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A Transformação ou
O Natal de Seu Berilo


Enéas Athanázio


Aninhada num grande vale, a Vila vivia em permanente modorra. As ruas em cruz se encontravam no pátio da estação, onde o terreno descambava, depois dos trilhos, no mar de coxilhas que se perdia no horizonte até se juntar com o céu. O silêncio pesado dominava, quebrado às vezes pela cantiga de um galo, o acôo de algum guapeca ou a risada do Natão proseando inconveniências com outros vadios na plataforma da estação.

Só uma vez por dia a Vila se animava, mesmo assim devagar, que a pressa não estava no seu costume. Isso acontecia pelas dez horas, quando o trem misto do norte se anunciava na Serra da Pirambeira, martelando com força os trilhos, e a locomotiva furava os ares com a choradeira de seu apito sextavado. Todos largavam o serviço e rumavam para a estação, bem a tempo de apreciar a entrada triunfal do trem no quadro da plataforma, entre bufos e nuvens de vapor, rangidos de freio e o badalar do sino preso na caldeira. Seguiam-se momentos de atropelo, com gente falando alto, encomendas subindo e descendo, passageiros espiando pelas janelas e curiosos acompanhando o movimento. Uns poucos aproveitavam para comprar jornais e revistas do jornaleiro do trem, reatando os laços com o mundo. Mas o tempo era curto e seu Baby, o agente, não tardava a “dar o pode”, liberando a composição. Entre novos guinchos e bufos, ela arrancava devagar e ganhava velocidade, desaparecendo no Corte do Agrião, seguida pelos olhares tristonhos dos que ficavam. A Vila recaía na mesmice e cada um voltava sem pressa às suas ocupações.

Sede da maior madeireira da região, com serraria montada na Campina, ficavam na Vila os depósitos e o escritório da Companhia Americana, instalado num casarão verde, cercado de largas áreas, na principal esquina do lugar. Ali morava e trabalhava seu Berilo, o Administrador, carioca exilado naquela biboca arredia de civilização, como ele não se fartava de repetir. Dono de todos os poderes, mandava e desmandava, sempre rude no trato e pronto a passar descomposturas em qualquer lugar, sem perguntar a quem, num sotaque carregado de chiados e ss.

Todas as tardes, depois do expediente, sentava-se na área fronteira, espraiando o olhar pela Vila e recebendo cumprimentos temerosos dos escassos passantes. Fumando cigarros importados, numa longa piteira, contemplava com olhos enevoados o lugarejo pobre onde a vida o levara. Apesar dos esforços, não conseguiu adotar o chimarrão, coisa que continuava a julgar uma “baboseira quente”.

Com a aproximação do Natal, no entanto, seu Berilo se transformava. Alguma coisa parecia agir no seu íntimo e ele mudava, tratando as pessoas de maneira amável e até distribuindo sorrisos. Aliviados, os funcionários bendiziam aquela época do ano.

Mal entrado o mês de dezembro, seu Berilo pegava da mulher, dona Malvina, matrona avantajada e que, pela idade, poderia ser sua filha, e embarcava no direto da noite com destino ao Rio de Janeiro. Por lá permanecia alguns dias e retornava cheio de malas, pacotes e caixas de conteúdo secreto.

Descansado da viagem, ordenava o início dos preparativos para a festa. Nesses dias parecia outro, alegre, risonho, brincalhão, com as banhas da barriga tremelicando na sua incansável movimentação. Despachava o Joca Volante, dono do único fordeco da Vila, para o reduto de Anhanguera, em busca do mais perfeito pinheirinho nativo. Com ele seguia Nhô Marco, morador daqueles ermos, conhecedor da matéria, sempre com as bombachas ameaçando despencar.

- Quero uma árvore verdejante e sem defeito! – recomendava enfático. – Sem defeito!

Pela tardinha, o fordeco de rodas tortas e tolda retamada de remendos, encostava nos fundos da casa verde para descarregar a encomenda, tudo debaixo da vigilância do Administrador.

