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Roberto Jesus


Isabel Vasconcelos


Estava sozinha na cidade grande e sentia-se enjoada, tão enjoada como se todas as suas vísceras fossem saltar pela boca. Pegou um ônibus e, tonta de tão mal, foi ao pronto socorro de um hospital público. Uma médica muito gorda estava de plantão e examinou-a, enquanto ela vomitava a alma. Deu uma risadinha e um comprimido para ela tomar. Ficou lá, jogada numa das macas do corredor, enquanto a doutora saiu um instante, dizendo que ia fazer um teste.

Voltou alguns minutos depois, com um sorriso nos lábios. Maria olhou para ela e pensou, no meio do seu sedado delírio, que a médica era um anjo, de asas muito largas e brancas. Havia uma luz sobre a cabeça dela, que parecia tornar brilhante seu traje branco e já meio sujo, depois de um dia de plantão. Então a doutora falou:

- Você não tem nada demais, minha filha. Está tudo normal, considerando que você já deve estar, há uns dois ou três meses, carregando um bebê em seu útero.

Maria pulou da maca, assustada.

A médica, compreensiva e acostumada aos muitos dramas da vida que todos os dias circulavam pelo OS, disse:

- Você sabe quem é o pai?

Maria, ainda atônita pela notícia, balançou a cabeça numa negativa.

- Nem desconfia? – insistiu a médica.

Maria pensou que a médica estava enganada. Ela não podia estar grávida. Ela não fizera amor com ninguém...

Saiu do PS ainda zonza e foi para casa, imaginando que aquilo que não passasse de um engano. Ela decidamente não poderia estar grávida. Mas, à medida que passava o tempo, sua barriga crescia e seu pavor também. Como poderia ela carregar uma criança se ainda era virgem? Procurou um ginecologista no posto de saúde, explicou a ele, ele a examinou e confirmou: estava de quatro meses.

- Mas doutor – perguntou ela – como pode ser se o senhor mesmo viu que eu ainda sou virgem?

- Sabe, Maria, às vezes não é preciso penetração para engravidar. Se você esteve com seu namorado e ele ejaculou próximo à sua vagina...bem, é raro... mas o espermatozóide pode ter entrado e atingido um óvulo... Não existe outra explicação.

Mas ela sabia que não acontecera nada disso. Tivera apenas dois namorados e tudo não passara de uma troca de beijos e abraços, nada parecido com um clímax sexual, com ejaculação e tudo... O médico balançou a cabeça, sem saber o que dizer, quando ela lhe explicou. Era um homem experiente, imaginou que a menina pudesse ter sido vítima de violência sexual e tivesse, por um mecanismo psicológico de defesa, apagado da memória a experiência.

- Escute, procure lembrar-se...- começou ele com muito cuidado – Ninguém nunca tentou abusar sexualmente de você? Algum parente, em sua casa? Ou mesmo um desconhecido, no ônibus , que tenha se aproximado demais (se esfregado...pensou ele, mas não disse) do seu corpo?

Não. Ela tinha certeza que não.

- Bom, de qualquer maneira, vou pedir uns exames, você faça e volte daqui a um mês para acompanharmos o andamento de sua gestação.

Maria não sabia o que fazer. Seus tios, na casa de quem morava, a haviam recebido tão bem em S.Paulo e ficariam absolutamente consternados com a gravidez da sobrinha e, além disso, jamais acreditariam que ela tivesse engravidado virgem. Seus pais viriam certamente, loucos da vida e cobertos de vergonha, para levá-la de volta à cidadezinha do interior e todos os sonhos dela, de cursar uma faculdade e fazer carreira na capital, estavam agora fadados ao esquecimento. E pensando em tudo isso, ela chorou. Caminhava em direção a casa dos tios, passou em frente ao bar mais concorrido da região e José, o dono do boteco, que tinha acabado de abrir o estabelecimento e estava na calçada, contemplando o por do sol, viu aquela menina bonita com lágrimas nos olhos e disse:

- Por que choras, Maria? Venha, entre, tome um refrigerante e acalme-se, não vá para casa assim...

