dose de heroísmo para fazer aquilo em que
acreditam".
"Acredita-se que a música está sempre ao alcance de todos, mas há certos
lugares do mundo carentes de informação e de espaços onde as pessoas possam
usufruir a música. Ramallah é um desses lugares. Eu o visitei pela primeira
vez em 1995, levado por Edward Said, e lá senti na pele o desespero e a
raiva de muitos jovens palestinos. Com a escola de música, quis dar aos
habitantes de Ramallah a oportunidade de estudar e enriquecer sua bagagem
cultural. Mas também tinha em mente outra coisa. Na Europa ou nos Estados
Unidos, uma hora ao violino é apenas uma hora de estudo. Na Palestina,
significa também uma hora longe da violência e do fundamentalismo".
Gentileza de Carlos André Ribeiro de Araujo
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