Hóhó, encarregado da usina, recebia ordens para estocar bastante “lixo”, sobras de madeira serrada que alimentavam a caldeira. Na véspera do Natal a luz deveria varar a noite, sem apagar pelas dez horas, como de costume. Tossindo e espirrando, na gripe crônica adquirida no entra-e-sai da friagem de fora para a quentura da usina, tratava de empilhar boa quantidade de material enxuto. Por segurança, fazia uma revisão sumária da usina. Não fosse a caipora falhar justo naquela noite! “Hóhó, isso não! Isso não!” – prometia-se o usineiro.

Na casa verde, enquanto isso, a movimentação era grande. No pátio da frente foram montadas compridas mesas e bancos de tábuas brutas e tudo passou por uma completa limpeza. Mais adiante, num canto vazio, abriu-se o buraco do moquém. Dona Malvina e as crias da casa, num vai-e-vém incessante, preparavam as comidas e os pacotes de presentes, esforçando-se para não esquecer ninguém. Com a orientação direta de seu Berilo, armou-se o pinheirinho na área, no mais visível dos lugares. Tanto ele como a casa e até as árvores mais chegadas receberam lâmpadas multicores, pisca-piscas e enfeites numa quantidade nunca vista. Os assadores foram postos de sobreaviso e o fordeco do Joca Volante foi requisitado mais uma vez para conduzir a carne de uma fazenda próxima. Tudo nos trinques, seu Berilo mandou espalhar o convite, mal contendo a impaciência. A cada passo esquadrinhava o céu, temeroso de alguma chuva intempestiva. Mas o tempo parecia firma como convinha.

No dia da festa, pela noitinha, a usina entrou em ação a pleno vapor. Contente, apesar dos espirros e tosses, Hóhó verificou que tudo estava bem e mandou sua melhor luz a todos os cantos da Vila onde chegassem os fios. A casa verde, com suas lâmpadas coloridas, se destacava nítida no centro da Vila, desenhando sombras curiosas em redor. O pinheirinho, coberto de enfeites e luzes, salpicado de chumaços de algodão, rebrilhava no verdor das grimpas. No chão, ladeando a poltrona destinada ao Papai Noel, erguia-se o montão de presentes. Fazendo fundo, o “jingle bell”, oriundo das estranjas, invadia os ares mais afeitos ao canto do bentevi, ao grito irado do quero-quero e ao pio agudo da perdiz.

Muito devagar, sem pressa, o povo se achegava, meio ressabiado com aquilo tudo. Nem o cheiro forte do churrasco que assava no moquém conseguia apressá-lo. Vinham o Anulino e a Parenka, casal de agregados; vinham o Krautchuk e o Malanski, turmeiros do trecho norte, entretidos numa prosa arrevesada; vinha dona Albertina, a professora, com seus óculos na ponta do nariz; vinham seu Baby, o agente, e o Germano telegrafista, desligados um pouco do morse e do seletivo; vinha o Quim Pitoco, guarda-chaves; vinham o Zeca do monjolo, o Alcides da gaita, o Rosendo caixeiro, o Clidão açougueiro, o Arigó com seu violão, o João Maria pintor com seu braço mais grosso que o outro, o Mané Fortuna da bodega, o Guai sapateiro, o cabo Nicácio, chefe do destacamento, acompanhado de seu Godinho, inspetor de quarteirão, e até o Catarino, viajante de Serra-Abaixo. Vinham operários e funcionários da Companhia, as moças em trajes domingueiros e a criançada vestida na estica e com os cabelos englostorados. Vinha até o Joca Volante, com seu inseparável fordeco, para alguma precisão; afinal nunca se sabe. E vinham também o Natão, o Mão de Onça e o Rasgadiabo, trio que vivia campeando quem inventou o serviço, sobre o qual seu Berilo mandou esticar o olho. Das ruas, dos carreiros, das quebradas e caminhos fundos, dos becos e cafundós onde houvesse um rancho, todos foram se achegando, alguns quase alçados. Brancos bem alvos, pretos da carapinha pixaca, polacos de cabelos cor-de-palha e caboclos enxutos de corpo, todos embicaram no rumo da casa verde. Recebidos no portão, espalhavam-se pelo pátio, espiando meio assustados, pisca-piscando os olhos desacostumados daquele farturão de claridade e de povo. Postado no janelão do sote, com visão geral, seu Berilo se babava de gozo.