Sem saber bem porque ela entrou e sentou-se numa mesa. Meia hora depois tinha contado a José todo o seu drama. Ele coçou a longa barba negra e disse:

- Olha, Maria. Sou bem mais velho que tu. Quantos anos tens mesmo?

- Quinze.

- Eu tenho o dobro. Mas quis o destino que a minha Maria, que era Maria de Fátima, diferente de ti, que és Maria da Glória, me deixasse, morrendo em apenas seis meses, daquela doença maldita. Se queres mesmo ficar em S.Paulo, se queres estudar, eu te proponho um negócio: caso-me contigo, tu cuidas da minha casa e estudas, cuidas de mim, das minhas coisas, e eu fico sendo o pai de teu filho, não importa quem seja ele.

Maria levantou os olhos para ele, assustada.

- Mas por que você faria isso?

- Porque sou um português louco e sempre gostei de ti e porque tudo o que precisas agora é de um marido e tudo o que eu preciso é de uma esposa.

Assim, um mês depois, Maria e José casaram-se numa cerimônia simples, com a presença dos pais dela, que, indignados por sua gravidez, vieram do interior mas acabaram gostando daquele portugues falante e simpático apesar de que ele, julgavam, havia feito mal para a sua filha.

O casamento deu certo. No começo, Maria era grata a José por tê-la amparado naquele momento difícil, por proporcionar-lhe a continuidade de seus sonhos, mas logo descobriu que o marido era um amante hábil e, quando se deu conta, estava de fato apaixonada por ele.

José herdara dos pais uma pequena panificadora que tratara de transformar em bar, já que gostava da vida noturna e que o boteco era muito conveniente para esconder a sua militância política. Estavam vivendo tempos duros naquele 1970, no Brasil. A ditadura mostrava suas garras e José abrigava, no porão de seu estabelecimento, aqueles rapazes e moças heróicos que se escondiam da repressão e até mesmo aquele monte de livros e panfletos considerados subversivos pelo poder militar.

Na véspera do natal daquele ano, quando Maria estava prestes a dar a luz, estavam fechando o bar mais cedo, já que iam cear na casa dos tios dela, quando um dos contatos de José, um universitário e líder estudantil, entrou correndo no bar, ofegante e muito nervoso e disse:

- Portuga, temos que dar o fora. Um dos nossos caiu e conhece bem esse ponto. Estou com uma kombi da empresa do meu pai e posso levar todos vocês para bem longe.

- Acalma-te, ó menino de Deus – respondeu José – levas os teus companheiros e fico aqui para esperar os homens. Nós já estávamos mesmo fechando e pretendemos ir passar o Natal na casa dos...

- Que Natal, portuga? Você pirou? Se os macacos vêm aqui, arrastam você e a tua mulher para o Dops e vocês vão passar o natal mas é pendurados num pau-de-arara para que contem o que sabem...

- Maria está prestes a dar a luz! – protestou José.

- Vamos logo, portuga. Tira os meninos lá de baixo e vem vocês dois com a gente. Vamos sair da cidade. Vou levar vocês para um sítio do meu pai. Pendura aí na porta de ferro uma placa dizendo que o bar está de férias e depois a gente vê o que faz. O pessoal se dispersa, você pode ficar com a Maria no sítio...

- Mas e o meu negócio? E o dinheiro? Pensas que vamos viver de brisa?

- Na kombi tem um monte de dinheiro que o pessoal do movimento me deu para garantir a sobrevivência dos companheiros. Não discute. Vamos embora. Eles podem chegar a qualquer momento!

E assim se foram todos, espremidos na Kombi, para fora da cidade. Três dos militantes desceram em cidades próximas à S.Paulo pois iam se abrigar em aparelhos que a organização clandestina mantinha por ali.

Quando já se iam mais de 100 kms de estrada, Maria começou a sentir fortes dores e logo o chão da kombi se encharcou com a sua bolsa rompida.

Claudio, o líder estudantil, que dirigia o carro, não pensou duas vezes. Viu uma porteira, parou o carro. Por sorte, estava fechada apenas com uma corrente, sem cadeado. Ele foi dirigindo pela estreita trilha,no meio do mato, imaginando que encontrariam uma casa mais adiante. Os gritos de Maria doíam-lhe na alma. Adiante, avistou uma construção. Era um estábulo. Parou a kombi, de frente para a porta, iluminando o interior com os faróis.

