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Um Natal no Céu


Geraldo Batista


Esta história me foi contada pelo meu pai, Manoel dos Cocos.

O ano de 1915 estava chegando ao fim. Não deixaria saudades devido a uma seca tão braba que de verde só restava pena de papagaio e pano de bilhar. No outro lado do mundo, os homens estavam se matando em mais uma guerra estúpida.
Aqui, os homens morrendo de fome, sem ao menos saber onde ficava essa tal de “Oropa”. Muitos ignoravam até a própria guerra mundial.

Os políticos, como sempre, haviam prometido mundos e fundos, mas o que faziam mesmo era comer as verbas. Os coronéis estavam mais preocupados em manter o gado em pé do que os homens vivos.

No mês de dezembro, as últimas levas de retirantes de Piancó, na Paraíba, passavam pela freguesia de Nossa Senhora da Guia, em busca de alguma salvação para suas famílias. De vez em quando, se arranchavam onde poderiam encontrar um punhado de farinha, com um naco de rapadura e um pouco de água barrenta para matar a sede.

Véspera de natal, uma família parou num pé de serra, debaixo de um juazeiro. Maria e José. Só não eram a sagrada família por causa dos sete filhos e o próximo na barriga da mãe, esperando o mês de fevereiro para nascer.

Na paisagem seca, avistaram um pequeno rebanho de cabras comendo as últimas folhas caídas das faveleiras, árvores cujas folhas servem de forragem para caprinos e ovinos. José começou a imaginar coisas, pois a fome é má conselheira. Os meninos chorando de fome... Noite de Festa... Mais fome... Honesto, José nunca tinha metido a mão no alheio. E a fome aumentando...
- Maria, qué que você acha de nóis sacrificá um bodete desses?
- Cruz credo, home de Deus. Isso é lá coisa que se faça?!
- Mas Deus tá vendo a precisão e aqui num tem gafanhoto e nem mé pra nóis comê feito São João Batista.
- José, entonce vamos matá um bichim desses pra dá de comer aos meninos.
Dito e feito. José pegou um pequeno animal, sangrou com a velha quicé, tirou o couro com todo cuidado para não estragar. Em seguida, resolveu procurar o dono da fazenda para entregar o couro e confessar o crime.
- Hoje é véspera de natal, o home deve tá com o coração mais mole e vai me perdoar.

A casa ficava a quase dois quilômetros de distância. Saiu quase correndo, com aquele peso na consciência. Eu não posso ir drumi tranquilo como se fosse um ladrão.
- Ô de casa!
- Ô de fora!
- Quero falá cum o sinhô. Boa tarde, coroné. Sou retirante, vindo de Piancó. Estou arranchado ali no pé da serra. Pros meninos ter o que comê nesta noite de festa, eu sacrifiquei um bodete e tô lhe trazendo o couro, que não sou ladrão.
- Está certo, respondeu o fazendeiro com a cara amarrada. Vou buscar farinha para vocês não comerem escoteiro. (Sem mistura).

José saiu sem acreditar. Estava certo que ouviria um batido feroz e, em vez disso, ainda ganhara a farinha.

À noite, comeram feito uns frades e dormiram como uns anjos. Acordaram no céu. O senhor das terras havia colocado estriquinina na farinha para "acabar com esse bando de ladrões famintos".

Pouco tempo depois, o coronel Eustaquiano Moreira de Souza morreu de febre braba, treinando para entrar no inferno, onde foi recebido por satanás. Dizem que sua alma penada ainda hoje aparece em noites de lua cheia, berrando que nem bode pai de chiqueiro.
 

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