Enquanto o povaréu se ajeitava, já vestido de Papai Noel, seu Berilo escapuliu pelos fundos. Ladeou o galpão e principiou a subida na direção da entrada da Vila. Estranhando suas roupas, um cachorro cheio de rabuja avançou contra ele mas levou um cotucão com a bengala e saiu ganiçando – cain! cain! cain! – até sumir no guamirim. “Por pouco aquele jaguara não me denunciava!” – excogitou seu Berilo.

Suando, bufando que nem matungo velho, chacoalhando as banhas, chegou afinal ao topo da colina. Ali Nhô Marco o esperava com a charrete, na qual se aboletou, assumindo a pose oficial de Papai Noel.

Quando espocou o primeiro foguete na canhada, começou a descida vagarosa. Divertia-se no caminho com a própria situação: em vez de trenó, viajava numa antiga aranha de altas rodas ferradas; em vez de rena, era puxado pelo Gatiado, cavalo velho caborteiro e bardoso como ele só; em lugar da brancura da neve, levantava a poeira vermelha da rua de chão batido.

Estacionou, por fim, diante da casa verde, provocando um murmúrio de admiração daquela gente. Meio atrapalhado com a bengala, o saco e as varas de marmelo, desceu e andou devagar até a poltrona colocada entre o pinheirinho e os pacotes. Suas roupas vermelhas faiscavam na claridade.

Dona Malvina fazia as honras da casa. Indagava da viagem, das crianças, das coisas do mundo. Acomodado na poltrona, ele iniciou a distribuição dos presentes, saboreando a alegria estampada nas faces e a avidez com que agarravam os pacotes. Trepadas nas árvores e nas grades da área, as crianças mais taludas acompanhavam seus mínimos gestos, enquanto as menores agarravam nas saias das mães. Esbugalhavam os olhos quando ele ameaçava com varadas as que não estudavam ou desobedeciam em casa.

O monte de pacotes foi minguando até desaparecer. Ninguém foi esquecido.

Encaminhado às mesas, o povo foi servido. Churrasco, saladas e farinha à vontade, tudo regado a muita gasosa de framboesa, que seu Berilo era inimigo de bebidas fortes. Algumas crianças beberam tanto que até soltavam bolhas de gás pelo nariz. E todos comeram e comeram. Já em trajes normais, seu Berilo andava por ali, falando com este ou aquele, provando um naco de carne, feliz como uma criança.

A noite avançava. Em grupos, as pessoas se retiravam satisfeitas. As crianças pequenas dormiam nos braços dos pais, as maiores carregavam com mil cuidados o presente, talvez o único recebido em toda a vida. Nunca aqueles carreiros tortuosos foram tão fáceis de trilhar.

A Vila recaiu no silêncio, só quebrado pelo canto de um galo ou o acôo de algum cachorro ainda arisco do foguetório.

Enfiado numa capa lageana, alternando tosses e espirros, Hóhó alimentava a caldeira e mandava a melhor luz a todos os cantos da Vila.

As ruas principais se cruzavam no pátio da estação, lembrando uma cruz iluminada em pleno campo. A casa verde se destacava na esquina.

No céu límpido e sem nuvem a lua brilhava e as estrelas piscavam. Pareciam alegres com a transformação daquele homem.


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O Autor é Promotor de Justiça (aposentado), escritor e advogado.
Reside em Balneário Camboriú (SC).

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