Assim, deitada num monte de feno, com o auxílio das duas militantes fugitivas, deu à luz a um menino forte e bonito, exatamente à meia noite.

Nesse momento, quando as moças improvisavam tudo para limpar e envolver o bebê, três homens se aproximaram. Um deles trazia uma espingarda e outro, uma lanterna. Claudio explicou a eles que estavam viajando e que Maria entrara em trabalho de parto e que, portanto, não tiveram outra alternativa senão invadir a fazenda. Eles aceitaram a explicação, cumprimentaram José e se afastaram. Quinze minutos depois voltaram, com uma caminhote, trazendo uma cesta com frutas e um pouco de carne, muitos pães, algumas garrafas de vinho, garrafões de água, uma enorme bacia e lençois e toalhas.

- Meu Deus! – exclamou Cláudio – Isso, na nossa situação, é um verdadeiro presente de rei! Quanta generosidade dos senhores!

- Não é nada – disse o mais velho deles – afinal já passa da meia noite e é natal. Esse menino, nascido no estábulo, está repetindo uma história muito antiga...

Foi interrompido pelo grito de uma das moças:

- Olhem! O que é aquilo no céu? Tão brilhante! Parece um disco voador!

Olharam todos, espantados, para aquele brilho intenso que aparecera, de repente, no estrelado firmamento. Ficou ali por alguns instantes e depois partiu com incrível velocidade, deixando um rastro luminoso no céu.

Maria, deitada no feno, mal refeita ainda das dores do parto, mas carregando feliz nos braços o seu filho, disse a José:

- Ele vai chamar-se Jesus, já que nasceu no Natal. Roberto Jesus, em homenagem ao Roberto Carlos e ao natal.

Partiram no dia seguinte, mal nasceu o sol, não sem antes agradecer pela hospedagem e se refugiaram no sítio do pai do Cláudio. Um mês depois, Maria, José e o menino Roberto Jesus voltaram à cidade. A polícia política andou aparecendo no bar, fazendo perguntas, incomodando, mas logo desistiu. José era esperto e sempre negou qualquer conhecimento dos movimentos subversivos.

Três anos depois, Maria engravidou de novo e nasceu Thiago Carlos.
Roberto, desde ainda muito bebê, se revelou uma criança dócil, fácil de cuidar e educar. Ia bem na escola, era amável e gentil, generoso mesmo, tanto com o irmão quanto com os amiguinhos.

Maria pode terminar os estudos, aprendeu inglês e, um dia, ouvindo um sucesso de Billy Paul no rádio, viu seus olhos encherem-se de lágrimas ao se deparar com um verso que traduzia exatamente o que ela sentiu, naquele estábulo, quando lhe nascera o primeiro filho: “How wonderful life is, now you’re in the world” (que maravilhosa é a vida, agora que você está no mundo).

Hoje, dia 25 de dezembro de 2003, Roberto Jesus recebe seus parentes e amigos para um grande almoço de natal, onde se comemora também o seu trigésimo terceiro aniversário. Maria e José, seus pais, estarão lá, felizes como sempre. Thiago, seu irmão, está trabalhando em Londres e veio especialmente para a festa. Roberto ainda está solteiro, mas namora uma moça muito bonita e inteligente e pretende casar-se com ela. Ele e José hoje administram um pequeno império de supermercados, que construíram na última década. São conhecidos por sua imensa generosidade para com os empregados. Roberto é um jovem bem sucedido, que acredita na distribuição de lucros, que pauta sua vida pelos mais nobres sentimentos, crendo sempre que o trabalho e a tolerância são os maiores dons do ser humano. Um dia, numa reunião da associação comercial, um colega empresário, assustado com as teorias daquele jovem, lhe perguntou:

- Mas, amigo, por que tanta generosidade assim?

E Roberto Jesus respondeu:

- Ora, porque somos todos filhos de Deus.

Natal 2003.
 

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